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Entrevista da Semana / NA INTERNET
20.01.2018 | 20h00
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Vício em selfie é doença e requer tratamento, diz especialista

Estudiosa do comportamento digital, Maria Augusta Ribeiro observa que diagnóstico é feito por médico

Alair Ribeiro/MídiaNews

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Maria Augusta é especialista em comportamento no ambiente virtual

CÍNTIA BORGES
DA REDAÇÃO

Atire a primeira pedra quem nunca pegou o celular para tirar uma foto de si mesmo, a chamada selfie. Entretanto, o ato, aparentemente inofensivo, pode se tornar vício, com necessidade de tratamento.

 

De acordo Maria Augusta Ribeiro, especialista em comportamento digital e netnografia, há ainda registrados mais de 20 tipos de patologias ligadas ao excesso de tecnologia.

 

“As pessoas podem se viciar em selfie. O vício em selfie é uma doença, é uma patologia médica, em que um psiquiatra faz o diagnóstico”, afirma Maria Augusta, que ainda é formada em Direito, Administração e pós-graduada em Comunicação Corporativa, pela Universal Class da Florida (EUA).

  

Os cliques incontroláveis de si mesmos ainda podem revelar uma personalidade solitária, e até a falta de estrutura familiar, segundo ela. 

 

Em entrevista exclsuiva ao MidiaNews, a especialista fala ainda sobre as "fake news", assédio sexual pela internet, consumo nas redes e até os chamados "nudes".

  

Confira os principais trechos da entrevista:

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Maria Augusta Ribeiro

Maria Augusta diz que pais devem acompanhar, e não reprimir, o uso das tecnologias dentro de casa

MidiaNews - Nesta semana, tivemos em Cuiabá um episódio de uma estudante de 14 anos supostamente assediada pelo personal trainer, e o caso de outra, de 19 anos, que teria sido aliciada por uma quadrilha de exploração sexual de mulheres.  A internet deixa as pessoas mais vulneráveis a esse tipo de situação?

 

Maria Augusta Ribeiro – Uma vez expostos à internet, eternamente estaremos. Todo mundo está exposto de alguma forma. Existe um limiar pequeno entre um crime, uma patologia e um comportamento. 

 

Vou dar um exemplo: você não abre a porta da sua casa para um estranho. Mas a foto de uma moça bonita, de um rapaz atraente na internet, faz você aceitar uma conversa. E essa pessoa, de repente, pode ser de uma quadrilha. Acredito que a internet deixou as coisas mais práticas para a gente e também para quem não é bacana ter acesso a nós.

 

MidiaNews – E por que tanto assédio nas redes sociais?

 

Maria Augusta Ribeiro – Hoje, há um dado da ONU [Organização das Nações Unidas] que diz que aquela uma hora antes de você dormir, que você empresta o telefone celular a um filho de 0 a 11 anos, eleva em 78% a possibilidade dessa criança ser exposta a um crime, como pedofilia, assédio e abuso sexual.

 

E a culpa disso não pode ser atribuída a um comportamento ruim dos pais, mas sim à facilidade que a internet dá para esse tipo de pessoa invadir a privacidade da outra. Esse dado é relativo a pessoas que tenham acesso a internet, independente do que quer que seja: computador, telefone... 

 

MidiaNews - Como especialista no comportamento no ambiente virtual, o que a senhora indica para os pais de crianças e adolescentes, diante de tanta informação sobre sexo na rede?

 

Maria Augusta Ribeiro – A proibição não é legal, o que é legal é o acompanhamento. E esse acompanhamento não deve ser considerado um monitoramento do tipo “eu estou verificando o que você está fazendo de errado”. Às vezes acontece de crianças e jovens trazerem informações para nós, de redes sociais, Youtube, de um site, que às vezes você não conhece e é legal a gente conhecer. 

