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Equilíbrio / CIÊNCIA & SAÚDE
05.01.2017 | 00h30
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Você é pré-diabético? Rótulo diz pouco sobre risco de desenvolver doença 7

Pré-diabetes é definido como um estado de glicose sanguínea elevada

DO UOL

http://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/the-new-york-times/2017/01/04/voce-e-pre-diabetico-bem-vindo-ao-clube.htm

 

 

"Os números não mentem", dizia a página doihaveprediabetes.org. "Um em cadarês adultos norte-americanos tem pré-diabetes".

O site me convidou para fazer uma avaliação de risco on-line, prometendo que o questionário só tomaria um minuto. O site foi amplamente divulgado nos Estados Unidos e faz parte de uma campanha de mídia em parceria com a Associação Médica Americana, A Associação Americana do Diabetes e o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês). Cerca de 292 mil pessoas já realizaram o teste.

 

Comigo, são 292.001. Eu cliquei no botão amarelo, informei meu gênero, raça e faixa etária. Respondi algumas questões sobre histórico familiar e sobre o meu histórico médico, informei que pratico atividades físicas e inclui minha altura e peso.

 

Como me saí? "Com base nesses resultados, você tem boas chances de ter pré-diabetes e faz parte do grupo de alto risco de diabetes tipo 2". O site me aconselhou a procurar um médico para realizar um exame e confirmar os resultados.

 

Eu até ficaria mais preocupada, se não tivesse acabado de ler uma nova análise publicada na JAMA Internal Medicine.

 

Estou em boa companhia: o estudo revelou que mais de 80% dos americanos com mais de 60 anos receberiam o mesmo aviso. O mesmo vale para quase 60% das pessoas com mais de 40 anos, totalizando cerca de 73,3 milhões de pessoas.

 

.

Os pesquisadores, do Tufts Medical Center, em Boston, utilizaram dados de 10.175 participantes do Exame Nacional de Saúde e Nutrição.

 

Uma vez que o diabetes tipo 2 é um problema de saúde importante e crescente, os especialistas sem dúvida querem ajudar as pessoas a evitá-lo. Mas será que um teste que identifica praticamente qualquer pessoa idosa como caso provável de pré-diabetes pode ser significativo e relevante?

 

Um editorial que acompanhou o estudo destacou que "essa é uma condição que nem conhecíamos há uma década".

 

Para o principal autor do estudo, o Dr. Saeid Shahraz, especialista em análise preditiva e eficácia comparada, o teste representa uma "medicalização" --definindo algo que era visto como normal como uma doença que exige atenção, monitoramento e tratamento.

 

 

 

"Não se trata de uma ferramenta científica", afirmou Shahraz a respeito do teste virtual. "Um modelo preditivo deve ser capaz de destacar indivíduos de alto risco" --as pessoas que mais se beneficiariam com intervenções, de acordo com pesquisas.

 

"Esse teste só diz que todo mundo faz parte do grupo de risco. Não dá para acreditar".

 

O Dr. Victor Montori, endocrinologista e especialista em diabetes da Clínica Mayo, também tem dúvidas. "Identificar pessoas e rotulá-las --será que isso ajuda?", questionou.

 

 

 

No caso de pessoas mais velhas, os níveis de glicose no sangue aumentam naturalmente à medida que o pâncreas passa a produzir menos insulina e o corpo se torna mais resistente a ela. "Essas pessoas estão saudáveis e essa campanha fará com que elas se sintam doentes", afirmou.

 

Ao invés disso, ele defende adaptações na dieta, redução nos níveis de pobreza e outros fatores ligados ao diabetes.

 

Ann Albright, diretora da divisão de diabetes do CDC, está perdendo a paciência com essas críticas. "O objetivo dessa ferramenta é gerar discussões", afirmou.

 

 

 

"O objetivo obviamente não é o de fornecer um diagnóstico, mas apenas de dar uma ideia de onde as pessoas estão."

 

A discussão sobre os testes, segundo ela, "tirou o foco da conversa, que deveria ser o de conscientizar as pessoas para o problema do diabetes e levá-las ao médico".

 

 

 

A Associação Americana do Diabetes e o CDC definem o pré-diabetes como um estado de glicose sanguínea elevada, geralmente avaliado por meio de um exame feito com o paciente em jejum, mas que não seja alto o bastante para ser considerado diabetes. (Outra forma de avaliar é por meio de exames de tolerância à glicose, ou dos níveis de HbA1c).

 

Muitos idosos não precisam ir ao médico para realizar o exame; exames de sangue feitos anteriormente provavelmente incluem os níveis de glicose. Quando o valor é superior a 126 miligramas por decilitro, o paciente tem diabetes.

 

Se o total é superior a 100 mg/dL, mas inferior a 125, a pessoa tem pré-diabetes, uma condição que não causa danos nos órgãos, nem sintomas perceptíveis, embora aumente o risco de o paciente desenvolver diabetes.

