ENQUETES

Você é a favor ou contra O FIM do estatuto do desarmamento?

PUBLICIDADE

Entrevista da Semana / MERCADO DA ARTE
05.08.2017 | 20h11
Tamanho do texto A- A+

“Uma minoria compra, mas a gente quer que todos vejam”

Artista plástica, Capucine Picicaroli diz que é importante educar o público para consumir obras e visitar exposições

Alair Ribeiro/MidiaNews

Clique para ampliar

Capucine Picicaroli: "O pintor brasileiro tem um compromisso muito grande com a obra dele, mais do que a gente vê nos outros países"

LUCAS RODRIGUES
DA REDAÇÃO

Orixás, México, Madonas, Circo, Pássaros. Temas variados que se transformam em telas vibrantes, coloridas e que conseguem encantar os olhos quando passam pelo pincel, imaginação e cuidado da artista plástica cuiabana Capucine Picicaroli.

 

Apesar de ter crescido respirando a arte em meio às charges políticas do pai e às pinturas da mãe, durante parte de sua juventude Capucine se dedicou à atividade empresarial, até que decidiu mudar drasticamente e viver daquilo que a inspirava: a pintura.

 

“Eu fui colocando na balança que eu não poderia ter um carro zero todo ano, mas estaria feliz pintando. Não viajaria o tempo inteiro nem teria roupas tão boas, mas estaria feliz”.

 

A opção foi mais do que acertada. Capucine se consolidou no mercado e já expôs em diversos lugares do Brasil e do Mundo, inclusive no Museu do Louvre, em Paris, nos anos de 2014 e 2015.

 

A artista, que hoje possui uma galeria que leva seu nome no Goiabeiras Shopping, na Capital, afirma que promove exposições não só com o intuito de vender, mas especialmente para mostrar as suas obras e de outros artistas para toda a população.

 

“A gente precisa do público, mostrar o trabalho, senão a gente fica limitado ao público consumidor. Nem todo mundo pode comprar uma obra de arte, mas podem observar, visitar a exposição. O artista é vaidoso, quer ser visto, quer que crianças, adultos, visitem, comentem. Você está pintando sobre uma coisa que quer mostrar".

 

Em entrevista ao MidiaNews, Capucine também falou sobre seus projetos, leis de incentivo à cultura, cultura contemporânea e a falta de maturidade do poder público em relação ao fomento à arte. 

 

Confira a íntegra da entrevista:

 

MidiaNews – Como começou o seu gosto pela pintura?

 

Capucine Picicaroli – Com minha família, em casa. Minha mãe pintava em tela, e meu pai era desenhista, ele fazia charge política nos anos 70 e 80 para os jornais lá do Paraná. Então em casa sempre havia tinta, papel, caneta, todo tipo de arte. A gente meio que cresceu fazendo. Eu e minha irmã. Grande parte da família é de artistas, meus tios eram carnavalescos, montavam carros alegóricos gigantes, naquela época montavam em cima de caminhão. Esse era o universo que a gente participava.

 

E não é muito fácil você viver disso no Brasil, você começar a desenvolver um trabalho logo de cara, cedo, é muito complicado. Eu tinha outros compromissos e fui fazer outras coisas. A pintura entrou na minha vida definitivamente como profissão aos 35 anos.

Alair Ribeiro/MidiaNews

Capuccine Picicaroli

De empresária a artista: "Olhando hoje, eu fui muito bem sucedida nessa troca, mesmo sem ter uma certeza constante".

 

MidiaNews – Mas nesse meio tempo você continuava pintando?

 

Capucine Picicaroli – Sim, nunca parei. Sempre pintei para mim, nunca mostrei, dava de presente para os meus amigos. Ia a um aniversário e dava de presente, não tinha uma rotina de pintura. E aos 35 anos eu vi que não estava satisfeita. Porque eu estava fazendo outras coisas e sentia que não era aquilo que eu deveria fazer na vida. Eu sempre tive esse aperto. Olhava para as pessoas no palco do teatro e pensava que deveria ter feito algo assim, teatro, música, que deveria ter pintado, mas não pintei. E aí veio esse momento em que eu pensei: por que não estou fazendo o que e queria? Problema você sempre vai ter na vida, então por que a gente não faz o que quer? É uma insatisfação que todo mundo, ou uma grande parcela das pessoas, tem um pouco.

 

MidiaNews – A senhora trabalhava com o que antes de decidir ser pintora?