 

Eu tenho uma colega que tem um comportamento muito bacana. Ela atribui 15 minutos diários aos filhos, que são crianças de até 6 anos. Naqueles 15 minutos depois da escola e dos deveres, há uma experiência de ambos. O que os filhos querem fazer, ela faz junto, interagindo dentro desse universo e dizendo: “Olha, isso que você está acessando acho que não é legal”. Ela acompanha, troca experiência, mas não fica algo proibitivo. Isso só vai moldando os valores, a educação dos filhos.

 

MidiaNews – A tecnologia e a internet contribuem para a despertar mais cedo a sexualidade da criança?

 

Maria Augusta Ribeiro – Não. Hoje, alguns especialistas dizem que o acesso à informação - e aí não é só a internet - contribui para a precocidade dos jovens. Hoje, uma criança de 11 anos já é considerada jovem. Porque consegue fazer reflexões, consegue conversar sobre assuntos que há 20 anos não conseguia, [porque] tinha o comportamento mais infantilizado.

 

O que a internet fez por nós é que ela nos colocou no mesmo nível. Então, não existe mais o pedófilo, que está muito distante, ou o dono de uma megaempresa, ou eu, ou você. Estamos todos no mesmo lugar.

 

Isso tem o lado ruim, mas tem o lado bom. O lado bom é que a gente consegue ter mais informação, conseguimos gerar mais conhecimento. Por exemplo: você consegue contratar um profissional que, talvez, se fosse no ambiente físico, não conseguiria por morar em outra cidade. Você consegue receber dados do mundo inteiro. E isso é legal. 

 

Às vezes a gente está tão envolvido com abusos da internet que nos esquecemos das coisas boas. 

 

MidiaNews – Por que, mesmo sabendo do risco de suas fotos vazarem, muitos jovens ainda enviam os chamados "nudes" para pessoas que elas, às vezes, nem conhecem pessoalmente?

 

Maria Augusta Ribeiro - A gente tem que ter um distinção bem rígida para dois tipos de comportamento. Um é o jovem que faz isso, porque jovem faz coisas que a gente não consegue explicar. E o outro é um crime.

 

A partir de que momento ele é um crime ou apenas um comportamento inadequado? O que é crime, abuso e assédio, as pessoas têm como provar. Vão à Justiça e resolvem isso lá. Outro ponto é você difamar alguém na internet por conta de um comportamento inadequado.

 

O que a gente vê hoje é que o jovem, em específico, não tem mais medo de se expor. Por que daqui uma semana ou duas não será mais notícia. O que a minha geração não faz, a nova faz, e às vezes os jovens não dão tanta importância ao corpo, porque temos muita informação sexualizada na internet. 

 

E essa informação sexualizada é o quê? É que a menina precisa ser mais fitness, que o corpo bonito é o sarado. Aqui no Brasil a gente se toca mais, a gente é mais afetuoso. Então tudo isso pode ajudar em comportamentos que não são tão legais. E serem confundidos com condutas de crimes e patologias.

 

MidiaNews -  Esse excesso de exposição é algo que veio com a internet ou já existia e a internet apenas o aflorou?

 

Maria Augusta Ribeiro – A internet nos colocou em um mesmo lugar. Isso já existia e hoje só temos informação de que acontece. As pessoas me perguntam muito a respeito da tecnologia. A tecnologia é ótima, mas é errado atribuir a ela a culpa de um comportamento seu.

 

A gente atribui o problema da tecnologia ao acesso a internet, mas não ao seu comportamento abusivo na internet. Ou que você ficou muito tempo exposto. Ou que você deixou o filho muito tempo exposto...

 

MidiaNews – Há um consenso sobre a quantidade de tempo adequada em que um adulto e uma criança podem ficar expostos à tecnologia?

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Maria Augusta Ribeiro

Especialista diz que não há um consenso sobre o tempo ideal para uso das tecnologias sem prejuízos à saúde

Maria Augusta Ribeiro – Não. Existem pesquisadores que são muitos radicais e dizem que a exposição à bateria é prejudicial ao nosso cérebro. Há probabilidade de desenvolvermos déficit de atenção, dificuldade de ser alfabetizada.

 

Eles dizem que o ideal é que, até dois anos, a criança não seja exposta a nenhuma tecnologia. E isso inclui controle remoto, telefone, TV... E de dois a 11 anos, um hora por dia.

