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Opinião / RUI PERDIGÃO
17.05.2017 | 11h57
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Liberdade de opção

Passado contribui para a construção do futuro, mas não elimina as opções presentes

Nas eleições gerais de 2014, a disputa pelo cargo de presidente da República Federativa do Brasil decorreu acirradamente entre os dois candidatos que representavam projetos possíveis de se considerar distintos.

 

O candidato que buscava a recondução no cargo ganhou a eleição com um resultado que expressou a vontade de uma maioria pela continuidade das políticas até ai desenvolvidas.

 

Seguidamente, com o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), o vice, Michel Temer (PMDB), assume o cargo e inicia um conjunto de ações para alteração de leis estruturantes para o país. Podendo ser entendidas, ou não, como necessárias ou oportunas, são, contudo alheias ao programa de governo escrutinado, e comportam em si mesmo um elevado grau de impacto nas finanças públicas, nas atividades econômicas e inevitavelmente na vida cotidiana dos cidadãos.

 

Nos elementares preceitos que assistem a uma reforma que se pretenda introduzir numa organização complexa e social, a agregação de estudos transversais, a sua análise e ajuste de melhorias num processo de concertação possível com várias outras razões existentes apresenta-se como fator da maior relevância para o sucesso das medidas a implementar.

 

Porém, com maior ou menor grau de elaboração, tudo aquilo que se aprova no Congresso Nacional é de imediato apropriado por todos aqueles que com isso mais se beneficiam, permitindo-se assim, nos meses seguintes, constatar as reais e efetivas repercussões na sociedade.

 

E passados meses, chegar-se-á a outubro de 2018, data que será realizada mais uma eleição geral, na qual a presidência do Brasil será novamente decidida por voto popular, bem como, e não menos importante, os ocupantes das cadeiras do Congresso Nacional e dos governos estaduais.

 

Nesse ato serão eleitos os representantes “máximos” do povo. E quem acredita na democracia, interpreta que esses personagens são, na sua essência, estritos representantes de uma população que, em liberdade e no pleno exercício individual dos seus direitos políticos, afirma uma democracia a partir das bases de onde delega nos eleitos as principais e prioritárias políticas públicas para os quatro anos seguintes.

 

E para que a democracia funcione, a bem, é fator sine qua non o prévio conhecimento do que está sendo colocado há discussão e votação para realização futura, uma vez que o ato eleitoral não se resume a avaliar o nível de alcance na concretização do programa anteriormente eleito, nem mesmo quando perante o seu incumprimento por incompetência, desvirtuação ou malandrice. Ou seja, o passado contribui para a construção do futuro, mas não elimina as opções presentes.

 

Torna-se assim imperativo para a transformação do Brasil uma maior seriedade na apresentação das propostas políticas e de execução orçamental que cada projeto partidário preconiza para a vida nacional, assim como um maior comprometimento, maior coerência e qualificação dos seus interpretes principais. A democracia é simples e recomenda-se, no entanto, quando sobre ela se promove a ideia de que está podre e não é a solução, está-se a abrir caminho para modelos ditatoriais de governação.

 

Todos reconhecem a existência de diferentes interesses de diversa ordem, uns mais legítimos, outros eventualmente menos, mas fica muito difícil de compreender o incomodo que a palavra povo ainda desperta em muitos que, ao ouvi-la, sofrem profundas amarguras por a ele pertencer e recorrentes indigestões por saberem que dele nunca sairão.

 

A dificuldade em superar esse complexo de Édipo, em organizar a estruturação da projeção do seu vir-a-ser, tolda-lhes a compreensão de que o desenvolvimento de uma sociedade se mede não por cotações bolsistas, pesquisas de opinião ou milionésimas percentagens, mas sim pelos resultados decorrentes da redução das desigualdades entre o seu povo, entre os mais desfavorecidos e os mais favorecidos.

 

Até lá, cada qual terá tempo suficiente para fazer uma leitura mais ponderada das particularidades vivenciadas ao longo do presente mandato 2014/2018 que, quando terminar em finais do próximo ano, colocará mais uma vez ao povo brasileiro a necessidade de decidir sobre o que pretende.

 

Com menos dinheiro sujo a circular nas campanhas e com muitos atores completamente encharcados por uma lavagem a jato, certamente crescerá o estímulo para a construção de um entendimento mais pessoal e crítico quiçá mais imune a uma mídia comodamente instalada nos corredores do poder.

 

Rui Perdigão é administrador, consultor e presidente da Associação Cultural Portugueses de Mato Grosso.




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