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Opinião / ROBERTO DE BARROS FREIRE
15.05.2018 | 05h20
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Ocupar ou usurpar, eis a questão!

Professores, estudantes, servidores privatizam a universidade quando deliberam pelas greves e ocupações

Professores, estudantes, servidores privatizam a universidade quando deliberam pelas greves e ocupações; decidem que estão acima da sociedade civil e que podem instrumentalizar a universidade para defenderem seus interesses privados.

 

Não percebem que a universidade não lhes pertence, mas sim à sociedade civil. Se autointitulam senhores das universidades, que podem se utilizar de meios públicos para defenderem seus interesses pessoais e privados.

 

E ainda que a intenção seja medir forças com os governantes, os governantes simplesmente ignoram professores, estudantes e servidores, que sem força política, sem apoio social ou popular, se autoimplode antes que se precise desperdiçar gás lacrimogêneo com os mesmos.

É triste ver como as pessoas pouco pensam e se arvoram o direito de deliberar sobre tudo para todos

Os únicos incomodados são as famílias dos estudantes, a sociedade civil que depende de atividades acadêmicas, a maioria dos professores e estudantes que não querem esse movimento, mas são forçados a aderir, ou pelo menos não se contrapor, para não sofrerem ameaças.

 

É triste ver como as pessoas pouco pensam e se arvoram o direito de deliberar sobre tudo para todos. Só eles sabem o que é o certo e o justo, e quem não concorda com eles é “antidemocrático”. Crítica rasa e superficial, incapaz de aceitar as diferenças de pensamento.

 

Como não conseguem convencer ninguém, senão os já convencidos, querem impor aos demais suas idiossincrasias, e assim, evitando qualquer debate ou conversação, decretam tiranicamente que só entra nos prédios ocupados para discursar quem referenda suas posições, e vão deixando sua mensagem pequena, sua atuação política medíocre, que quer apenas prejudicar o governo e prejudica fundamentalmente a sociedade civil: o governo nem vê, nem sente as ocupações. Já a sociedade fica profundamente incomodada.

 

Naturalmente, podem-se supor boas intenções por trás das lutas dos estudantes, professores e servidores, o que não acredito, mas a forma é injusta, tirânica, autoritária, e o errado está antes na forma do que no conteúdo. Hitler também quis salvar o mundo, e deu no que deu.

 

Ainda que possam achar que estão defendo o interesse de uma coletividade, dos excluídos, dos pobres, enfim, dos que mais precisam, o fato é que não respeitam os direitos individuais de todos, ricos ou pobres, excluídos ou incluídos, dos que mais precisam e dos que menos precisam, até deles próprios. Agir com violência e força ainda que supostamente em nome de uma vontade coletiva, não visa à constituição do bem comum, mas a imposição de uma visão sobre as demais.

 

Avessos aos debates, a política no meio acadêmico se caracteriza pelo uso da força e da violência, querendo chamar a atenção da sociedade pelo prejuízo que lhe causa, e obrigando a maioria a se submeter a uma minoria ativa que monopoliza as instâncias deliberativas.

 

Ao invés da forma pacífica e democrática do debate de ideais e convencimento, sem paciência, tolerância, respeito, está-se sempre a deliberar por uma nova greve ou ocupação – única forma de prática política que conhecem. Em assembleias pouco representativas, meia dúzia de gatos pingados delibera sobre todos, sem colocarem em referendo suas deliberações. Forçam a todos às suas decisões reacionárias.

 

A Universidade é um bem público e, como tal, não pode simplesmente ser "ocupada".  Ocorre uma privatização do bem público – quando alguns estudantes “administrando” esse espaço comum, onde todo cidadão pode frequentar normalmente, torna-o privado, permitindo apenas a aqueles que eles determinam sua livre frequentação.

 

Rigorosamente, a universidade está vazia de estudantes e professores, servindo apenas alguns poucos estudantes atuantes diante de tantos omissos, estudantes, mas principalmente professores.

 

A universidade não pertence nem aos professores, nem aos funcionários, nem aos estudantes, mas à sociedade civil, e nenhuma dessas categorias pode deliberar unilateralmente sobre ela, sem consultar a própria sociedade civil, da qual esses entes são pequenos setores sociais, aliás, privilegiados diante dos demais.

 

 

ROBERTO DE BARROS FREIRE é professor do Departamento de Filosofia da UFMT




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8 Comentário(s).

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Flávio Benedito de Souza  17.05.18 14h47
Com grande admiração li vosso artigo de opinião e como em vossas aulas, traz com clareza, lógica e tolerância um pensamento democrático de fato, embasado em uma das mais importantes conquistas democráticas modernas, que é a liberdade. Sem críticas a ninguém mas com pontos bem apontados para uma direção única, a do diálogo pacífico e do respeito à opinião do outro, apresenta o que os que entendem que a universidade é lugar de passagem e não de ocupação, onde a sociedade civil investe em busca de que seja inserida nela cidadãos mais preparados para os desafios diários e do futuro, capazes de pensar na sociedade e nas parcelas ao mesmo tempo e não isolar o todo das partes e vice-versa. Tenho em mim a certeza que tal texto é realmente um ponto de inflexão para muitos, àqueles que concordam ou os que ainda mais renitentes irão conjurar contra os ideias libertários do articulista. Parabéns pelo grande texto.
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Júlio César Jota  15.05.18 21h40
A Universidade é um grandioso laboratório feito para que Estudantes desenvolvam seus estudos e vivenciem suas experiências individuais e coletivas enquanto cidadãos. Por isso é um Campus autônomo com prefeitura e tudo o mais. Feito para Estudantes, sem os quais ela não teria sentido. Mas com o tempo uma redoma indestrutível foi sendo colocada por sobre este ente e lentamente o conhecimento e seu necessário espalhamento foi sendo ditadorizado, as extensões instrumento poderoso tiveram sua importância diminuída. Em função disso passaram a existir Estudantes e a-lunos, a impressão é que trabalhar com a-lunos pode configurar uma zona de conforto que não dificulta a aposentadoria. Quando um movimento de desobediência é executado quer significar que alguma coisa não vai bem na conduta daqueles que aplicam as Leis no Campus e o movimento é para chamar à atenção. No caso um tempero idiossincrático necessário. Os resultados só serão obtidos se a sociedade civil for incomodada, só a ação dos que vivem em sociedade podem questionar os movimentos do Estado; a sociedade criou este ente e mesmo o leviatã hobesiano pode ter as suas ações contestadas, ele só existe para servir a sociedade civil e não ao contrário, embora alguns amem esta possibilidade Só movimentos que intranquilizem que fogem do padrão, causarão desconfortos naqueles que vivem em suas celas congeladas a 16º. Bora lá Estudantes o exercício é esse. J
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Eduardo  15.05.18 17h33
Toda razão, professor. Os "grevistas" não têm representatividade e são só baderneiros.
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kamila almeida  15.05.18 14h48
Concordo com cada palavra,vírgulas e pontos deste artigo.
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Robélio Orbe  15.05.18 14h39
Por isso defendo a privatização da Universidades Federais.
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