Cuiabá, Terça-Feira, 13 de Novembro de 2018
ROBERTO BOAVENTURA
13.09.2018 | 07h21 Tamanho do texto A- A+

Das chamas às facadas

Lição do momento: não é bom ninguém “já ir se acostumando” com a violência

No último dia 07/09, nós, brasileiros, tivemos poucos motivos para festejar a Independência. Contudo, não nos faltaram e não nos faltam traumas. 

 

 

Assim que setembro chegou, assistimos, perplexos, à extinção, por conta de um incêndio, de cerca de 20 milhões de peças raras do Museu Nacional. 

 

Nós, que estamos a vivenciar um presente dificílimo da história, e um futuro incerto a ser legado às novas gerações, agora, temos, do passado, preciosos registros transformados em cinzas. O que não se perdeu em chamas, perdeu-se em lamas. Em incêndios tais, a água é tão danosa aos objetos quanto o fogo. 

 

No dia 06, outra faceta de nossa lama: o país assistiu – perplexo e em tempo real – ao atentado contra Jair Bolsonaro, candidato que, infelizmente, lidera as pesquisas à presidência da República; aliás, cada vez mais, menos res pública. 

 

A democracia – desconsiderada, deslegitimada e humilhada por Bolsonaro, defensor do militarismo e desqualificador dos direitos das minorias, como quilombolas, índios, gays et alii – levou uma facada; e no sentido literal

Em plena campanha eleitoral, um fato como esse é de lascar, até por conta dos imprevisíveis desdobramentos. A democracia – desconsiderada, deslegitimada e humilhada por Bolsonaro, defensor do militarismo e desqualificador dos direitos das minorias, como quilombolas, índios, gays et alii – levou uma facada; e no sentido literal. Pior: a vítima foi o próprio Jair. 

 

Sem dó nem piedade, o pedagogo Adélio Bispo enfiou a faca no abdómen do candidato do PSL, que, no dia anterior, em visita ao Acre, dissera que fuzilaria a “Petralhada”; que “botaria esses picaretas para correr do Acre”. 

 

Mais: “Já que eles (petistas) gostam tanto da Venezuela (em crise e com um governo anticapitalista), essa turma tem que ir pra lá. Só que lá não tem nem mortadela... Vão ter que comer é capim". 

 

Nas imagens hostis que acompanham esse discurso, Bolsonaro simula um fuzilamento. 

 

Como quase todos, os enunciados acima – proferidos por Bolsonaro – fazem parte do conjunto de discursos do ódio. A Adélio Bispo e a todos que jamais votariam em Jair, seus discursos são “nojentos”. 

 

Todavia, pelo menos até o episódio da faca, mesmo diante de repugnâncias discursivas bolsonaristas, nada passava da parole. Até o tiro encenado por Bolsonaro era mise en scène. Ademais, o candidato Jair terá de explicar a agressão verbal e a encenação do fuzilamento. Por pior que fosse, ninguém tinha o direito de furar, de forma concreta, o plano simbólico deste tenso momento. 

 

Em outras palavras, a facada de Adélio ultrapassou o figurativo; ela transpassou o abdómen de Jair, que defende o livre uso de armas à população. Aliás, especialistas falam da “sorte” de Bolsonaro não ter sido atingido por arma de fogo. Se Adélio portasse revólver, Jair poderia ter saído da vida em Juiz de Fora.

 

Com o ocorrido, Adélio, num exercício prático, demonstrou pedagogicamente ao candidato atingido e a seus séquitos – cegados politicamente – a maneira como muitas de nossas diferenças serão “resolvidas”, caso Jair Bolsonaro vença as eleições e implemente, p. ex., a liberação do porte de armas, inclusive aos niños. Neste momento, impossível não me lembrar de ditados, como o que diz que, “quem com ferro fere, com ferro será ferido”. 

 

Diante desse quadro lamentável, para o qual deveremos encontrar saídas pelo diálogo entre patrícios, mesmo que divergentes no campo da política, a nação terá de voltar à noção perdida. Este triste time de nonsense terá de ser superado. 

 

Lição do momento: não é bom ninguém “já ir se acostumando” com a violência. Ela não cabe nem mesmo àqueles que defendem pontos de vista e práticas inimagináveis em sociedades do século 21, como, p. ex., o porte de armas.

 

Diálogo: sempre. Armas: jamais. 

 

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ é professor de Literatura na UFMT e doutor em Jornalismo pela USP.




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COMENTÁRIOS
9 Comentário(s).

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Elias   14.09.18 07h52
Até entendo que alguns não tenham coragem para poder se defender em pé de igualdade com bandidos covardes e armados. Daí querem que todos se comportem assim é pedir demais. Os pais de família e trabalhadores honestos estão cansados de serem caçados por vagabundos. E tem mais as propostas de Jair Bolsonaro não se limita ao porte de armas e diga-se de passagem não é imposição é opção, que não temos hoje. As pessoas se dividiram em grupos e partidos depois ficam com esse discurso aí. Se vai dar certo com Jair Bolsonaro ninguém sabe. O que todos sabemos é que com esses que aí estão não está dando certo desde 1988.
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Ademir  13.09.18 21h53
Caro petista professor Boaventura, e onde está os vários discursos de apologia do seu partido esquerdista dizendo que mataria todos da direita do Brasil, é só ver no Youtube, o cidadão Mauro Iasi, onde diz bem claro, " nós sabemos que você é nosso inimigo, mas considerando que vc é uma boa pessoa, nós estamos dispostos a oferecer a vc o seguinte, um bom paredão, onde vamos colocar na frente de uma boa espingarda, com uma boa bala, e vamos oferecer depois de uma boa pá, uma boa cova, com a direita e o conservadorismo nenhum diálogo, luta" Isso então é fichinha pelo que Bolsonaro faz né professor esquerdista???
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Robélio Orbe  13.09.18 21h37
Indico ao senhor em questão que assista ao vídeo quando do encerramento do diálogo com a Leitão perguntado que país Bolsonaro deseja para o futuro. Se não convencê-lo de que Bolsonaro será presidente de todos os brasileiros patriotas é porque o viés do marxismo tornou-se incurável.
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carlos  13.09.18 17h03
Eu já estive na mira de uma arma e sofri violência e digo uma coisa: Essa opinião é tão míope e ineficaz quanto a afirmação "Dialogo sim, Armas não"
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alexandre  13.09.18 13h40
vamos combater a violencia com flores e discursos,palavras ao vento, é preciso pulso forte e enfrentar a criminalidade sem direitos dos manos, bolsonaro sofreu violencia..
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