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Opinião / PAULO LEMOS
10.01.2017 | 23h00
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Um preso chamado Jesus

Cristo foi levado até à cruz pelos "homens de bem" da sua época, como sendo um ser desprezível e pernicioso

Jesus, para os judeus da sua época, principalmente à seita que detinha maioria no Sinédrio, os fariseus, fervorosos religiosos e homens zelosos da Torá, foi considerado um herege e até apóstata, alguém que cometeu o mais abominável pecado possível, a blasfêmia contra o Espírito de Deus, por dizer que era o messias, o filho primogênito do Pai celestial, afastando-se, assim, da sua religião originária, o judaísmo. 
 
É como se Jesus tivesse cometido um crime hediondo, inafiançável, o mais grave de todos, mais até do que roubar ou matar, aos olhos da comunidade judaica. Portanto, não cabia qualquer clemência ou indulto a ele, apenas a morte vexatória e degradante mediante crucificação pública, escárnio a olhos nus e martírio em carne viva.
 
Então, ele foi preso, acusado, processado, condenado, torturado, morto e enterrado. Cristo foi levado até à cruz pelos "homens de bem" da sua época, como sendo um ser desprezível e pernicioso para a sociedade de então. 
 
Mesmo assim ele perdoou a todos e não desejou a morte e o sofrimento de nenhum deles. Ao invés de defender que bandido bom fosse bandido morto, levou o ladrão que foi crucificado ao seu lado para casa, para estar ao lado do trono de Deus, como ele vaticinou momentos antes de expiar.
 
Com relação aos presos, em Mateus capítulo 25, em vez de fazer apologia à tortura ou à carnificina deles, Jesus nos exortou a visitar eles. Ensinou o amor e o perdão, ao revés de o ódio e a vingança. 
 
Todavia, muitos cristãos de hoje em dia defendem a prisão perpétua e a pena de morte, não demonstram qualquer discordância com a tortura nas celas e justificam o genocídio de presos como sendo a colheita natural dos frutos das sementes que plantaram.
 
Alguns até aparentam querer que isso ocorra com mais frequência, como defendeu o secretário nacional de juventude do governo Temer, exonerado a pedido.
 
Esquecem-se que Jesus foi um preso da sua época, condenado por aqueles que seriam os mais santos dos santos, os membros do Sinédrio, que consideraram-no um sujeito repugnante e corrompido pela ganância e pela vaidade, senão acometido por uma psicose, sentimento de grandeza, euforia e delírios, como alguém com esquizofrenia ou bipolaridade. 
 
Trataram-no como sendo um ser desprezível, indigno de qualquer consideração. Um alvo que precisava ser eliminado, a bem dos bons costumes e da tradição religiosa, ante a raiva, o ódio e os preconceitos mais rudimentares que ele despertou em seus julgadores, tanto entre os religiosos, quanto entre o povo que o mandou para o abatedouro.

Esquecem-se que Jesus foi um preso da sua época, condenado por aqueles que seriam os mais santos dos santos, os membros do Sinédrio

Hoje sabemos que estavam todos errados. 
 
Falando em erros, embora o Judiciário não costume reconhecer que erra, logicamente que ele não está livre de falhar, por uma série de fatores, ora e outra condenando pessoas sem culpa, sendo que, em países onde vigora a pena de morte, muitos foram reconhecidos inocentes já depois de enterrados.
 
Sobre isso, o notável jurista Pietro Verri (1728-1797) advertiu que "mais valeria poupar vinte culpados do que sacrificar um inocente".
 
E como os mais ricos mormente teriam, como de fato têm, condições de contratar os melhores advogados, as melhores bancas jurídicas, além do caráter plutocrático e oligárquico do nosso Sistema de Justiça, fatalmente tais falhas ocorreriam com maior incidência contra os mais pobres, como já ocorre hoje. Ora, quem congestiona o cárcere brasileiro, os ricos ou os pobres? 
 
Tal política criminal não mais serviria apenas como instrumento de controle das classes despossuidas, como assumiria a feição oficial de máquina mortífera de eliminação daqueles que pouco ou nada podem dar para o andar de cima.
 
