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Opinião / ALEXANDRE GUIMARÃES
16.05.2018 | 09h20
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Matrix e as redes antissociais

A “bolha virtual” é uma muralha fictícia colocada ao seu redor

Seis da manhã. O despertador toca. Você desabilita o aplicativo no smartphone. Liga o Wi-Fi ou o 4G. Notificações do WhatsApp, Facebook, Instagram, YouTube e dezenas de outros aplicativos começam a brotar na tela do aparelho.

 

As tias já enviaram cinco imagens diferentes de “bom dia” no grupo da família. É melhor ir tomar um banho. Muitos de nós começamos o dia assim, não é mesmo? A tecnologia já faz parte do nosso dia a dia tal como calçar um tênis e escovar os dentes (por favor!).

 

Todos gostamos das vantagens de viver num mundo conectado: comunicação instantânea, transações bancárias pelo app, aquela espiada (de praxe) nos amigos e famosos nas redes sociais e muito mais!

 

Não sejamos ingênuos: aplicativos não foram criados para aproximar pessoas. O objetivo principal sempre foi o lucro

Não sejamos ingênuos: aplicativos não foram criados para aproximar pessoas. O objetivo principal sempre foi o lucro. O vazamento de dados de cerca de 87 milhões de usuários do Facebook (443 mil só no Brasil), com a participação da empresa britânica Cambridge Analytica, além de supostamente influenciar as eleições dos Estados Unidos e o resultado do Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia), deixa claro que não existe almoço grátis.

 

Ou você acha que aquele anúncio no Facebook da camiseta que você acabou de pesquisar no Google é uma mera coincidência digital? Nossas informações pessoais viraram moeda de troca – a bitcoin mais valorizada no mercado.

 

Afinal de contas, para que servem as redes sociais? Bater papo, zoar quem torce para o rival (só quando o seu time ganha, né?), conferir opiniões sobre um restaurante antes de ir, discutir política, ganhar dinheiro, enfim, há inúmeras possibilidades.

 

É verdade que o WhatsApp, o Facebook e os seus coirmãos cumprem vários papéis sociais importantes, como ocorreu na Primavera Árabe – onda de protestos populares contra governos no Oriente Médio que eclodiu em 2011 e só foi possível graças a denúncias e mobilizações divulgadas pela internet.

 

A solidariedade com as vítimas do desabamento do edifício Wilton Paes de Almeida em São Paulo, no dia 1º de maio, também é um exemplo recente da força positiva dessas plataformas.

 

Entretanto, a maioria dos usuários das redes sociais vive em “bolhas virtuais”. Isso acontece, pois, como o próprio Facebook já admitiu, o algoritmo desses aplicativos prioriza as  postagens dos seus amigos e familiares em detrimento de notícias de veículos de comunicação tradicionais.

 

Ao seguir pessoas que pensam como você, cria-se essa redoma virtual, cheia de correntes, selfies, opiniões e fake news, na qual você fica confinado enquanto está conectado.

 

Talvez você esteja indagando: “Nem todos os meus colegas têm a mesma opinião”. Claro! Porém, o que ocorre quando alguém se depara com opiniões contrárias? Basta sair dessa “bolha” para ver ofensas sendo disparadas como rajadas de metralhadora para todo lado – a palavra “lixo” (pasme!) virou sinônimo de gente.

 

Não há ambiente para o debate democrático e o direito ao contraditório. O mundo virtual tornou-se uma realidade alternativa onde as pessoas despejam suas frustrações pessoais. Você teria coragem de chamar alguém de “lixo” pessoalmente? De onde vem tanto ódio? Só porque alguém tem uma opinião diferente da sua não quer dizer aquela pessoa não presta.

 

Veja os argumentos e, caso discorde, exponha seu ponto de vista. Em vez de disseminar o ódio, espalhe empatia pela internet! Menos “lixo” e mais obrigado, por favor etc. Um simples elogio pode salvar a vida de alguém que pensa em suicídio. Não sei se é porque tem um cartaz do segundo filme bem na minha frente agora, mas todo esse contexto me faz pensar em Matrix.

 

Na trilogia, Neo (Keanu Reeves) é “o escolhido”, aquele que deve libertar a humanidade da Matrix – realidade virtual que funciona como um holograma dos instintos humanos mais básicos, criada para esconder a dominação das máquinas.

 

Resumo da ópera: com o desenvolvimento da inteligência artificial, os robôs se rebelaram contra os seus criadores e houve uma grande batalha. Os humanos tentaram desligar as máquinas tapando o Sol – sua principal fonte de energia. Mas o tiro saiu pela culatra, pois os seres humanos passaram a ser usados como bateria para que as máquinas continuassem ativas. Enquanto o corpo fornece energia aos robôs, a mente fica aprisionada na Matrix – o corpo não sobrevive sem a mente e vice-versa.

 

Traçando um paralelo com a atualidade, a “bolha virtual” das redes sociais é uma espécie de Matrix – uma muralha fictícia colocada ao seu redor para que você não enxergue o que é real e continue fechado com a sua verdade, ou seja, suas crenças pessoais ganham mais importância do que os fatos (fenômeno conhecido como “pós-verdade”).

 

Quando Neo está prestes a descobrir o que é a Matrix, Morpheus (Laurence Fishburne) afirma que ele se parece um pouco com a Alice, que nota algo estranho no coelho e decide correr atrás dele. Assim como ela e, a essa altura, suponho que você também, Neo sente que há algo errado com o sistema. Ele tem o olhar de um homem que aceita o que vê porque está esperando acordar a qualquer momento.

 

Chegou a hora de tomar uma decisão. Se tomar a pílula azul, a história acaba e você vai acordar na sua cama acreditando que tudo não passou de um sonho. Porém, se tomar a pílula vermelha, ficará no País das Maravilhas e vai descobrir até onde vai o buraco do coelho.

 

Já escolheu? Lembre-se: depois disso, não há mais volta.

 

ALEXANDRE GUIMARÃES é jornalista, professor e servidor público




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