ENQUETES

A que você atribui a renovação da Assembleia e da Câmara neste ano em MT?

PUBLICIDADE

Opinião / EDUARDO BUTAKKA
08.10.2018 | 06h20
Tamanho do texto A- A+

Por que deixamos de questionar?

Queremos mesmo mudança ou esse é só um mantra que entoamos enquanto mantemos nosso status quo?

O dia era sábado e meus amigos e eu já havíamos decidido o que fazer: iríamos ao teatro às 20 horas, ver o espetáculo “ Cabaré aberração” e, mais tarde,  ao cinema assistir ao filme “Venon”.

 

No teatro, ficamos impressionados com a tragicomédia montada pelos alunos da MT Escola de Teatro. Figurinos maravilhosos que somados ao cenário criavam um clima buslesco. Tudo estava na medida e alinhavado pela dramaturgia inusitada de Talita Figueiredo. A história era simples: um cabaré habitado por figuras excêntricas e “corpos desviantes”, como disse sua própria personagem. Mas o que fascinava mesmo eram os temas abordados: machismo, patriarcado, homofobia, violência, preconceito...

 

Lembraram que nosso país é o que mais mata travestis e transsexuais no mundo (e o que mais procura por elas nos sites pornôs. Irônico, não?). Tudo parecia depoimentos sinceros e não texto decorado pelos atores. A peça era um soco no estômago e um grito de desespero.

 

Entretanto, a vida insiste em seguir.  E seguimos ao cinema para assistir ao famigerado “Venon”. Escolhemos tudo o que tínhamos direito ao preço que nos foi cobrado, que inclua óculos 3D e tudo mais.

Munidos de um balde de pipoca entramos. Éramos um clichê pronto para se deleitar com outro na tela

Munidos de um balde de pipoca entramos. Éramos um clichê pronto para se deleitar com outro na tela. O filme começou e, passados cerca de quinze minutos da sessão, desconfiado, resolvi retirar meus óculos 3D e percebi que os prometidos efeitos de terceira dimensão não aconteciam. Para não passar vergonha sozinho, provoquei meus amigos a fazerem o mesmo. Todos retiraram os óculos e concordaram comigo. O filme não era em 3D. No entanto, olhamos em volta e o restante da plateia continuava com seus óculos, vidrados naquele blockbuster.

 

Dali em diante era como se eu tivesse tomado a pílula vermelha de Matrix. Nada mais fazia sentido. Aquele filme, o preço dos ingressos, as pessoas que continuavam fingindo assistir a um filme em três dimensões. Eu estava indignado e precisava fazer alguma coisa. Saí da sala e procurei o gerente. Ele conferiu meus ingressos, depois me acompanhou até a sala de exibição e me confidenciou, como se ao mesmo tempo em que me pedia desculpas quisesse me fazer cúmplice daquele disparate. O filme realmente não era 3D. Mas, como não era meu objetivo perturbar a paz daqueles que se contentavam com seus óculos descolados e também porque não resisto a cortesias de cinema, aceitei a proposta do gerente.

 

Retornei à sessão com minhas cortesias em forma de reembolso e com aquela ideia fixa na cabeça: por que as pessoas não retiravam seus óculos 3D? Como era possível não perceberem?

 

Na realidade, tem coisas que só a ficção é capaz de explicar. Veio-me logo à cabeça o livro “O Mágico de Oz” onde todos que chegavam à Cidade das Esmeraldas eram obrigados a usar óculos com lentes verdes o tempo todo. Assim, todos acreditavam que a cidade é que era verde e não seus óculos. Mas como a vista era linda, ninguém questionava.

 

Nem de longe quero traçar um comparativo entre uma arte ou outra, pois sou amante das duas em questão. O foco aqui é a plateia de cada evento e eu me incluo nela.

 

Enquanto uma se propôs a enfrentar assuntos desconfortantes, a outra nem foi capaz de perceber o que acontecia a sua frente ou, se percebeu, nada fez pra mudar.

 

Queremos mesmo mudança ou esse é só um mantra que entoamos enquanto mantemos nosso status quo? Mas o que podemos fazer, então? É que a vida é dedo na ferida.

 

E como desgraças acontecem aos montes e o tempo todo, quando recebemos pequenas alegrias, deixamos de questionar.

 

Obs: vejam teatro! Sempre é em 3D.

 

EDUARDO BUTAKKA é comunicólogo, ator e professor de teatro da rede pública estadual




Clique aqui e faça seu comentário


0 Comentário(s).

COMENTE
Nome:
E-Mail:
Dados opcionais:
Comentário:
Marque "Não sou um robô:"
ATENÇÃO: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. Comentários ofensivos, que violem a lei ou o direito de terceiros, serão vetados pelo moderador.

FECHAR

Preencha o formulário e seja o primeiro a comentar esta notícia

Leia mais notícias sobre Opinião:
Outubro de 2018
22.10.18 08h45 » Pontos fora da curva
22.10.18 08h30 » Quem és?
22.10.18 08h28 » Mudanças proativas
22.10.18 08h15 » Sem crise: É preciso inovar e ensinar
22.10.18 08h00 » Semana de expectativas
22.10.18 07h05 » A humildade venceu a arrogância
22.10.18 06h57 » Princípio da vivência
21.10.18 08h14 » A lorota árabe
21.10.18 08h06 » Re-construção
21.10.18 07h40 » O Messias que o povo esperava

1999-2018 MidiaNews - Credibilidade em Tempo Real - Tel.: (65) 3027-5770 - Todos os direitos reservados

Ver em: Celular - Web