 

É obvio que isso não é observado em lugar nenhum do mundo. E a gente vai ter sim consequências disso. Podem ser crianças e jovens que vão ter problemas de socialização, problemas oculares, obesidade, déficit de atenção...

 

Há uma doença chamada de nomofobia, que é o uso excessivo da tecnologia. Nela, quando a pessoa é privada de usar a tecnologia, ela tem ansiedade, sudorese e até taquicardia. 

 

MidiaNews – Já há tratamento?

 

Maria Augusta Ribeiro – Sim. E é isso é muito sério. Existem empresas, escolas e departamentos detox que já realizam tratamento. Aqui no Brasil o mais desenvolvido é o Hospital das Clínicas (SP), que tem um andar inteiro para tratar vício de internet. E nós estamos falando em games, de gente que precisa ser exposta a informação o dia inteiro...

 

MidiaNews – Como a pessoa percebe que já está viciada e se excedendo no uso de internet?

 

Maria Augusta Ribeiro – Vício é uma doença, não há controle. Eu não consigo estabelecer quando eu usei demais ou se usei de mais. Quando me droguei demais ou me droguei de menos. Mas para o excesso do uso, vale o bom senso.

 

Uma pessoa que trabalha com a internet é uma coisa, uma pessoa que usa para entretenimento é outra. Se ficar o dia inteiro na frente da TV, isso vai trazer um malefício para minha vida? É a mesma coisa para internet. Ficar o dia todo também não vai ser legal. 

 

O que as pessoas às vezes colocam como bom senso para crianças até 11 anos são duas horas por dia. Eu vejo muitos pais cortarem o acesso à internet da criança e deixando elas usarem apenas em uma determinada hora do dia. Assim, a criança não se sente desmerecida.

 

Mas o que vemos é que não existe um controle, e nós estamos falando de comportamento. O seu valor, o que você aprende de bom e ruim, o que pode o que não pode, o certo e o errado, não existe muito bom senso por parte dos pais. 

 

E quando se tem um excesso, há uma consequência. Por exemplo: uma criança que enxerga perfeitamente em um ano e no outro passa a ter 5 graus causados por exposição demais à tecnologia. Disso os pais são os principais culpados.

 

Então, o bom senso nunca é demais.

 

MidiaNews - Os pedófilos parecem ter encontrado, na internet – especialmente na chamada "deep web" –, o ambiente perfeito para satisfazer seus desejos. Como a senhora vê esse fenômeno?

 

O que a internet fez por nós é que ela nos colocou no mesmo nível. Não existe mais o pedófilo, que está muito distante. Estamos todos no mesmo lugar, e a gente consegue ter acesso a essas pessoas"

Maria Augusta Ribeiro – Eu tenho muita preocupação com relação à pedofilia porque ela é uma doença. É alguém que é estimulado sexualmente pelo sexo infantil, que vê numa criança algo atrativo. Isso é uma patologia. A gente coloca tanto como crime a pedofilia, que às vezes acreditamos que aquilo é abuso sexual, somente. Ele é um abuso, mas tem uma patologia por trás.

 

Existe um autor americano que escreveu um livro chamado "Glow Kids", que fala sobre o encantamento das crianças com as telas azuis. 

 

Ele fala do quanto é fácil para alguém que quer cometer um crime sexual abordar crianças e jovens.

 

A "deep web" serve para tudo, desde o cara que quer vender droga, para criminosos, e para a exploração de informação. A gente fala pouco, mas há muita gente que vende informação que não pode dentro da "deep web".

 

MidiaNews – Mas, o pedófilo atua em todas as esferas da internet, não é? Não só na "deep web"...

 

Maria Augusta Ribeiro – Não somente. O que acontece com eles é que são sedutores. Ele utiliza artifícios tecnológicos, como aplicativos para criação de avatares, para chegar aonde precisa. Mas não necessariamente vai usar uma tecnologia superavançada ou usar um megaconhecimento.

