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Opinião / ROBERTO BOAVENTURA
17.04.2017 | 07h30
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"Os dias eram assim"

Em meio a miséria cultural alimentada pela mídia, só esse resgate histórico já seria motivo de comemorar

Na história das telenovelas brasileiras, 1989 foi marco por conta de dois trabalhos da Globo: “O Salvador da Pátria” e “Que Rei Sou Eu?”. Só para lembrar: novembro daquele ano, o Brasil elegeu, de forma direta, o primeiro presidente após o golpe militar/64.

 

Na primeira das telenovelas, em horário nobre, de 9 de janeiro a 11 de agosto de 1989, Sassá Mutema – um camponês analfabeto, honesto e cheio de idealismo – chegou ao poder de sua cidade e, por ele, logo foi corrompido. A analogia com Lula, que ainda representava um projeto popular de governo, era explícita. Na extensão disso, a voz de Gilberto Gil, em delicada canção do tema de abertura – "Amarra o Teu Arado a Uma Estrela" –, fazia o papel de ligar tudo ao PT e ao MST.

 

A “estrela” do poema-musicado de Gil foi o principal dos signos utilizados. Quase que simultaneamente – de 13 de fevereiro a 16 de setembro de 1989 –, no horário das 19 horas, o país assistiu à rainha Valentine assumir o trono de Avilan, após a morte do rei Petrus II. Todavia, ele deixara um filho bastardo que havia tido com uma camponesa.

A emissora trará explícita mensagem política – repito, providencial – de repulsa a qualquer candidato à presidência da República que possa ser identificado com esse tipo de regime

Sem ter um herdeiro, os conselheiros colocam um mendigo no trono, posando como o verdadeiro sucessor. Novamente, a mesma analogia estava estabelecida; assim, abortava-se, naquele momento, um projeto político que se contrapunha ao neoliberalismo.

 

Hoje, estamos em ano precedente a novas eleições presidenciais. Outra vez, a Globo entra em ação. Todavia, pasmem, agora, de forma providencial. Quem diria!

 

No próximo dia 17, no horário das 23h, a citada emissora levará ao ar o primeiro capítulo de sua mais nova supersérie “Os Dias Eram Assim”, título extraído da engajada canção “Aos nossos filhos” de Ivan Lins e Vitor Martins, e imortalizada por Elis Regina: “Perdoem a cara amarrada/ Perdoem a falta de abraço/ Perdoem a falta de espaço/ Os dias eram assim...”.

 

Em meio a miséria cultural alimentada pela mídia, só esse resgate artístico/histórico já seria motivo de comemorar. Mas há mais a ser observado: a intenção que pode estar por trás da realização dessa produção; qual seja, uma interferência política.

 

Partindo da mesma referência do filme “Pra frente Brasil” (1982) de Roberto Farias, o enredo dessa supersérie é bem marcado: 21 de junho de 1970, data em que a Seleção Brasileira de Futebol, no México, tornou-se tricampeã mundial da Copa do Mundo.

 

Enquanto a massa vibrava com a façanha da “seleção canarinho” (assim era chamada nossa seleção), um conjunto de brasileiros, assim como o irmão do Henfil, simplesmente sumia em tantos “rabos de foguete”. O regime militar expunha sua força mais brutal possível. Atrocidades cometidas com quem fosse identificado como subversivo/comunista eram de arrepiar. A tortura abafava as consciências críticas. Aos descontentes, o convite era explícito: “Brasil: ame-o ou deixe-o”.  

 

É nesse clima de violência extrema dos militares que as personagens de “Os Dias Eram Assim” apresentar-se-ão. Logo, a emissora trará explícita mensagem política – repito, providencial – de repulsa a qualquer candidato à presidência da República que possa ser identificado com esse tipo de regime.

 

Ao fazer isso, a emissora pode estar tentando apagar sua imagem sempre negativa, carimbada durante o regime militar de 64 e anos subsequentes. Mais: pode contribuir para que o povo brasileiro pense bem antes de dar aval político a candidatos do tipo Bolsonaro. E convenhamos, o risco é grande, pois o cenário político-partidário está em estágio de putrefação como “nunca antes visto na história deste país”.

 

Roberto Boaventura da Silva Sá é Dr. Jornalismo/USP; Prof. Literatura/UFMT




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8 Comentário(s).

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João Bosco da Silva  18.04.17 16h30
Li seu artigo de opinião, professor Roberto. Achei PROFUNDAMENTE salutar suas colocações. Parabéns pelo artigo. É momento de refletirmos, enquanto cidadãos e cidadãs QUE FUTURO QUEREMOS PARA O BRASIL? E não deixemos isso para depois, comecemos isso agora.
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inacio  17.04.17 20h44
A História (aquela com H) dirá a verdade. Isso é inevitável, pode haver mil petebas ou viuvas de Fidel para atrapalhar mas a sua marcha é inexorável. Cabe as próximas gerações dizer qual o lugar de Ustra na História e não àqueles que estão aí. Temos outro CALABAR em nossa História.
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CEZARIO JOSE GOMES  17.04.17 17h44
Com as devidas pontuações, durante o período em que o Brasil foi governado por militares, houve sem dúvida uma dura oposição do governo aos que defendiam a política "comunista" Leninista, que se mesclavam com anarquistas, guerrilheiros e outros que buscavam liberdade a todo custo. Com a forte perseguição militar muitos dos que faziam oposição foram presos, outros deixaram o Brasil. Em 1979, com a anistia política muitos foram soltos, outros retornaram de exílios. Deu no que deu, assumiram o poder e tornaram o Brasil numa vergonha mundial. Hoje a sociedade brasileira de bem está presa, doente, desempregada, empobrecida moralmente, sendo governada por dirigentes corruptos, alguns deles são os mesmos que lutaram contra os governos militares. Infelizmente hoje estamos muito pior do que antes. Por fim, espero que esta série não se limite a mostrar atos de violência cometidos pelos militares, mas também os atos violentos cometidos por aqueles que se diziam de esquerda e queriam implantar um comunismo tupiniquim a la Fidel e a la Chávez a todo custo.
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ROCHA MATOS  17.04.17 15h13
A nação brasileira clama por um país decente, governado por pessoas que realmente respeitem o povo, e as instituições constituídas façam o seu trabalho de fiscalizar e punir os corruptos e corrompidos. O que não dá para aceitar é esse desmando que ocorrem em todos os poderes corroídos por interlocutores que se beneficiam de todo essa sujeira que denigrem a imagem do país e desgraçam a vido do povo, principalmente o menos favorecido. Creio que as colocações feitas pelo professor nos alerta em relação aos políticos que se colocam como sendo a melhor opção para o Brasil, o que na verdade não os são. Nós já vimos esse filme com Jânio Quadros em 1960, cujo slogan era a vassoura, prometendo varrer a corrupção do nosso país e mais recentemente o Fernando Collor que prometia caças aos Marajá, e vocês já sabem muito bem no que deu, o primeiro renunciou e o segundo arrogante que era, sofreu impeachment.
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Moraes  17.04.17 13h30
General Erneto Gaisel foi profético qdo em algum momento se expressou da seguinte forma: " se é vontade do povo brasileiro eu promoverei a abertura política no Brasil, mas chegará um tempo que o " Povo" e não anarquistas, sentirá saudade do regime militar. Pois muitos desses que lideram o fim do regime não estão visando o bem do povo, mas sim seus próprios interesses". A delação (Operação Lava jato) do dono da Odebrech reflete muito claramente o exposto acima.
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