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Opinião / FRANKLIN EPIPHANIO
08.06.2018 | 23h10
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A vida no Brasil vale muito pouco

O Brasil é o mercado dos sonhos para qualquer empresa de segurança privada

Não tenho dúvidas de que segurança pública seja atualmente o tema de maior relevância no Brasil. Vivemos num país que perguntas como "Por que caminhos você vai e volta? Aonde você nunca vai? Em que esquinas você nunca para? A que horas você nunca sai?"* são corriqueiras. 

 

O planejamento das ruas a serem percorridas, do horário a se transitar, podem ser a diferença entre manter-se vivo ou morrer, entre permanecer com seus bens ou ser assaltado, entre conservar sua integridade física e psicológica ou ser agredido, estuprado, violentado.

 

Não é para menos. O Atlas da Violência 2018 tornado público esta semana traz números relativos à segurança pública no Brasil dignos de zonas de conflitos: em 2016, ano que o número de homicídios no país bateu recorde histórico com 62.571 pessoas assassinadas (ainda não temos os dados de 2017), tivemos 30,3 mortes para cada 100.000 habitantes, ou mais de 171 assassinatos por dia. 

 

Para efeito de comparação, a média no Reino Unido é de 1,3 mortes por 100.000 habitantes. A Organização Mundial de Saúde considera epidêmicas taxas acima de 10. 

 

Os brasileiros morrem jovens, principalmente se você for homem: a taxa de homicídios da subpopulação homens jovens (entre 15 e 29 anos) foi de assustadores 280,6 por 100.000 em 2016. A violência intencional causa 56,5% dos óbitos de homens entre 15 a 19 anos. "[…] trata-se de um problema de primeira importância no caminho do desenvolvimento social do país." (Atlas da Violência 2018, p. 04).

 

Moradores muram e colocam portões em ruas públicas, residenciais lutam na justiça para fecharem seus acessos e se tornarem condomínios fechados

"Eu vivo sem saber até quando ainda estou vivo, sem saber o calibre do perigo. Eu não sei d'aonde vem o tiro."* Tiro? Sim, tiro. Em Pindorama 71,1% dos homicídios foram cometidos com a utilização de armas de fogo, apesar do Estatuto do Desarmamento estar em vigor há quase 15 anos. Usando mais uma vez o Reino Unido como referência, lá apenas 5% dos assassinatos são cometidos com por meio de armas de fogo.

 

Nossos noticiários são verdadeiros obituários. Estamos "perdido[s] em números de guerra, rezando por dias de paz. Não vê[mos] que a sua [nossa] vida aqui se encerra, com uma nota curta nos jornais"*. 

 

Não à toa, imóveis em condomínios fechados e apartamentos valorizam-se, enquanto as "casas de bairro" estão em plena depreciação. Na Nova Zelândia, considerado um dos cinco países mais seguros do mundo, a polícia pouco se faz notar. Lá a valorização dos imóveis se dá - pasmem! - de acordo com a posição da escola do bairro no ranking educacional do país. Por aqui pouco importa a qualidade da escola local ou a presença de postos de saúde. O que importa mesmo é a presença de uma Base da Polícia Militar. O que todo presidente de bairro mais quer é ver uma unidade policial instalada em sua vizinhança. 

 

Moradores muram e colocam portões em ruas públicas, residenciais lutam na justiça para fecharem seus acessos e se tornarem condomínios fechados, câmeras de vigilância e cercas elétricas são instaladas - antigamente eram pregos e cacos de vidro -, cachorros ferozes são adotados, guardas noturnos contratados. Em terras tupiniquins concertinas - dispositivo da arquitetura militar destinado à defesa, impedindo a ultrapassagem de um perímetro - são elementos arquitetônicos utilizados para nos proteger de nossos concidadãos. Sintomas do nosso medo.

 

Vivemos "entrincheirado[s], vivendo em segredo"*. Como denuncia a poesia musical d’O Rappa, as grades dos condomínios que nos oferecem proteção, também trazem a dúvida de quem é o prisioneiro. 

 

Por tudo isso o Brasil é o mercado dos sonhos para qualquer empresa de segurança privada. Com faturamento de mais de R$ 30 bilhões anuais (sem considerar o mercado irregular que movimenta cerca de R$ 60 bilhões por ano), o segmento de segurança privada emprega mais de 600 mil trabalhadores, ante os aproximadamente 550 mil policiais civis e militares. A vida no Brasil vale muito pouco se você não pode pagar por segurança. 

 

Vale menos ainda se você é negro. Por aqui a morte faz distinção de pessoas pela cor da pele, pela idade, pela classe social. Enquanto a taxa de homicídios de indivíduos não negros diminuiu 6,8%, a taxa de vitimização da população negra aumentou 23,1%. "É como se, em relação à violência letal, negros e não negros vivessem em países completamente distintos. Em 2016, por exemplo, a taxa de homicídios de negros foi duas vezes e meia superior à de não negros." (Atlas da Violência 2018, p. 40)

 

No país do futebol "a vida já não é mais vida, [pois] no caos ninguém é cidadão"*. Mas e daí? O que importa é que esse ano temos Copa do Mundo. 

 

*Da música O Calibre d’Os Paralamas do Sucesso.

 

FRANKLIN EPIPHANIO é major da Polícia Militar do Estado de Mato Grosso.




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