Cuiabá, Quarta-Feira, 21 de Novembro de 2018
MÚSICA E CINEMA
08.11.2018 | 16h40 Tamanho do texto A- A+

Tchaikovski é mero pretexto para trilha sonora de filme

O compositor russo se transformou apenas num chamariz de um filme que não decola

Divulgação

Cena do filme “O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos”

NEY ARRUDA
DA REDAÇÃO

O cinema encanta a Humanidade desde a década de 1910 do século passado. A ritualística de ir assistir um filme segue contagiando as pessoas: escolher o horário, aprontar, sair de casa, comprar o ingresso e pipocas. Sentar e ver as luzes da sala se apagarem. Quanto esforço coletivo está por detrás da resultante cinematográfica. Tudo fica relatado nos créditos iniciais ou finais: atores, fotografia, costureiras, cenários, iluminação, maquiagem, roteiristas, edição, diretores e muito mais como motoristas, cozinheiros, seguranças.

 

Mas um aspecto da produção de uma “película” (como dizem os espanhóis) continua sendo fundamental: a trilha sonora deve ser fascinante. Para o sucesso há que trabalhar com um exército de artistas: músicos de cordas, sopros e percussão, montadores de orquestra, solistas, engenheiros de som e gravação, cantores, arquivistas de partituras, arranjadores, afinadores de piano, maestros preparadores de orquestra, diretores de gravação, regentes principais e compositores.

 

A palavra “score”, isto é, a partitura que materializa o conjunto da composição de música para cinema. Em específico, de um filme é uma atividade minuciosa e “cirúrgica”. Cada nota, seja uma lenta semibreve até uma velocíssima treta-fusa deve ilustrar toda circulação em cena. Um gesto dramatúrgico poderá merecer a estruturação de um ou mais compassos. O diálogo de dois personagens hipoteticamente consumirá a construção de um movimento musical inteiro. Com trilha sonora escrita para até vinte, trinta instrumentos distintos. E o possível desdobramento de cem ou mesmo duzentos compassos. É complexa a vida criativa de um profissional da composição de música cinematográfica.

 

O norte-americano James Newton Howard sabe seu bem seu ofício. Experiente autor de música para cinema tem em seu currículo a trilha sonora de obras como “Malévola”, “Jogos Vorazes”, “O Legado Bourne”, entre outros. Trafega com galhardia por vários estilos: aventura, ficção, infanto-juvenil etc. Por isso é um dos queridinhos dos Estudios Disney. Não sabíamos, mas ao conferir o novo filme “blockbuster” (previsível campeão de bilheterias), intitulado “O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos” no dia 02 de novembro passado. Estávamos numa semana de estreia mundial nos USA e também em Cuiabá. Quem diria que depois de 35 anos poderia se viver isso: pois no passado se aguardava entre seis meses a um ano para assistir um filme novo depois de sua première no hemisfério norte.

 

Na realidade, o filme em si somente tem chances de agradar as crianças. Já que fica monótono para adultos. Quem pôde viver, mesmo que na sessão da tarde ou em DVD, filmes clássicos. Como “A bela e a fera” e o imortal “Alice no País das Maravilhas” sente o desgaste da indústria cultural cinematográfica, a repetição da fórmula, o encanto alquímico da fantasia anulado. Pouco importa quem dirigiu: na resultante do filme, infelizmente se tem o potencial de esquecê-lo já nos corredores para sair do cinema.

 

Claro que o molde do visual ao início do filme amima. Entusiasma mesmo, a partir da estética tradicionalizada de longas-metragens do gênero com figurinos impecáveis, uma diretoria de arte esforçada e cenários ricamente decorados. Porém o enredo não decola. As crianças ficam muito atentas inclusive quanto à banalidade da narrativa. E o que sobra para quem tem modestamente tantas horas de poltrona de cinema, como você que me lê? A princípio, na abertura das cenas surgem brilhantes impressões quase que originais da suíte do Balé Quebra Nozes (Opus 71 de 1891-1892) do compositor romântico russo Piotr Ilich Tchaikovsky (1840-1893). Mas são apenas reminiscências melódicas. Nada mais do que relembranças ora lideradas pelo piano solista, cada vez mais longínquas, à medida que o filme avança.

