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Opinião / ONOFRE RIBEIRO
05.04.2017 | 07h00
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Delação do fim do mundo

O lago é mais profundo do que parece e pode afundar barcos poderosos

No final da semana passada a inesperada delação do ex-deputado José Riva abalou profundamente a Assembléia Legislativa de Mato Grosso e deu um soco no estômago da opinião pública estadual.

 

Riva denunciou 34 nomes de deputados e de ex-deputados que receberam “mensalinho” desde 1994. Aqui vão uma série de considerações:

           

1 – Riva foi preso e liberado mais de uma vez por conta de movimentações financeiras consideradas ilegais na Assembleía;

           

2 – Sua possível delação foi cogitada mais de uma vez, mas ninguém acreditou. Riva é um dos políticos mais pragmáticos de Mato Grosso. A não ser sob pressão extrema ele delataria. Conhece na palma da mão a política do Estado desde 1994, quando chegou à Assembléia Legislativa e se elegeu Primeiro-Secretário, na gestão Gilmar Fabris, início do governo Dante de Oliveira;

           

3 – Riva sempre foi presidente ou 1º. Secretário entre 1995 e 2014. Nada aconteceu na política de Mato Grosso sem passar pelo seu conhecimento. Sua capacidade de articulação e de influência foi fruto de uma lenta a bem calculada estratégia.

Sua capacidade de articulação e de influência foi fruto de uma lenta a bem calculada estratégia

           

4 – O “mensalinho” que ele delatou existe desde o governo Júlio Campos (1983 – 1986).  Em valores de hoje os R$ 15 mil equivaleriam hoje a R$ 150 mil por mês. Era uma “relação de convivência” destinada a “amaciar” a relação dos deputados com o poder Executivo. Júlio Campos nunca negou;

           

5 – No governo Dante de Oliveira o “mensalinho” ela sofreu um reforço. Após o ajuste fiscal feito em 1997, o caixa do Estado zerou e a Secretaria do Tesouro Nacional passou a fiscalizar mensalmente o balancete das contas do governo estadual. Pra não dizer sistematicamente não aos prefeitos, Dante combinou com Riva, presidente da Assembléia de 1996 a 1998, repassar um valor mensal destinado às prefeituras. Com esses recursos limitados, Riva presidente, e Humberto Bosaipo, 1º. Secretário, fariam política com os prefeitos em nome do governador;

           

6 – Começava ali um governo paralelo da Assembléia Legislativa, através da qual Riva construiu a sua rede de poder. Bosaipo foi para o Tribunal de Contas e deixou Riva sozinho. Nasceu ali um dos homens mais poderosos da política do Mato Grosso recente;

           

7 – Quando Riva denunciou, ele sabe exatamente quem denunciou, mas no seu pragmatismo deixou na manga outros nomes poderosos para o caso de se sentir muito ameaçado. O lago é mais profundo do que parece e pode afundar barcos poderosos;       

           

8 – Por fim, fontes do governo Pedro Taques garantem que o “mensalinho” acabou no governo Silval Barbosa e que não teme esta ou novas delações.

           

Finalmente, no caso da Operação Lava Jato o que se viu foi delação puxando delação. Se a moda pega aqui, teremos muitos barcos naufragando em águas profundas...

 

Onofre Ribeiro é jornalista em Mato Grosso

onofreribeiro@onofreribeiro.com.br   www.onofreribeiro.com.br




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