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Opinião / ANA PAULA RODRIGUES
19.03.2017 | 08h55
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O poeta e o Brasil na América do Sul

A integração regional é a circunstância do Brasil que não pode ser negligenciada

 Mudanças no comando do Ministério das Relações Exteriores nem sempre significam rupturas nas estratégias de condução da pasta. Uma das marcas registradas da política externa do Brasil é a integração entre os países da América do Sul, o que permanece como prioridade.

 

A aproximação entre os países sul-americanos ocorre em razão de uma mudança no padrão histórico de isolamento, o qual foi herdado da colonização portuguesa e espanhola. A superação de rivalidades bilaterais, como entre Argentina e Brasil e Colômbia e Venezuela, foi fundamental para a união dos doze países da região. Atualmente, essa união está institucionalizada na União Sul-Americana de Nações (UNASUL), que formalizou o relacionamento entre os Estados.

 

O objetivo é superar problemas comuns e viabilizar projetos de desenvolvimento em benefício de todo o continente sul-americano.

  

O poeta e diplomata, João Cabral de Melo Neto, escreveu um poema - “ Tecendo a manhã”-, que pode ser interpretado como uma metáfora para representar essa necessidade de união. A exemplo dos versos de Cabral,”um galo sozinho não tece uma manhã, ele precisará sempre de outros galos”’, a integração da América do Sul precisa de esforço conjunto.

 

No processo de integração, foi superado o padrão histórico de rivalidades, que vinha desde a colonização, herdado das disputas territoriais entre Portugal e Espanha. Além da rivalidade herdada, a oposição entre os países da região resultou da fragmentação territorial durante as independências das colônias espanholas. O vice-reino do Prata jamais recuperou suas antigas fronteiras, ao contrário da colônia portuguesa, que manteve íntegro seu território.

 

A fragmentação das antigas fronteiras motivou a busca de Buenos Aires por recuperar seu poder na região. A disputa pela hegemonia no Cone Sul exacerbou o antagonismo portenho com a Corte no Rio de Janeiro.

 

A tendência histórica de oposição e disputa foi sendo transformada ao longo do século XX por meio da formação de blocos econômicos e políticos, que favoreceu a execução de projetos comuns. A exemplo da aproximação entre Brasil e Argentina, fundamental na mudança do antigo paradigma de animosidade no relacionamento exterior dos países.

 

A mudança teve início na década de 1970, com a assinatura do Acordo Tripartite Itaipu-Corpus, que resolveu as divergências quanto ao aproveitamento do rio Paraná para a construção da hidrelétrica de Itaipu. Continuou durante a década de 1980, com a aproximação entre os presidentes José Sarney e Raul Afonsin, como uma das consequências positivas da redemocratização. Nesse momento, estava criada a oportunidade que fez surgir o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL).

 

Atualmente, apesar de ser muito criticado e considerado uma ficção e não uma verdadeira União Aduaneira, o novo chanceler, Aloysio Nunes Ferreira, declarou que o MERCOSUL deve mudar para que seja um bloco econômico viável e não pode ser extinto.

    

Outros entraves à integração, além dos mencionados, permaneciam e precisavam ser superados. Um deles era a necessária contraposição dos países do continente à subordinação externa, que impedia uma atuação conjunta e, principalmente, a construção de infraestrutura comum.

 

Para corrigir essa falha de interligação  entre os países, no ano de 2000, foi lançada a Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Física da América do Sul (IIRSA). A iniciativa manteve-se e foi incorporada a projetos mais amplos de integração, o que culminou com a assinatura do Tratado Constitutivo da Unasul, em 2008.

   

As recentes mudanças no Itamaraty não afetam a importância atribuída ao processo integracionista sul-americano. A integração regional é a circunstância do Brasil que não pode ser negligenciada. Como já explicou o ex-chanceler Celso Amorim, ao usar a frase de Ortega e Gasset, “eu sou eu e minha circunstância, e, se perco a ela, perco a mim”, para referir-se à prioridade conferida pela diplomacia brasileira às relações com os países da América do Sul.

 

Ana Paula Poncinelli G. Rodrigues é mestre em Teoria Literária e Gestora Governamental.  




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