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Opinião / ONOFRE RIBEIRO
24.03.2017 | 09h00
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Carne fraca

Os poderes constitucionais da República derreteram antes de agora e continuam em veloz putrefação

Quando estudava Jornalismo o professor da disciplina “Civilização Contemporânea”, Pedro Moacir, insistia em nos dizer: “nunca olhem pra um fato isoladamente. Todo fato tem muitas caras. Umas anteriores, outras atuais e aquelas que resultarão pra frente”.

 

Tenho a frase anotada e a respeito muito. Recordo-a por conta da “Operação Carne Fraca”. Ela envolve os frigoríficos, o governo do país, os governos estaduais, o presidente da República, o comércio, o agronegócio, a Polícia Federal, os fiscais sanitários, partidos políticos, políticos, as dezenas de cadeias produtivas ligadas à carne, a mídia, a macroeconomia do país e o comércio exterior. Cada um desses setores citados se desdobra naquela tese do professor Pedro Moacir.

           

Uma maneira de olhar o assunto é focar só na operação. Outra é focar no ambiente de transformações porque passa o país. Nesse ambiente do professor Pedro Moacir, há todos aqueles protagonistas, mas há também um clima de gelo derretendo.

A Polícia Federal, um fortíssimo agente na Lava Jato, acreditou-se onipotente

 

O Brasil já vinha se derretendo desde a operação Lava Jato. Ela pegou partidos políticos e os políticos no primeiro plano, levou à derrubada da presidente da República, passou pela História recente e fez derreter praticamente todo o arcabouço institucional brasileiro.

       

A Operação Carne Fraca vem daí, ainda que indiretamente. A Polícia Federal, um fortíssimo agente na Lava Jato, acreditou-se onipotente. Agiu sozinho e derrubou todos os envolvidos citados na longa lista acima. Ignorante em economia apostou no impacto popular como se ele sozinho explicasse o tema investigado. É absurdo, mas está dentro do ambiente de terra arrasada em que vive o Brasil.

 

Os poderes constitucionais da República derreteram antes de agora e continuam em veloz putrefação. Causada por eles mesmos e pela cultura histórica brasileira. Construiu-se um país desigual e governado pelos que dele se beneficiam. Uma república de compadres corporativos.

        

Não nos espantemos. Daqui pra frente, não bastasse o que já se passou e o que está se passando, veremos cair muitos e muitos castelos envolvendo a desconstrução do poder político, do Estado brasileiro, do arcabouço de leis, a micro e a macroeconomia. Tempos difíceis nos aguardam.

 

Volto ao professor Pedro Moacir: estamos em guerra. A nossa guerra mundial que nunca existiu antes. Ela veio do modo moderno. Com outras categorias de canhões: o desmonte da nossa História.

 

Onofre Ribeiro é jornalista em Mato Grosso

onofreribeiro@onofreribeiro.com.br    www.onofreribeiro.com.br

 




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