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Opinião / RODRIGO VARGAS
13.04.2018 | 10h10
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Mitos eleitorais

Cabe a nós, eleitores, rejeitar a mera figuração destes candidatos na campanha deste ano

Eles são decididos e firmes. Olham nos olhos. Recitam de cabeça trechos inteiros de leis obscuras e aparentam saber tudo a respeito de temas complexos, da gestão da saúde às estratégias para conter o avanço da violência urbana. Suas diferenças pontuais só acentuam o parentesco próximo: são todos mitos.
 
Nos últimos trinta e poucos anos de redemocratização, o Brasil se acostumou a apostar neles, os mitos, como a saída mágica para crônicos problemas. E, se é verdade que não perdeu sempre, também é fato que, mais cedo ou mais tarde, terminou o jogo devendo as próprias calças.
 
Hipnotizados pelos enredos de novela dos marqueteiros, os eleitores foram levados a acreditar que bastava escolher alguém dotado de algo especial. E, nesse caminho, aprenderam que biografias, sozinhas, têm mais peso que partidos, grupos econômicos, projetos e concepções de Estado.
 

Nos últimos anos de redemocratização, o Brasil se acostumou a apostar neles, os mitos, como a saída mágica para crônicos problemas

Quando menciono projetos, não me refiro às famosas promessas de campanha (outra categoria sequestrada pelos especialistas em fisgar o voto alheio). Falo em ideias concretas, que explicitem sem rodeios o rumo que será seguido, independentemente do incômodo que venham a provocar neste ou naquele setor.
 
Nossas campanhas eleitorais, com raras exceções, se prestam a determinar quem tem a vida pregressa mais heróica ou menos complicada, quem se porta melhor nos debates e quem põe mais ênfase na indignação em cima de palanques. E, mais importante, quem fala aquilo que queremos ouvir.
 
Não é por acaso que brigamos e discutimos tanto por nossos mitos de estimação. Eles foram moldados às nossas crenças, sejam elas quais forem. Críticas a respeito de possíveis falhas gerenciais ou de caráter, neste contexto, são recebidas pelos "fãs" como ofensas pessoais.
 
Em poucos meses, você sabe muito bem, eles estarão de volta. Quem busca a reeleição dirá que as dificuldades foram superadas e que, com a "casa arrumada", será a "hora da virada". Quem quer voltar ao poder, por sua vez, fará de tudo para mostrar que tudo está uma bagunça e que a tal virada depende de outra pessoa no comando.
 
Quem é marinheiro de primeira viagem dirá que representa o "novo" na política. E, se for um ex-funcionário público de destaque, melhor ainda: usará essa experiência como atestado de lisura e tenacidade. O folclórico dirá que ninguém mais presta. O laranja estará ao lado de quem pagar mais.
 
Mas, se os papéis principais estão definidos desde sempre do lado de lá, cabe a nós, eleitores, rejeitar a mera figuração a que nos relegaram. E a boa notícia é que nunca tivemos tanto acesso às entranhas da administração pública como agora -e nunca dependemos tão pouco das fontes de informação tradicionais.
 
O conhecimento é a vacina mais certeira contra a empulhação que dominou nosso processo político. Sem intermediários, nos permite identificar, naquele velho discurso construído por pesquisas de opinião, os detalhes com os quais devemos realmente nos preocupar.
 
Se o sujeito diz que vai incentivar a geração de empregos, e está rodeado de grandes exportadores de soja em grão, é bom saber como ele se posiciona em relação ao vespeiro da Lei Kandir, por exemplo. Defende mudanças? Até que ponto?
 
Se você já tem o seu mito de estimação, há tempo de sobra para desmontá-lo impiedosamente -o que, é bom dizer, não significa deixar de apoiar sua eleição.
 
Procure saber o que ele de fato pensa sobre os temas mais relevantes para a sociedade. Saiba quem são os seus apoiadores mais importantes e, principalmente, como costumam opinar a respeito dos mesmos temas.
 
Você pode descobrir que aquela promessa que tanto te encantou jamais será colocada em prática -porque não é de interesse de nenhum financiador. Ou que se trata de algo fora da esfera de atuação do seu preferido.
 
Em outubro, tenho a mais absoluta certeza, nossa principal tarefa como eleitores é muito mais do que pinçar nomes em uma lista, naquela triste e cômoda escolha entre o "menos pior". Em um país com tantos problemas, importam cada vez menos os nomes. De nada nos valem os mitos. É preciso escolher, de forma livre e consciente, uma direção.
 
RODRIGO VARGAS é jornalista.



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4 Comentário(s).

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Paola Carlini  13.04.18 15h09
Perfeito. Seu texto consegue apontar sem "demagogia" e sem "ideologia" um norte neste emaranhado de informações de "verdades prontas"
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Rafael Costa Neves  13.04.18 13h42
Muito oportuno o seu texto, Rodrigo! Parabéns!Conscientização política é a palavra chave. Precisamos de um povo mais politizado e de políticos que sejam mais do povo.
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Marcelle Dias  13.04.18 10h57
Concordo plenamente, mas nao tenho ilusao, eleitor brasileiro é burro com o perdao da palavra
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Rafael Rodrigues  13.04.18 10h56
CHEGA DE SUPER HEROIS Q DEPOIS SO SE REVELAM VILOES
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