Em alguns países, para se ter uma ideia, o extermínio em massa dos condenados à pena de morte, quase sempre pessoas pobres, quando não miseráveis, serve para patrocinar um lucrativo mercado de compra e venda de órgãos (coração, pulmão, rim etc...), obviamente que pago por quem tem muito dinheiro, os mais ricos.
 
Cesare Beccaria (1738-1794), em sua célebre obra, Dos Delitos e das Penas, depois de ensinar que mais importante do que o peso da pena é sua efetiva aplicação e solução humanitária do problema, indaga em palavras que se aproximam destas: "- Do que adianta o suplício capital do preso?" 
 
Alhures, no mesmo trabalho, ele gravou como idiossincrática que "as leis, que são a expressão da vontade pública, que abominam e punem o homicídio, o cometam elas mesmas é que, para dissuadir o cidadão do assassínio, ordenem o assassínio público".
 
Retornando a história do cristianismo, logo que ele alcançou maior e mais relevante standard social e político, além de obviamente religioso, já não sendo mais tratado como uma seita judaica radical, e, sim, como uma novel religião, parte dos seus líderes atribuíram aos judeus a responsabilidade pelo crime capital do assassinato do "filho de Deus". De perseguidos tornaram-se perseguidores.
 
A partir disso, perseguições, flagelos e execuções de judeus foram justificados ante um suposto senso de "justiça divina", quando a história revelou que não passou de fanatismo, revanchismo, vingança e disputa de poder.
 
Afinal, a perseguição e carnificina promovida em face dos judeus, em séculos ulteriores, a pretexto de fazer justiça ao sangue derramado de Jesus, serviu para quê? 
 
Serviu apenas para abalar a imagem do cristianismo e revelar seu lado obscuro durante parte considerável da sua história. 
 
Entendeu o porquê de o justiçamento com as próprias mãos e penas cruéis, como a pena de morte, não serem capazes de resolverem nada, somente de escancarar nosso nível de involução cultural e civilizatória, incitando a cultura da violência e o estado de guerra de todos contra todos, como professava crer Hobbies estar o homem em estado de natureza?
 
Em verdade, caso fôssemos sinceros conosco e com os demais, iríamos assumir que já fomos e somos contraventores e pecadores, nalguma medida. Isso significa que todos temos de morrer e ir para o inferno? Óbvio que não! 
 
Por isso Jesus disse aos apóstolos que intercedeu por eles quando a figura mítica de Satanás desafiou que fossem todos passados na peneira. Intercedeu a fim de preservá-los do teste. Cristo sabia que não sobraria nenhum prá contar história. 
 
É impressionante como se passaram mais de dois mil anos e muita gente, cristãos inclusive, não entenderam isso, e preferem continuar comportando-se como o fariseu que julgou o publicano dentro do Templo.
 
Paulo Lemos é advogado em Mato Grosso.



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11 Comentário(s).

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Rodrigo Caetano  11.01.17 18h02
....texto muito bem elaborado pelo nobre doutor, porém o contexto da história ( o que é fato ainda mais relevante que a própria prisão de Cristo ), e o simples fato Dele ser inocente. Comparar sua prisão com o quadro do Brasil atual é pecar contra sua Alma impecável. Se pelo menos 1% dos presos do Brasil hoje forem de fato inocentes, vamos lá...vamos erguer a bandeira da justica e apoia lo, porém é diferente, enquanto Jesus combatia a falsa religião, expulsava comerciantes do templo, curava leprosos no dia sabado, enfim fazia tudo o que a sociedade de fato almejava, nós aqui dos nossos presos recebemos roubos, morte , estupros, sequestros e barbáries de todos os tipos...acho infeliz a comparação feita.
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Lucio da Manga  10.01.17 17h56
Pelo menos não comparou Jesus com LULA neh, pelo menos isso...
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Jose Maria  10.01.17 17h28
Parabéns Dr pelo breve relato a respeito do comportamento humano.
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ivanilda santos  10.01.17 13h24
Que os homens de nosso tempo se espelhem em vc, a muito não leio texto tão verdadeiro.....por isso ainda acredito na humanidade, pois ainda existe pessoas de bem com vc...parabéns...
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JEFERSON MATOS  10.01.17 12h08
No fim das contas se matou muito em nome de jesus e ainda se mata em nome dele. Religiões: seria melhor sem elas.
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