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Opinião / LUCAS RODRIGUES
09.01.2018 | 21h00
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Bolsonaro: uma questão de fé

Evidenciar a seus "fiéis" que ele é mais um político porqueira é tão inútil quanto um ateu tentar desconverter um cristão

O jornal Folha de S.Paulo fez sucessivas reportagens nos últimos dias sobre o deputado e possível candidato a presidência Jair Bolsonaro, confirmando com dados concretos aquilo que sempre pareceu óbvio: ele é uma farsa em todos os sentidos, especialmente com seu discurso de retidão e moralidade.

 

Porém, engana-se quem pensa que escancarar a falta de ética, postura e caráter deste senhor racista e homofóbico - além da visível incompetência e ignorância para gerir sequer um mercadinho de bairro - terá qualquer impacto em suas dezenas de milhões de eleitores.

 

Bolsonaro se consolidou como mito/ídolo entre seus seguidores, que não são movidos pela razão, e sim pela fé. Se esforçar em evidenciar para seus "fiéis" que ele é apenas mais um político porqueira é tão inútil quanto um ateu tentar desconverter um cristão com argumentos baseados puramente na razão. Sempre haverá subterfúgios, comparações descabidas, e a síndrome da perseguição contra o "Deus" que ambos veneram.

Não causa espanto que os "bolsominions" acreditem piamente que seu líder vai transformar o país sozinho, como se não houvesse a mínima necessidade de governabilidade, conhecimento estratégico, sensibilidade e articulação com os demais poderes

 

Os sucessivos anos de crise, corrupção desenfreada, desemprego, perda de direitos e insegurança econômica só pioram a situação. Assim como boa parte dos recém fiéis cristãos, que passam a frequentar a Igreja porque a vida está muito ruim e Deus passa a ser a única e mais poderosa ferramenta para ajuda-los, o brasileiro comum também sente a necessidade de ter um ídolo em quem depositar suas esperanças de um futuro melhor, mediante tantas desgraças.

 

Nessas condições, da mesma forma que se acredita que Deus pode curar doenças, trazer emprego e resolver problemas amorosos num passe de mágica, também se passa a crer que o ídolo político trará melhorias revolucionárias e grandiosas, igualmente em um estalar de dedos.

 

Se há crença de que para operar milagres Deus pode burlar as leis da Física que ele mesmo criou, não causa espanto que os "bolsominions" acreditem piamente que seu líder vai transformar o país sozinho, como se não houvesse a mínima necessidade de governabilidade, conhecimento estratégico, sensibilidade e articulação com os demais poderes.

 

Também não se pode ignorar que os seguidores do "mito" parecem sofrer de uma distorção mental comum entre os "lulistas": a distorção seletiva, que é a a tendência de interpretar as informações de acordo com os seus desejos particulares. Tal distorção faz com que a pessoa, ao ser confrontada com fatos que desmitificam sua crença, ignore tais dados e apenas reforce aquilo que ela já acredita.

 

Desta forma, mostrar a eles a evolução patrimonial incompatível de Bolsonaro, as condenações por racismo e homofobia, a doação da Odebrecht "lavada", recebimento imoral de auxílio-moradia, nomeação de parentes e a visível desinformação dele sobre a real situação do país acaba não tendo muito efeito prático, uma vez que os relatos são ignorados e rebatidos com teses esdrúxulas.

 

Outro fator considerável é o discurso fácil e certeiro desse pré-candidato, focando sua agenda na trilogia ideológica mais usual e eficaz entre o eleitorado, segundo o analista Elcias Lustosa: Deus, Pátria e Família. Não é porque temos 12 milhões de desempregados que precisamos falar de economia, não é mesmo? Quem se importa? Vamos falar do que a sociedade gosta de debater e que dá ibope. Porte de arma, redução da maioridade penal, aborto, homossexuais, Deus e maconha.

 

Com tais falácias, Bolsonaro diz o que o povo quer ouvir e faz de tudo para parecer que não é um político, mas sim um representante das pessoas de bem, técnica que funciona em tempos em que a política é demonizada. Desempenha tão exemplarmente este papel que, de fato, pela pífia atuação como parlamentar nas últimas décadas, é difícil acreditar que tenha agido como político, exceto na hora de receber todos os benefícios legais – mas nem todos morais – do cargo.

 

A eleição deste ano, mais do que nunca, vai ser decidida não por ideologias, metas de governo ou propostas, mas pela fé. E, infelizmente, lutar contra a fé é lutar no escuro.

 

LUCAS RODRIGUES é jornalista em Cuiabá, no site MidiaNews.




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33 Comentário(s).

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Junior Assad  10.01.18 20h08
Lucas Rodrigues me explique algumas coisas. Como uma pessoa política que tem vários inimigos declarados PT, PSDB e PMDB, que esta 30 anos na política pode ficar fora de listas de corrupção ??? Não sei, mas ninguém tem coragem de chamar o cara de corrupto, os que tentaram foram processados como o sardinha (ciro gomes). Por essa e outras sou Bolsonaro, até que me prove o contrário meu voto é Bolsonaro 2018 !!!!
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Pedro Augusto  10.01.18 13h45
BOLSONARO 2018 !
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Fran Frassetto  10.01.18 12h55
Lucas, ótima sua análise. Sem ser tendenciosa e com fatos e argumentos desconstrói uma figura nociva em nossa política, sem atacá-lo ou reverenciar outros possíveis candidatos. E apresenta um fato, que não havia me dado conta, que é essa fé, não só nesse propenso candidato, mas na fé como um todo, que deverá permear as eleições deste ano. Caso haja eleições. Parabéns.
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arapuca  10.01.18 11h10
arapuca, seu comentário foi vetado por conter expressões agressivas, ofensas e/ou denúncias sem provas
Lilith   10.01.18 09h09
Texto lucido e coerente. Fé cega, Faca amolada “Um brilho cego de paixão e fé, faca amolada.” E os devotos do deus Messias Bolsonaro dirão que é calúnia, que insulta a divindade.
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