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Opinião / ENILDES CORREA
10.03.2018 | 08h05
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As filhas de Bárbara

Volto no tempo e vejo a figura morena de minha avó materna, magra e alta, com olhar absorto diante da janela de sua casa

Neste mês em que a matriarca da minha família completa 90 anos, e quando se celebra o “Dia Internacional da Mulher”, sinto o desejo de rever as raízes da minha ancestralidade feminina, originária de Chapada dos Guimarães.

 

Volto no tempo e vejo a figura morena de minha avó materna, magra e alta, com olhar absorto diante da janela de sua casa na Cuiabá antiga. Eu ficava na ponta dos pés na esperança de sair dos limites da visão impostos pelas quatro paredes daquela sala e enxergar a mesma paisagem acessível a ela. 

Sua face irradia luminosidade ao recordar das brincadeiras de criança no morro São José, onde escorregava destemida no tobogã da natureza sentada num couro de boi

 

Ansiava ver o que a avó via –  o jogo de bola dos meninos das imediações da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito rolando no campo, o dia lá fora, o céu azul -, enfim, tudo o que era possível enxergar pela sua janela, e que eu não conseguia, ainda que esticasse o meu corpo ao máximo, como uma bailarina.   

 

Minha avó parecia uma mulher gigante vista a partir da minha pequena estatura de criança. Naqueles momentos em sua companhia, sobressaía aos meus olhos a saia longa e rodada que costumava usar, a alongar-lhe ainda mais a silhueta.

 

Bárbara, seu nome, remete-me à força que reconheço nas suas filhas com quem tive o prazer de conviver. Vovó Babita, apelido carinhoso que recebera,  trouxe ao mundo nove mulheres, duas morreram precocemente. Mamãe, a caçula delas, conta-nos nas rodas de família em sua casa, que vovó sempre fez questão de que o nascimento de seus filhos se desse em Chapada dos Guimarães. Hoje, torna-se fácil compreender suas razões. 

 

Chapada dos Guimarães é uma terra plena de santos mistérios e de rara beleza. Kiran Kanakia, Mestre espiritual indiano, ao visitar a cidade em 1994, compartilhou conosco sua percepção: “Chapada é uma das terras despertas do planeta. Sinto aqui a mesma energia presente nos Himalaias.”.

 

Minha mãe, conhecida como Dona Quita, é a última filha viva de Bárbara e Cipriano. Embora seu corpo encontre-se frágil às vésperas de completar 90 anos, a mente está totalmente lúcida, e sua alma se fortalece em cada boa lembrança da infância e da juventude em Chapada dos Guimarães e na localidade de Furriel.

 

Sua face irradia luminosidade ao recordar das brincadeiras de criança no morro São José, onde escorregava destemida no tobogã da natureza sentada num couro de boi.  E após viajar pelo passado mais distante de sua história pessoal, porém ainda tão vivo dentro de si, costuma exclamar: “Tempo maravilhoso!”.

 

Uma a uma, as filhas de Bárbara de Campos Pereira desfilam pela minha memória, e constato uma qualidade comum a elas -  todas foram dotadas de grande força interna e amavam a dança! A força vital presente em minha mãe e suas irmãs, remete-me à canção “Maria Maria”, de Milton Nascimento: 

 

“Quem traz na pele essa marca

Possui a estranha mania

De ter fé na vida.”

 

Aliás, sua segunda filha recebeu o nome de Maria e viveu até os 80 anos.

 

Mulheres que enfrentaram muitos desafios, o primeiro deles foi o casamento, ainda adolescentes, fato comum à época. Mamãe foi a única exceção, casou-se aos 23 anos. Na história de vida dessas mulheres bonitas por dentro e por fora, constam profundas dores e muitas lágrimas vertidas, cada uma por seus motivos. Contudo,  souberam viver com confiança e, em meio a tristezas e a tantas incertezas, jamais desistiram da vida! Apreciaram seus dias com fé em Deus e guardaram tesouros em forma de lembranças.

 

Lembranças que ouço minha mãe partilhar de nossa avó, parteira, rezadeira e curadora, viúva aos 40 anos de idade com 13 filhos, que criou sua prole com tenacidade e amor. Lembranças das irmãs e de sua própria vida, contos existenciais reais de mulheres fortes, corajosas, dotadas de resiliência e alegria, mesmo sacudidas por intensas tempestades que acometeram suas vidas, em um momento ou outro.

 

As histórias de vida das famílias recordam-nos os dons presentes em nossos  ancestrais, herança que vai se derramando de geração em geração, como água de cachoeira a banhar cada novo ser que chega ao mundo.

 

Gratidão à avó Bárbara e a suas filhas de coração valente e bonito, nascidas na  imensidão da terra santa de Chapada dos Guimarães.

 

ENILDES CORRÊA é administradora, terapeuta corporal Ayurveda e professora de Yoga




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