 

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Conheça alguns mitos e verdades sobre diabetes 20 fotos

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Diabetes, na fase inicial, não provoca sintomas. VERDADE: na fase inicial da doença, o único indicativo é mesmo o exame de sangue. "Diferentemente de outras doenças, o diabetes não provoca dor. Até chegar às complicações severas, o paciente pode levar 10, 15 anos", afirma o endocrinologista Felipe Gaia. Por isso, é importante que os pacientes sejam bem orientados pelos médicos, para que não fiquem relapsos com o tratamento VEJA MAIS > Imagem: Getty Images / Thinkstock

 

Nem todo mundo vira diabético

 

Nem todo mundo que recebe o diagnóstico de pré-diabetes se torna diabético. O CDC afirma que de 15% a 30% das pessoas com pré-diabetes desenvolvem um quadro diabético em até cinco anos, embora os índices sejam mais altos entre os idosos.

 

Uma vez que a probabilidade de desenvolver diabetes pode ser revertida, ou ao menos retardada, o CDC lançou em 2012 o Programa Nacional de Prevenção ao Diabetes, oferecido em parceria com a ACM, com igrejas e centros comunitários. Mais de 90 mil pessoas participaram em 1.200 locais.

 

O programa enfatiza a importância de uma alimentação saudável e da prática de atividades físicas. E quem poderia discordar disso? Como demonstrou um estudo publicado em 2002 pelo New England Journal of Medicine, essa abordagem é mais eficaz na redução do risco de diabetes em um período de três anos do que o uso de metformina, o medicamento mais comum no combate à doença.

 

O programa comprovou que essa é uma abordagem ainda mais eficaz em participantes com mais de 60 anos do que entre os mais jovens. Contudo, alertar praticamente todos os idosos dos riscos de pré-diabetes ainda incomoda alguns pesquisadores e médicos.

 

"Essa é uma tentativa de melhorar comportamentos com base no medo", afirmou o Dr. Jeremy Sussman, pesquisador do diabetes na Universidade do Michigan e no Veterans Affairs Ann Arbor Healthcare System.

 

Assim como com qualquer definição de doença, ou de quadro precursor, as diretrizes são arbitrárias e mudaram ao longo do tempo de forma a considerar um grupo cada vez maior como pré-diabético.

 

A Organização Mundial da Saúde, por exemplo, adota uma abordagem mais conservadora, definindo o pré-diabetes como um nível de glicose no sangue superior a 110 mg/dL, ao invés de 100. Essa diferença aparentemente pequena, caso fosse adotada nos EUA, reduziria o número de americanos com pré-diabetes em cerca de 50%, afirmou Montori.

 

A primeira linha de tratamento para o pré-diabetes e para o diabetes são mudanças no estilo de vida que reduzam a obesidade e o sedentarismo. Mas será que as pessoas prestariam atenção nesse conselho, já tão onipresente?

 

"Se eu tiver uma paciente no meu consultório e defini-la como pré-diabética, não há mais nada que eu possa dizer além de que ela deve se exercitar e controlar a dieta", afirmou Shahraz.

 

"Essas intervenções são tão genéricas que deveriam servir de recomendação para qualquer pessoa, incluindo as saudáveis".

 

Contudo, alguns médicos prescrevem o metformina em casos de pré-diabetes --uma preocupação no caso dos idosos, que já lidam com diferentes tipos de medicamentos e correm riscos com interações.

 

Mesmo que pacientes mais velhos desenvolvam o diabetes, os riscos são diferentes para os mais jovens. "Os efeitos negativos do diabetes surgem ao longo de décadas", afirmou Sussman.

 

Diabéticos de 40 e poucos anos têm muito mais tempo para sofrer com alguma das terríveis complicações causadas pela doença, de danos aos rins à perda de visão, passando por ataques cardíacos e AVCs.

 

Pessoas com mais de 70 anos "têm menos anos para sofrer com as sequelas", afirmou Sussman. Se tratados corretamente, eles provavelmente morrerão em decorrência de outras doenças.

 

A questão dos recursos também é relevante. Os diabéticos precisam e consomem boa parte dos recursos de saúde. Nosso sistema é capaz de tratar os milhões de pré-diabéticos? Isso é necessário?

 

No CDC, a resposta é positiva. "Nosso plano é acomodar esses milhões de indivíduos" no Programa Nacional de Prevenção do Diabetes, afirmou Ann Albright.

 

Sua equipe trabalha para convencer os planos de saúde privados a cobrir o custo, que geralmente gira em torno de US$ 500 por cada curso anual onde os pacientes aprendem a se exercitar e a comer melhor. A cobertura do Medicare terá início a partir de 2018.

 

"Vamos trabalhar lado a lado para dar conta da demanda, mas também precisamos garantir que ela exista", afirmou Ann.

 

Eu estou disposta a aceitar o conselho, ainda que não aceite o rótulo.

 

Se eu fosse um quilo e meio mais leve, como era antes de chegar o fim do ano, e se todos os fatores de risco se mantivessem inalterados, o teste on-line teria me parabenizado pelo baixo risco e teria me convidado a "manter o bom trabalho".

 

Por muitas razões, vou continuar a me exercitar e a lutar contra os quilinhos indesejados. Mas não preciso ser classificada como pré-diabética para fazer isso.

 

 

Fonte     http://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/the-new-york-times/2017/01/04/voce-e-pre-diabetico-bem-vindo-ao-clube.htm

 

 

 




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