 

Tchaikovsky se transformou apenas num chamariz do filme. O pretexto para utilizar alguns compassos de temas basais de seu balé “Quebra-Nozes”. Este é o nome do soldado personagem coadjuvante principal do filme. A Walt Disney Records reuniu um time cuja folha de pagamento dos honorários profissionais, realmente deve ter sido milionário. Assim temos o regente venezuelano radicado agora nos Estados Unidos, maestro Gustavo Dudamel, umas das sensações das salas de concerto na Europa. O pianista chinês Lang Lang cujos concertos são super concorridos e ingressos disputados quase no tapa. Philharmonia Orchestra de Londres, uma respeitada e longilínea instituição musical inglesa. E o talento arranjador de James Newton Howard.

 

Outro projeto acessório, além do filme e gravação da trilha sonora da Walt Disney Records. É o encabeçado pelo maestro Gustavo Dudamel e a Los Angeles Philharmornic Orchestra, que gravaram também a Suíte Quebra Nozes com base na partitura original de Tchaikovsky. O álbum será lançado pelo selo (antigamente alemão) Deutsche Grammophon, que hoje pertence à gigantesca multinacional Universal Music. Comprova-se aqui o radicalismo da visão de mercado que o Capital no Mundo da Cultura de Massa representa. Um novo produto ‘filme’ a ser lançado potencializa vendas de uma ampla gama de produtos: chaveiros, camisetas, copos, brinquedos, xícaras, pôsters, abrigos, tênis, mochilas, canetas, lápis e muito mais.

 

Inclusive serve para impulsionar a venda de outros produtos em DVDs, CDs, Blu-ray. Aquelas inúmeras regravações de clássicos como essa outra nova leitura do Quebra-Nozes de Tchaikovsky. Obra que já foi objeto de incontáveis registros fonográficos e múltiplas versões. As quais se acumularam em pilhas encalhadas de variantes feitas outrora por muitos maestros e orquestras. Material que virou liquidação a preço de banana na forma de LPs, fitas K-7. E até mais recentemente em CDs e DVDs. Isso a cerca de 20 ou 30 anos. Tome-se como exemplo que “As Quatro Estações” de Vivaldi conta com mais de 400 versões gravadas. Aí é que se vê que a indústria cultural na ânsia do lucro repete e reproduz a obra “ad nauseam”.

 

Regressando à trilha sonora do filme: declarou o pianista Lang Lang: “James fez a sua parte”.  De fato, o compositor e arranjador James Newton Howard, para o filme revisitou a composição original de Tchaikovsky, reestruturou o discurso musical, manipulou e reelaborou as vozes orquestradas genuinamente. Sim, ele criou um produto estético para o cinema. Contudo, sem o contexto das imagens do filme, não sobrevive como uma gravação de algo original. Pois o balé Quebra-Nozes de Tchaikovsky mantém ainda hoje a dimensão da verdadeira “áurea da obra de arte”. A criação de James Newton Howard não é uma obra absolutamente pura e inovadora em sua integralidade. Sua “magia, brilhantismo e espiritualidade” – como afirmou Lang Lang, parece se limitar apenas à abertura do filme.

 

Pois Howard, tampouco trabalhou como se fizesse as mudanças sinfônicas de um tema como Serge Rachmaninoff fez nas “Variações sobre um Tema de Paganini”. Ou como compôs Johann Sebastian Bach em sua obra chamada as Variações Goldemberg. Se assim o tivesse feito, estaríamos diante de uma obra que resistiria ao tempo, sendo objeto de contemplação e análise estética dentro dos próximos 50, 100 anos (se é que o planeta resistirá incólume tanto tempo do ponto de vista ambiental, não é mesmo?).

 

Mas a investida do produto catapultado no mercado pelas multinacionais em questão. Serve também para lançar ou aquecer subprodutos como novas carreiras. Exemplo do filho do cantor lírico Andrea Bocelli. Convenhamos: é um lance de mestre! Verdadeiro cheque-mate nas menores empresas do ramo. Coisa só imaginável no planejamento feito num escritório de doutores em engenharia de produção. De verdade que o “Show Business” feito nos Estados Unidos não é para neófitos ou amadores. Um filme pode lançar jovem cantor, acalentar carreira artística de pianista, expandir negócios de maestros do momento. E ainda engorda conta bancária de arranjadores do primeiro time de Hollywood, além de triplicar milhões de dólares investidos. De quebra, revive ainda que sutil e artificialmente, a memória de compositores do século XIX como a de Tchaikovsky. Maravilhas do capitalismo pós-moderno!

 

SERVIÇO:

 

O que é? Filme infanto-juvenil

Título? “O Quebra-Nozes e os quatro Reinos”

Onde? Nos melhores cinemas da cidade

 

Ney Arruda é professor da UFMT e doutor pela Universidad Pablo Olavide

 

 




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