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Opinião / ALANA CARDOSO
14.09.2018 | 23h33
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Setembro Amarelo

É necessário lidar com as frustrações do cotidiano para que se possa enfrentar a realidade por detrás das redes sociais

Quem foi jovem no período pré internet percebe facilmente a diferença entre as relações sociais do passado e as de agora. Hoje a tecnologia nos permite a comunicação virtual com centenas, milhares de pessoas, sem que nenhuma delas esteja de fato se comunicando. O contato é simplificado, superficial, rápido e volátil.

 

De igual modo, percebe-se a efemeridade e a fragilidade das relações que se manifestam por meio de teclas para deletar, excluir e bloquear indivíduos ocultos por codinomes ou sorrisos em selfies estratégicas.

 

Não raro se observa a mera contrariedade de opinião em discussões virtuais como fundamento para o descarte do interlocutor através de poucos cliques. Quem nunca viu isso nos últimos anos deve ter sido abduzido por seres de outro planeta...

 

Outro aspecto diretamente relacionado à mudança de comportamento se encontra claramente nas relações afetivas, quando as pessoas simplesmente se afastam umas das outras, sem diálogo, justificativa, discussão e nem lamentações.

Nesse sentido, quando o indivíduo por qualquer razão busca alguma conexão (este seria o termo mais adequado às relações atuais) mais sólida com outro, depara-se com a muralha do eucentrismo impedindo qualquer aproximação que permita enxergar além da selfie ou do post publicados

A princípio se pode compreender que esse tipo de rompimento seja inodoro, insípido e indolor, mas também inútil por que não representa necessariamente um encerramento, senão a substituição de interesses imediatos oportunizando uma reconexão futura. Contudo, talvez seja uma metodologia muito mais nociva por que não proporciona nada além do vazio. Nenhuma das partes envolvidas extrai qualquer ensinamento do que foi vivenciado, exceto que poderia ter pensado mais em si próprio para se poupar da situação de rejeição, fomentando ainda mais a principal característica comportamental do século XXI, o individualismo.

 

Nesse sentido, quando o indivíduo por qualquer razão busca alguma conexão (este seria o termo mais adequado às relações atuais) mais sólida com outro, depara-se com a muralha do eucentrismo impedindo qualquer aproximação que permita enxergar além da selfie ou do post publicados.

 

Sobre o eucentrismo, na intenção de conferir certa leveza a assunto tão sério quanto o Setembro Amarelo, chamemos jocosamente a somatória do nosso individualismo, egoísmo e egocentrismo de EUCENTRISMO (se é que esse termo já não foi cunhado por pensador mais qualificado).

 

Pondere-se que para a maioria de nós não é o homem enquanto indivíduo que importa, mas somente o eu enquanto centro do meu próprio universo que interessa a mim mesmo, sem qualquer plenonasmo na construção da frase.

 

Talvez por essa natureza superficial e frágil das relações pessoais estejamos vivendo a era do politicamente correto malconcebido, quando qualquer palavra pode ser compreendida como ofensa porque os seres humanos se tornam fracos e intolerantes e para se protegerem de suas próprias emoções estabelecem conexões sociais superficiais falsas e fúteis, como fossem relações de consumo, como ensinou Zygmunt Bauman.

 

Sob o prisma da modernidade líquida de Bauman questiona-se o quanto a fragilidade e fluidez das relações interpessoais do mundo atual têm afetado ou contribuído para o aumento do comportamento depressivo e com eles os suicídios em face do isolamento e da solidão que o eucentrismo acarreta.

 

Em dois anos lidando com ocorrências de suicídio na Delegacia Especializada de Proteção a Pessoa percebemos que as vítimas comumente apresentam comportamento depressivo e por vezes faziam tratamento contra Depressão. Entretanto em boa parte dos casos as famílias jamais cogitaram a possibilidade da auto-eliminação em seus lares.

 

Isso nos leva a pensar sobre a necessidade de abordar o tema ampla e francamente, uma vez que essas situações se instalam em todas as classes sociais, faixas etárias, gêneros e raças e têm se tornado cada vez mais freqüentes, assim como a Depressão que já é considerada endemia.

 

A OMS divulgou ano passado números que colocam o Brasil como campeão de casos de depressão na América Latina apontando que 5,8% da população nacional seja afetada pela doença.

 

Os estudos publicados sobre suicídio no Brasil em geral apontam o comportamento depressivo como característica da vítima suicida e também colocam a habilidade nas relações sociais como um dos fatores de proteção ao comportamento suicida, logo, acreditamos seja inegável a relação.

 

Por conseguinte, pensemos como um efeito “geladeira” nas palavras da filosofia popular do cantor Wesley Safadão, atua numa pessoa que já apresenta um quadro depressivo com emprego de medicamentos... (sobre o efeito geladeira recomendo a leitura das letras das músicas do artista e de outros sucessos populares).

 

De que maneira um adolescente que não se encaixa nos padrões estéticos e comportamentais das mídias sociais reage a um bullying virtual que não tem efetiva solução, já que o conteúdo postado em rede social foge ao controle das controladoras dos sitios. Ou seja, meu caro leitor, um vídeo postado por meio de certos aplicativos jamais será excluído da rede mundial de computadores e o indivíduo que estiver incomodado com isso terá que conviver eternamente com esse incômodo.

 

É necessário lidar com as frustrações do cotidiano para que se possa enfrentar a realidade por detrás das redes sociais e das conexões (relações) superficiais e fluidas.

 

Os humanos da atualidade vêm se protegendo uns dos outros visando escapar das contrariedades e se fecham em si mesmos. Contudo, têm deixado de experimentar da vida o que ela melhor pode oferecer: o sentir, e quando algo foge ao controle (sempre vai fugir) o efeito é devastador conduzindo a comportamentos depressivos por causas que antes eram vivenciadas com naturalidade pelos nossos antepassados próximos.

 

Sem qualquer pretensão terapêutica, apenas como humano vivente nesta era eucêntrica, conclamamos o leitor a se emocionar e a se vulnerabilizar em relações reais buscando resgatar o respeito, a compaixão, o altruísmo e a lealdade que parecem ter sido esquecidas no século passado.

 

Lembramos que os efeitos desse modelo líquido de interação social está presente em nosso cotidiano, lares, filhos e talvez sem perceber estejamos fomentando e reproduzindo a fluidez das relações que pode levar a tragédias que afetarão nosso mundo eucêntrico. Será que nossas relações familiares não têm sido igualmente líquidas?

 

Aproveitemos o mês escolhido pela OMS para conscientização da importância e da proximidade do suicídio e do que podemos fazer para nos protegermos dele e da necessidade ajuda especializada quando presentes alguns dos sintomas de depressão ou mesmo do comportamento depressivo.

 

ALANA CARDOSO é delegada-adjunta de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) em Cuiabá.




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2 Comentário(s).

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Larissa Santos   14.09.18 14h43
Agradeço a matéria publicada voltada para este tema do suicídio, que foi muito bem escrita pela Dra. Alana. Ela nos alerta para o modo como nos relacionamos e para que estejamos atentos aos sintomas da depressão entre as pessoas próximas. Que possamos viver com maior amorosidade! Obrigada!!
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samuel  14.09.18 10h27
Excelente texto Dra. Alana!!
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