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Opinião / ROBERTO DE BARROS FREIRE
13.06.2018 | 18h00
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A verdade é para poucos

A verdade é pouco democrática, é coisa de especialista e pouco acessível a grande maioria

Todas as verdades enunciadas desde os primórdios, sejam sobre o homem, sejam sobre o mundo, se mostraram falsas algumas gerações posteriores. As que resistem ainda com fama e estatuto de verdade, longe estão de desfrutarem de uma permanência assegurada e extensa.

 

A rigor nada há de certo ou verdadeiro, senão o que assim instituímos, e depende mais da crença das pessoas na sua assertiva, do que de sua veracidade para permanecer como verdade. De verdadeiro apenas que desfrutamos da consciência de que há mentiras e falsidades nessa vida, e que a verdade talvez seja uma ambição desmedida para a nossa mentalidade e toda verdade mentirosa. O fato é que as mentiras foram sempre mais utilizadas na convivência social e as verdades quase sempre machucam. No mais, apenas mentiras ou falsidades.

 

A verdade é pouco democrática, é coisa de especialista e pouco acessível a grande maioria. Na maior parte das vezes, quando exposta ao grande público, não a entendem, ou pensam que é falsa ou mentirosa, pois, mais que apontar a grandiosidade das coisas, revela a simplicidade de tudo. Retira a mágica e a fantasia, e coloca a realidade nua e crua, mais sanguinolenta que espiritual, mais prosaica do que fantástica, mais corpórea do que transcendente, mais rotineira que revolucionária.

 

Ora, a verdade está no melhor argumento que convence, não a todos, pois que isso seria impossível, mas aqueles poucos que importam e determinam o andar dos acontecimentos; é construída no debate constante do seu estatuto, que está sempre em risco devido a novas descobertas ou invenções.

O grande dilema da verdade é que, quando ela se torna popular, é quando se acende o alerta de que ela deve ser falsa

 

O grande dilema da verdade é que, quando ela se torna popular, é quando se acende o alerta de que ela deve ser falsa, pois a aceitação de uma maioria não dá mais certeza à verdade, e quando todos começam a discuti-la, abre-se a brecha que novas ideias surjam, num primeiro momento inaceitáveis, para logo depois se tornarem algo óbvio. Foi sempre assim, alguns poucos enunciam uma nova verdade para só muito depois serem debatidas e mais tempo depois aceitas. Eis porque a verdade muitas vezes é solitária, quando não é enquadrada como imoral, anormal e perversora.

 

A verdade é que ninguém quer saber dela, essa ilustre excluída, mais que desconhecida, a começar pelas pequenas verdades. Nem é tanto que não as conheçam, o que já seria um problema sério, o que apavora é uma certa aversão a conhecer verdades, elementares ou não. Não sabem e têm aversão de quem sabe. É que parece que a verdade só existe para estragar os prazeres, para revelar as baixezas e a crueza dos fatos, contendo certa depreciação, a triste certeza do engano, do erro, do equívoco, da falsidade, quando não da própria maldade, essa coisa que se incorre em algum momento ou outro.

 

E aqueles que ousam mostrar novas verdades são sempre considerados pervertidos, pois o novo parecerá sempre degenerado para velhos hábitos mentais, que não querem largar suas crenças, eis porque só os corajosos conseguiram enunciá-las do decorrer da história. Já a mentira e a falsidade são bem mais abrangentes, convincentes e até mesmo aceitáveis, na medida em que quase todos nascem e crescem dentro das verdades antigas, muitas falsas e ignorando as mudanças que ocorreram e estão ocorrendo.

 

A grande verdade é que existem inúmeras mentiras e infindáveis falsidades, e a função de uma pessoa razoavelmente honesta não é tentar acabar com estas, mas enunciar a sua verdade: a veracidade tem o estranho dom do convencimento pela impossibilidade de rebatê-la com os fatos, pois que esses já se apresentaram na sua enunciação. De resto, só podemos torcer para não sermos enganados, e nos esforçar para não sermos enganadores.

 

ROBERTO DE BARROS FREIRE é professor do Departamento de Filosofia/UFMT




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2 Comentário(s).

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Helder Dotto  14.06.18 08h24
Parabéns, Professor Roberto! " A rigor nada é"...é tudo relativo..."a verdade doí" e em ano de "fake news", "me engana que eu gosto". Abraços!
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Campos  13.06.18 19h21
Complementando: "A verdade é algo que nos convém!" a verdade que convém a um, não convém ao outro. Agora uma coisa é verdade, quem está no poder, isso em todas as esferas, seja político, religioso ou outros, empurram goela abaixo das pessoas fáceis de serem enganadas, as mais horrendas mentiras, como sendo verdade, e as pessoas não só acreditam como passam a defendê-las...
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