 

MidiaNews – A internet facilitou a atuação dos pedófilos?

 

Maria Augusta Ribeiro – Sem dúvida. A internet nos colocou no mesmo lugar. Então, estando no mesmo lugar, consigo acesso a você de maneira muito mais fácil.

 

MidiaNews - Algo bastante comum, observado no ambiente virtual, são os chamados “haters”, pessoas que destilam ódio protegidas pelo anonimato.

 

Maria Augusta Ribeiro – Especialmente no caso dos "haters", o que vejo é que eles se blindam, como se a internet fosse uma cobertura para que eu possa fazer o que eu quiser. Porque há a facilidade de criar um perfil falso, com fotos de qualquer pessoa. Não há a necessidade de eu mostrar a cara. 

 

E hoje temos os "boots". Eu posso ser uma conta "hater", com 15 mil "boots" falando a mesma coisa em muitos lugares. Esse ano teremos eleições e vamos ver bastante disso.

 

MidiaNews – Como perceber que o prazer pela curtida nas redes sociais virou obsessão?

 

Maria Augusta Ribeiro – A curtida e o compartilhamento no meio virtual geram uma recompensa instantânea. Mas essa recompensa não é física. Vou dar um exemplo: se você fizer um bom trabalho, eu te dou um elogio. “Você é um bom profissional, fez um ótimo trabalho”. Na rede social, isso vira uma curtida. Ela não foi genuína. E isso pode, sim, confundir os mais jovens.

 

As gerações mais velhas podem até cair em crimes na internet, ou acontecer alguma coisa com elas fora, mas elas já têm as crenças e valores estabelecidos. O jovem ainda está em formação. Se, por acaso, ele tem uma turma que comete pequenos delitos, por exemplo, e ele é incentivado a fazer algo errado, ele faz. Por não saber ainda muito bem o que é certo e errado. Por estar se moldando, moldando a personalidade. 

 

Quando falamos em curtida e compartilhamento, as redes sociais geram uma recompensa instantânea. E daqui a uma semana já não é mais suficiente.

 

A gente vê muitos casos em que as famílias têm problemas de comportamento, de valores e convivência, e isso afeta os jovens quando vão para internet. Eles vão buscando o reconhecimento que eles não têm em casa. Uma valorização que não têm em casa.

 

E é uma busca incansável por aquilo, porque realmente não é um abraço, um carinho. Não é uma recompensa real.

Alair Ribeiro/MidiaNews

Maria Augusta Ribeiro

Maria Augusta alerta sobre busca constantes por curtidas e compartilhamentos nas redes sociais

 

MidiaNews – E, por ser instantânea, há a dependência dessa curtidas?

 

Maria Augusta Ribeiro – Existe. Existem alguns casos de jovens que têm vício em selfie. Eles tiram 500 fotos para usar uma, para ser aceito. Ele pode ter 500 comentários bacanas, mas um comentário negativo significa que ele não foi aceito e ele recomeça o processo.

 

Mas todas às vezes que a gente fala de excessos na internet e eles se tornam vícios, eles são encarados como patologias médicas. É o médico psiquiatra e o psicólogo que irão diagnosticar. Como outras doenças, não somos nós, cidadãos comuns, que iremos diagnosticar as doenças. Podemos avaliar uma conduta que não é legal para gente, mas o diagnóstico é sempre médico. 

 

MidiaNews – E por que tanta selfie?

 

Maria Augusta Ribeiro – Ela acaba sendo uma medida de recompensa. Uma pessoa que não é valorizada em casa, no trabalho, que sofre uma violência doméstica, que vem de uma família que não a valoriza, ela acaba transferindo essa responsabilidade por mimá-la. Mas a internet não vai fazer isso.

 

MidiaNews – Podemos dizer que o excesso de selfie pode ser um sinal de algum problema?

 

Maria Augusta Ribeiro – O vício em selfie é uma doença, é uma patologia médica, em que um psiquiatra faz o diagnóstico.

 

MidiaNews - Então, as pessoas podem se viciar em selfie?

