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Opinião / ALBERTO CARLOS ALMEIDA
08.10.2018 | 06h00
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Antissistema contra antiexploração

Fica evidente que ser capaz de ganhar uma eleição é bem diferente do que ter a habilidade de governar

O segundo turno será uma disputa entre o candidato antissistema e o candidato antiexploração. Política é símbolo. Propostas e planos de governo não importam. O que vale é a visão que o eleitor tem de cada candidato.

 

Bolsonaro formou em torno de si a imagem do candidato que mudará para melhor tudo o que está aí. Fez questão de mostrar que está decidido, que tem pulso forte para fazer isso.

A conexão entre a capacidade de ganhar uma eleição e de governar é feita porque a eleição funciona como um teste de liderança

 

Ainda que tenha sido deputado por sete mandatos, teve a sua imagem pública absolvida pelo ministro aposentado do Supremo Joaquim Barbosa quanto ao envolvimento com corrupção. Eleitoralmente, isso vale muito mais do que uma proposta detalhada de reforma da Previdência.

 

Já Haddad tem em torno de si a imagem do candidato que irá restaurar direitos perdidos pelos trabalhadores, assim como aumentar a capacidade de consumo dos eleitores e o acesso a bens e serviços providos pelo governo e pelas empresas. Para isso, uma imagem com Lula vale mais do que mil palavras de um plano de governo.

 

Fica evidente que ser capaz de ganhar uma eleição é bem diferente do que ter a habilidade de governar. A democracia é esse sistema estranho que, por meio de eleições, seleciona quem nos governa por causa de sua imagem, por conta dos símbolos mobilizados por seu partido, seus aliados, sua fala, aparência e gestual. Parece um sistema falho, mas não é.

 

A conexão entre a capacidade de ganhar uma eleição e de governar é feita porque a eleição funciona como um teste de liderança. É possível que alguém vença sem passar nessa prova; isso ocorre muitas vezes com candidatos indicados por líderes fortes. É possível também que alguém que tire boas notas não vença a eleição. Porém, o mais comum é que o vencedor seja alguém que passou no teste de liderança com as notas mais elevadas. Maquiavel denominou isso de "virtù".

 

​Liderar uma campanha testa o candidato em muitas habilidades. Ele tem a decisão última do que e como falar, monta a equipe junto com seu partido, escolhe os principais interlocutores. Enfim, cabe a ele tomar decisões variadas e manter a tropa unida em torno de seu nome.

 

Porém, isso não basta. Há aqueles grandes líderes que se prepararam a vida inteira para se tornarem presidentes. Todavia, disputaram várias eleições e perderam. Há, por outro lado, quem nunca se preparou para isso, até que a oportunidade surgiu e o levou ao cargo de mandatário máximo da nação.

 

Os seres humanos desprezam com frequência o enorme papel da sorte e do acaso —a fortuna de Maquiavel— quando explicam seu próprio sucesso. Se soubéssemos o que nos tornaria muito ricos, não estaríamos hoje trabalhando no que fazemos.

 

Convém ao líder político, portanto, estar preparado para aproveitar a ocasião quando ela se apresentar.

 

A ocasião favorece Bolsonaro. Já se vão quatro anos com cenas diárias na televisão de maços de dinheiro saindo de tubulação de esgoto e associando-se isso aos políticos. A política foi criminalizada. Até mesmo recursos legais para campanha foram considerados pagamento para votações no plenário da Câmara e do Senado. Se isso é crime, tudo o mais será.

 

Para mudar rumo ao paraíso, só mesmo alguém que admite ser do baixo clero, despreparado, consequentemente, para governar. Fomos convencidos de que todo o sistema está podre; então, que venha um líder forte e diretamente conectado com a massa, sem mediação de partidos, para mudá-lo.

 

A capacidade favorece Haddad. Treinado que foi na arte da política ao ocupar dois cargos executivos, tendo vultosos recursos financeiros a administrar, teve que negociar, ser intransigente e ceder, avançar e recuar, ouvir e encontrar o caminho de menor resistência. O teste de liderança exige mais de Haddad do que de Bolsonaro, uma vez que a ocasião parece ser menos favorável a ele do que ao líder sem partido.

 

No final, como em toda democracia, o eleitor decidirá quem governará o país nos próximos quatro anos --se a fortuna ou a "virtù".

 

ALBERTO CARLOS ALMEIDA é cientista político




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