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Opinião / MARCOS TROYJO
12.04.2018 | 08h08
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Agitar a água

Trump criou tumulto mundial com seu anúncio de sobretaxas a exportações aos EUA de aço e alumínio

Numa deliciosa coleção de antigos ensaios chineses sobre como vencer guerras —os pouco conhecidos “36 Estratagemas”—, ensina-se que “para apanhar peixes é preciso agitar a água”. É dizer, criar situações de grande confusão para distrair seu adversário e dele extrair vantagens.
 
É pouco provável que o presidente dos EUA e sua equipe comercial tenham lido tais estratégias milenarmente adotadas pelos chineses. Mais plausível é que Trump esteja aplicando os preceitos presentes em seu “A Arte da Negociação” —focado inicialmente no mundo empresarial— para o âmbito das negociações comerciais internacionais.
 
Trump criou tumulto mundial com seu anúncio de sobretaxas a exportações aos EUA de aço e alumínio. Sugeriu que guerras comerciais “são boas e fáceis de vencer”. Sinalizou a imposição de restrições tarifárias que afetariam US$ 60 bilhões de exportações chinesas ao mercado norte-americano. Tudo isso resultará provavelmente numa série mútua de retaliações comerciais não apenas no patamar EUA-China, mas também no intercâmbio EUA-União Europeia (UE).

Pressionada pela Washington de Trump, a Coreia do Sul topou engajar-se num esquema de “comércio administrado” com os EUA

 
Ademais, Trump tem fomentado caos no sistema de comércio multilateral por denunciar a suposta inoperância e antagonismo da OMC (Organização Mundial do Comércio), sobretudo quando os interesses dos EUA estão em jogo. Claro, Trump também desdenha dos arranjos plurilaterais —abandonou a Parceria Transpacífico (TPP, na sigla em inglês) no primeiro dia de governo— e também está renegociando o Nafta (Acordo de Livre Comércio da América do Norte) com a ameaça sempre iminente de também deixá-lo de lado.
 
Resultado: muitos nos EUA já começam a achar que, ao agitar as águas do comércio internacional, Trump está fazendo os EUA “grandes de novo”. Este é bem o argumento de um artigo veiculado no site “POLITICO” há alguns dias, com o sugestivo título “Trump está vencendo a guerra comercial —por enquanto”.
 
Pressionada pela Washington de Trump, a Coreia do Sul topou engajar-se num esquema de “comércio administrado” com os EUA. Nele, em nome de não sofrer com imposição de tarifas sobre suas exportações de aço, Seul restringe sua vendas do produto à média de 70% do que foi comercializado nos últimos cinco anos. Predispõe-se também a dobrar o volume anual de compras de automóveis fabricados nos EUA e concorda que Washington continue a taxar exportações sul-coreanas de caminhões ao mercado norte-americanos em 25% até 2041.
 
Na União Europeia, os alemães têm horror de que uma guerra comercial com os EUA se alastre até as exportações de seu setor automotivo. Os franceses, para quem vendas de carros aos EUA impactam menos sua balança comercial, não desejam suavizar com Washington. Uma discórdia dessa natureza no âmbito das duas principais economias da UE seria amostra de que as táticas agressivas e diversionistas de Trump estão surtindo efeito.
 
O sinal mais visível —e politicamente importante— de que Trump estaria vencendo a guerra comercial, no entanto, teria sido emitido ontem pelo próprio presidente chinês Xi Jinping. Discursando no Fórum Boao, uma espécie de “Davos chinês”, Xi anunciou que, no âmbito de um contínuo processo de liberalização econômica, a China crescentemente abrirá seu setor financeiro à competição estrangeira. Além disso, desregulamentará a competição no setor automotivo e reduzirá tarifas à importação de automóveis e outros produtos manufaturados.

 

Para além da superfície, é mais difícil, no entanto, assinalar vitórias definitivas à estratégia de Trump. A Coreia do Sul pode ter feito uma série de concessões, mas o mais importante para ela nesse momento é continuar a contar com o apoio dos EUA na tentativa de arrefecer as tensas relações com seu vizinho ao norte. Em anos recentes, empresas sul-coreanas fizeram também maciços investimentos em plantas produtivas nos EUA —e também no México— obtendo assim vantagens de comercialização de produtos como se fossem fornecedores “locais”.
 
O TPP, em sua escala e abrangência, pode ter sido abandonado pelos EUA, mas o ímpeto plurilateral continua forte com a recente adoção da CPTPP (Parceria Abrangente e Progressiva) que reúne onze economias do Pacífico, entre elas Japão e Canadá, num acordo que fará avançar a integração econômica por meio do estabelecimento de padrões comuns em áreas como legislação trabalhista e ambiental.  
  
Quanto à OMC, os EUA de Trump a criticam abertamente, mas não deixaram de usar seus mecanismos há apenas duas semanas para iniciar consultas quanto a práticas chinesas de desrespeito a direitos de propriedade intelectual. Tais consultas representam nada mais do que o início formal de uma disputa comercial no âmbito da OMC. Ora, se ela não serve para nada, por que então a ela recorrer?
 
E em relação à China, o pronunciamento de Xi Jinping pode ser interpretado em Washington como uma vitória do estilo Trump de negociar. Os chineses sabem, contudo, que o grau de interdependência entre as economias de EUA e China é elevado. Ele vai além do campo comercial e abrange um intenso fluxo mútuo de investimentos financeiros e industriais. Assim, o caminho entre as palavras e a implementação concreta é bastante longo.
 
Nesse meio tempo, os chineses, mestres na arte da dissimulação, não têm nenhum problema em dar a Trump e seus apoiadores a impressão de que estão “cedendo” às pressões de Washington. Sabem que se Trump alardear a seus eleitores que vence batalhas pontuais, o vigor protecionista contra a China perde fôlego.
 
Sem ter de responder aos ciclos eleitorais das democracias ocidentais, os chineses contam com os recursos —e o tempo— para prevalecer em embates comerciais de maior fôlego. Aqui, emerge a diretiva de Deng Xiaoping, que ajudou a projetar a grande arremetida chinesa dos últimos quarenta anos: “Esconda sua força, espere pela oportunidade, ganhe tempo”.

 

MARCOS TROYJO é economista e cientista social




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