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Opinião / VICENTE VUOLO
17.06.2017 | 07h40
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Educação política (9)

Não podemos continuar ingerindo litros e litros de veneno. Nem podemos continuar dando veneno para nossos filhos

A falta de educação política faz com que o Brasil seja o campeão mundial no uso de agrotóxicos no cultivo de alimentos. Enquanto nos últimos 10 anos o mercado mundial desse setor cresceu 93%, em nosso país, esse crescimento foi de 190%, de acordo com dados divulgados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). São consumidos mais de 1 bilhão de litros ao ano, o que representa mais de 5,2 litros por brasileiro.

                   

As evidências dos malefícios dos agrotóxicos para a saúde e para o meio ambiente são cada vez maiores. A intoxicação – mesmo aquela silenciosa e que atinge aos poucos as pessoas – é responsável pelo aumento de casos de câncer (especialmente de bexiga), de distúrbios de tireóde e outras dezenas de doenças.

                   

A pesquisadora da Fiocruz Karen Friederich disse que mais da metade dos agrotóxicos usados no país, hoje, são banidos na Europa e nos Estados Unidos. Por isso, ela afirma da impossibilidade do uso seguro desse produto. Segundo o Dossiê Abrasco – Um Alerta sobre o Impacto – mais de 70% dos alimentos “in natura” consumidos no país estão contaminados por agrotóxicos. Por causa da gravidade do problema, o Ministério Público Federal solicitou providências da Anvisa para banir do mercado nacional o herbicida glifosato, atendendo recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), Instituto Nacional do Câncer (INCA) e da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC).

Temos que forçar as empresas, os governos, os parlamentos e o Judiciário a proibir e a coibir o uso de defensivos agrícolas que afetam nossa saúde

                  

Enquanto isso, essas substâncias são vendidas e usadas livremente no Brasil. O 24 D, por exemplo, é um dos ingredientes do chamado “agente laranja” que foi pulverizado pelos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã, deixando afetadas uma geração de crianças que, ainda hoje, nascem deformadas, sem braços e pernas. Pasmem! Essa substância tem seu uso permitido em nosso país.

                   

Outro agravante, é o uso dos aviões agrícolas. Enquanto essas aeronaves foram proibidas na Europa, o Brasil teima em aumentar a sua frota, que já ultrapassa mais de 2.000 aviões agrícolas e 300 empresas registradas. Estamos falando de veneno, lançado por aviões, sobre casas, rios, plantações, escolas e pessoas.

                   

Segundo o médico e professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) Wanderley Pignati, em 2006, quando os fazendeiros dessecavam soja transgênica para a colheita com Paraquat em pulverizações aéreas no entorno da cidade de Lucas do Rio Verde (MT), uma nuvem tóxica foi levada pelo vento para a cidade e dessecou as plantas de 65 chácaras de hortaliças. Desencadeou surto de intoxicações agudas em crianças e idosos.

                   

Falta de educação política da sociedade. Alguns de nós sabem que o excesso de agrotóxicos está nos matando. Mas ninguém coloca essa questão como pauta prioritária de nada. Isso facilita a falta de compromisso das empresas, que só querem o lucro rápido. Assim como torna frouxa a consciência dos dirigentes políticos, que acabam cedendo aos pleitos dos empresários da cadeia do agronegócio (muitas delas empresas estrangeiras que não usam em seus países os produtos que usam aqui).

                   

Há que se colocar um basta em tudo isso. A saúde precisa vir em primeiro lugar. Não podemos continuar ingerindo litros e litros de veneno. Nem podemos continuar dando veneno para nossos filhos.

                   

Assim como temos avançado na consciência política e ecológica nas últimas décadas, fazendo com que a gente não repita erros que eram comumente aceitos no passado, precisamos evoluir a tomar consciência sobre a gravidade dos malefícios que os venenos agrícolas nos trazem. Temos que forçar as empresas, os governos, os parlamentos e o Judiciário a proibir e a coibir o uso de defensivos agrícolas que afetam nossa saúde.

                   

Temos que parar de comprar alimentos que envenenam nossas famílias. E devemos apoiar as práticas de produção que preservam a vida. Parte da solução desse problema está sob nossa responsabilidade.

 

Vicente Vuolo é economista, cientista político e analista legislativo do Senado Federal

E-MAIL: vicente.vuolo10@gmail.com




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