 

Maria Augusta Ribeiro - Podem. Mas todas as patologias são diagnósticos médicos. São mais de 20 patologias causadas pelo uso excessivo da internet. Uma delas é nomofobia.

 

Há um documentário que fala a respeito de campos, que não têm conexão com internet, em que os pais levam as crianças para fazer outras coisas.

 

Imagina, por exemplo, a China que tem uma quantidade enorme de jovens. Lá existem mais de 400 clínicas que tratam crianças com nomofobia. 

 

É muita gente ficando viciada ou desenvolvendo patologias por causa da internet.

 

MidiaNews – É importante pais e a própria pessoa ficarem atentos a esse comportamento?

 

Maria Augusta Ribeiro – Quando você pega um Instagram de alguém que tira muita selfie, o que podemos dizer de cara? Que ele tem poucos amigos, é uma pessoa solitária.  Que nunca está com amigos. A selfie em especial pode nos dizer muitas coisas a respeito das pessoas. Mas diagnóstico do vício quem faz é o médico.

 

MidiaNews – Neste ano eleitoral, as atenções estão voltadas, entre outros riscos, para as chamadas “fake news”. Quem compartilha as “fakes news” faz por ignorância ou quer apenas reforçar seu ponto de vista, ainda que divulgando algo sabidamente falso?

 

Maria Augusta Ribeiro – Hoje nós temos compartimentada a ideia de “fake news”. Porque nós temos robôs, então eu codifico o meu computador para ficar disparando notícias inverídicas 24 horas na internet. Aquilo acaba se tornando uma notícia, e até as pessoas irem averiguar, ela já foi divulgada.

 

Esse ano existe uma empresa vindo para o Brasil chamada Cambridge Analytics, que é especialista nisso. Ela ajudou na eleição do Donald Trump.

 

MidiaNews – Disparar noticias falsas sobre alguém não é ilegal? Não há legislação sobre isso?

 

Maria Augusta Ribeiro – Não. Não existe uma lei dizendo que ela não pode fazer isso. Porque, como você vai provar que aquele robô que repassa a notícia falsa é da empresa? O Brasil é muito atual na questão de lei sobre a internet. Nós temos o Marco Civil da Internet, que regulamenta uma série de coisas. Mas o que chamamos de neutralidade da rede não é observada nem nos Estado Unidos, que são um País super-avançado. 

 

Nós vamos ter muitas coisas acontecendo por conta de robôs. Por exemplo, vão surgir muitos profissionais que serão contratados para fazerem um blog e falar de determinada pessoa. O outro para falar bem de um livro, por exemplo.

 

Nós ainda temos a “fake news” do cidadão comum. Você me manda uma notícia que não é verdade, mas você não sabe. Você leu, achou interessante, e manda para mim, que mando para ele, que manda para outra pessoa... E uma hora ela deixa de ser “fake news” porque alguém apura a informação, mas até chegar nesse momento, ela foi amplamente divulgada.

 

MidiaNews - A impressão que dá é que, quanto mais curiosa a notícia, mais sentido de verdade ela ganha para algumas pessoas.

 

Maria Augusta Ribeiro – Eu acredito que muitos meios de comunicação deixaram de checar a informação. Quantas vezes nós lemos o título de uma notícia e após ler a matéria nós vemos que não é bem aquilo. Ela não mentiu, mas acaba gerando um “fake news” só por conta do título.

  

MidiaNews – E há uma maneira de combater isso?

 

Maria Augusta Ribeiro – Existem muitos sites que funcionam para esclarecer esses casos, o próprio Google tem ferramentas para isso. Então, checar as informações que chegam até você nunca é demais.

 

Antigamente nós tínhamos 15 segundos para ver uma propaganda na TV. Hoje esse tempo foi reduzido para 3 segundos. Então pensa: em 3 segundos você bate o olho na notícia e sai compartilhando.

  

MidiaNews - A senhora pode explicar melhor o que é netnografia?

 

Maria Augusta Ribeiro – A netnografia é o estudo do comportamento do consumidor dentro da internet. Quando a gente estuda o comportamento do consumidor, a gente cria diagramas geracionais. 

