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Opinião / ROBERTO BOAVENTURA
11.03.2018 | 23h22
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Idade do machismo

Quem ignora que muitos estupros e/ou feminicídios são justificados por conta da “roupa insinuante da vítima”?

Pensar sobre o feminicídio no Brasil é tarefa de todos os dias. No mês de março, em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, é obrigação. Ninguém pode se isentar desse debate.

 

Começo invocando a sabedoria natural da deusa Minerva, e lembrando que a nós, mortais, sabedoria pressupõe informação, por mais incômoda que seja.

Indo ao ponto, precisamos pensar sobre as origens dessa violência. Mas para a reflexão, há de se ter coragem. Sem isso, é melhor tocar a vida do jeito que está, e se preparar para lamentar cada novo feminícidio, que virá.

 

Afinal, por que tanto feminícidio entre nós?

 

A resposta é difícil e desconfortável, pois é de ordem cultural. Logo, precisamos entender que, nesse sentido, nosso alicerce social é de viés judaico-cristão, que tem a Bíblia como livro sagrado; aliás, o livro mais lido entre nós. Eis o motivo da coragem da qual me referi acima.

 

As violências – físicas e simbólicas – contra a mulher podem também estar respaldas na própria Bíblia; isso, é claro, às mentes doentias e despreparadas para o convívio social hodierno, que pressupõe atualizações, quando não superações de muitas das passagens bíblicas.

podemos perceber de onde podem vir muitos dos nossos imensos problemas existenciais e sociais

 

Vejamos. Já em Gênesis, a forma surreal como é descrito o nascimento da mulher (da costela de um homem) pode pavimentar longos caminhos para sociedades machistas e violentas.

 

Daí em diante, as passagens bíblicas sobre o papel da mulher são inúmeras, e são adversas à luta pela igualdade feminina no convívio social. Excetuando a defesa que Cristo faz de Madalena, pontuo algumas dessas passagens, que podem estar dificultando a luta das mulheres para a superação da violência de que são vítimas a cada momento.

 

Em Tito, 2:3-5, solicita-se que as mulheres mais velhas ensinem as novas a amarem maridos e filhos; “a serem prudentes e puras; a estarem ocupadas em casa, e a serem bondosas e sujeitas a seus maridos, a fim de que a palavra de Deus não seja difamada”.

 

Na mesma linha, em Pedro 3:1, lê-se: Do mesmo modo, mulheres, sujeite-se cada uma a seu marido, a fim de que, se ele não obedece à palavra, seja ganho sem palavras, pelo procedimento de sua mulher”.

 

Em Provérbios, cap. 31;10, é dito que a “esposa exemplar é muito mais valiosa do que os rubis”; logo, “feliz quem a encontrar”.

 

Aqui, a palavra “exemplar” liga-se à pregada submissão da mulher em relação ao homem. Fora disso, a mulher, na Bíblia, ainda é naturalmente amaldiçoada, inclusive pelas desventuras do próprio marido.

 

Nesse sentido, ainda em Provérbios (12;4), é dito: A mulher exemplar é a coroa do seu marido, mas a de comportamento vergonhoso é como câncer em seus ossos”.

 

Exegese popular: a mulher exemplar, extraída da Bíblia, teria a capacidade de tornar seu marido um rei ou um doente incurável; tudo a depender de seu comportamento social, que, por sua vez, compreende um conjunto de elementos, dos quais os trajes ganham relevo no discurso bíblico, como se vê em Timóteo: 2;9:

 

“Da mesma forma, quero que as mulheres se vistam modestamente, com decência e discrição, não se adornando com tranças e com ouro, nem pérola ou com roupas caras”.

 

Quem ignora que muitos estupros e/ou feminicídios são justificados por conta da “roupa insinuante da vítima”? Caríssimos! Com essa pequena mostra, podemos perceber de onde podem vir muitos dos nossos imensos problemas existenciais e sociais.

 

Enfim, precisamos de muita coragem para nos despir do ranço cultural que nos persegue desde que nos tornamos fetos no útero de nossas mães.

 

Superar o medievo é tarefa contemporânea de todos. Coragem.

 

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ é Dr. em Jornalismo/USP; prof. de Literatura/UFMT

 




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1 Comentário(s).

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Antonio Benedito de Assução  12.03.18 16h01
Cuiabania: Quero parabenizar o texto, muito bem escrito pelo Prof. Dr. Roberto Boaventura. Faz-nos refletir, a fim de que possamos nos despir o machismo cultural.
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