 

Então, eu sei de que geração você é, sei qual o tipo de comportamento que você vai ter para consumir na internet, e aí eu consigo lhe oferecer produtos melhores, serviços mais atrativos, coisas mais interessantes.

 

Vou te dar um exemplo: Nivea Invisible Drive foi um desodorante criado pela marca de tanto as pessoas comentarem nas redes sociais da própria empresa que gostariam de um desodorante que não manchasse nem as roupas claras, nem as escuras. 

 

A netnografia consegue proporcionar principalmente para o mercado indicações melhores daquele ou deste produto.

 

MidiaNews – Mas, o que a senhora faz exatamente?

 

Maria Augusta Ribeiro – Quando uma empresa me contrata, eu vou estudar o comportamento dos consumidores dela. A partir do momento que nós balizamos todo o sistema, eu vou estudar o comportamento, observar comentários, grupos de Facebook... Tudo isso é observado. E a gente chama de arma secreta do marketing: você dá uma pista do que eu vou consumir daqui a um, cinco, dez, vinte anos. Só por conta do comportamento que você tem ao acessar a internet.

 

MidiaNews – E o que estaremos consumindo?

 

Maria Augusta Ribeira – Depende da geração que você faz parte. São as faixas etárias, ganhos, onde estão.. Tudo isso vai determinar se eu vou consumir mais, menos, quando e o que.

 

MidiaNews – A nova geração vai consumir mais do que já consumimos hoje em dia?

 

O excesso [de consumo] é ruim, mas você ter acesso às coisas, não"

Maria Augusta Ribeiro – Essa geração que hoje está com 11 anos vai consumir muito mais. Essa geração que alguns chamam de Z, alfa, mas ainda sem um consenso sobre os nomes. Mas o que posso te dizer de consumo com a internet é de que hoje se consome mais, porque temos mais acesso a informação. 

 

Antigamente você não consumia determinado livro porque você não sabia que ele existia. Para você saber você teria que frequentar uma biblioteca, ou ser uma pessoa que gostasse muito de ler. Hoje não, dependendo do assunto que eu pesquiso no Google, ele é oferecido para mim. 

 

MidiaNews – Então, o consumo pela internet tende a crescer? E isso pode atrapalhar o mercado físico?

 

Maria Augusta Ribeiro – Vai, mas não vai afetar o mercado de lojas físicas. São dois públicos distintos, com realidades distintas.

 

Eu vou te dar um exemplo. A Margazine Luiza, que tem um dos maiores consumos na internet, está abrindo lojas físicas no Brasil inteiro. E muitos perguntam: não estamos em crise? Ao abrir essas lojas, ela quer o quê? Que o produto comprado pela internet chegue mais rápido a sua casa. Então se ela tiver uma loja aqui, o produto comprado pela internet chega em sua casa em 24 horas. E ela ganha o cliente.

 

MidiaNews – Esse consumo virtual pode resultar em prejuízo?

 

Maria Augusta Ribeiro – Eu não acredito nisso. Quando a gente fala em consumo a gente lembra de coisas palpáveis, mas a gente esquece do consumo “impalpável”. Alguém pode fazer uma faculdade em outro País. Uma pessoa que não tem uma escola de inglês na cidade dela, pode fazer um curso. E isso também é consumo, e super benéfico.

 

É que quando falamos de consumo achamos que é o consumo desenfreado, mas na realidade tem uma exposição muito boa, e consequentemente econômica. Temos mais coisas, o comércio evolui, gera mais dinheiro e todo mundo fica legal. Eu acho que essa ciranda econômica não é ruim. 

 

O excesso é ruim, mas você ter acesso às coisas, não.  

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2 Comentário(s).

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Odila Weippert  25.01.18 15h20
riqueza de reportagem parabéns informações valiosas. No que se refere a solidão ausência familiar quando fala dos selfs em excesso. Um grande problema: Teria como resolver essa separação familiar? grata
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Maira  22.01.18 10h02
Excelente entrevista!
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