 

Capucine Picicaroli – Nessa época eu era empresária, tinha uma clínica de estética e um setor comercial de representação de atacado. Eu sou muito boa na área comercial, fiz uma carreira de executiva na área comercial, já dei treinamento de atendimento, de telemarketing, de vendas, para mais de cinco mil pessoas. Em um período da minha vida fiz muito isso. Mas cansa você fazer aquilo que não era o que você queria realmente. Então decidi ingressar na pintura. Comecei do zero. E viver da arte no Brasil é complicado. Você fica com medo de abrir a geladeira e estar vazia, de jogar tudo para o ar e começar do zero. É um tiro no escuro, mas é muito legal quando você consegue fazer.

 

MidiaNews – Como foi esse processo de transição?

 

Capucine Picicaroli – Eu sou muito adaptável. O que foi diferente é que, enquanto executiva, eu tinha uma estrutura de vida. Tinha uma grana, trocava de carro todo ano. A partir do momento em que eu abri mão disso, que eu quis fazer o que eu queria, sabia que isso já não ia acontecer mais. Mas aí a minha filha já tinha crescido, as despesas maiores tinham acabado. Então eu fui colocando na balança que eu não poderia ter um carro zero todo ano, mas estaria feliz pintando. Não viajaria o tempo inteiro nem teria roupas tão boas, mas estaria feliz. Foi uma troca e essa coisa de a gente lutar mais bravamente por algo dá um ânimo novo para a  vida.

 

Muitas vezes a gente fica naquele marasmo, com a nossa carreirinha, com o 13º salário, férias, e a gente entra na zona de conforto. E através da arte eu conheci pessoas muito mais interessantes, eu viajei mais no sentido de ir em busca de arte, de conhecer o que estava sendo feito aqui no Brasil, do que estava sendo feito fora do Brasil. Olhando hoje, eu fui muito bem sucedida nessa troca, mesmo sem ter uma certeza constante. Hoje você ganha uma grana, amanhã você não ganha.

 

Capucine

 

 

MidiaNews – E como a senhora conseguiu ingressar e se estabelecer nesse mercado da arte?

 

Capucine Picicaroli - É muito complexo esse mercado da arte. Eu escolhi trabalhar com aquilo que eu gosto, que me chama a atenção. Então eu trabalho com a arte popular e figurativa, embora eu admire grandes artistas abstratos, mas é uma vertente que não me interessa. Sempre quando eu penso em arte, eu me emociono. Quando eu faço um trabalho, faço com sentimento.

 

MidiaNews – Quais são as suas referências? Em que a senhora se inspira?

 

Capucine Picicaroli – Eu sou geminiana, então gosto de falar sobre assuntos diversos. Se eu fosse falar de tudo o que eu queria, eu não conseguiria nem em cinco vidas. Mas eu decidi trabalhar em séries. Pego um determinado assunto e desenvolvo, pinto sobre aquilo. Aí tem uma hora que dá um basta. Eu fiz a série do México Imaginário, depois eu tenho a série das Marias, que são santas, aí tem a Estações, que é uma série sobre a mulher, sempre com figuras femininas nas estações do ano. Faço retrato pop art, que é uma coisa que as pessoas me pedem muito. Mas eu não sou retratista/realista, é uma ideia da pessoa, um trabalho mais desconstruído, e bastante colorido. Eu tenho a série dos Pássaros e outras coisas, que eu nem lancei ainda, que começa com pássaros, mas aí vem outros bichos, é uma bicharada. E agora estou fazendo sobre os Orixás, que é a Dança dos Orixás, o meu novo trabalho.

 

Nessa exposição, eu estou falando sobre a mitologia africana, não religiosamente falando, mas sobre a história, as características de cada um dos orixás. Desde pequena eu sempre fico muito impressionada. Tenho ido muito a Salvador fazer pesquisa, estou há um ano e meio estudando sobre isso, porque é muito complexo, é muito difícil você entrar no mérito de algumas coisas para trabalhar e também porque muita coisa já foi feita no Brasil, na África, no Mundo todo. Mas eu queria ter a minha versão, registrar a minha visão da mitologia africana. Eu escolhi 15 orixás dentro de um universo de mais de 200 para representá-los, mostrando a personalidade e a história de cada um.

 

MidiaNews – Há uma previsão de quando ficará pronto esse trabalho?

 

Capucine Picicaroli – A previsão é lançar em novembro. Eu gosto de fazer exposição uma vez por ano. Fui convidada para fazer uma exposição no Museu de Arte Moderna de Salvador e quero levar essa exposição dos Orixás para lá no ano que vem. Só que para montar uma exposição de arte com toda a estrutura que a gente trabalha, tem um custo alto. Então tenho que fazer planejamento, captação de patrocinadores.

 

MidiaNews – O poder público em Mato Grosso colabora nesse sentido?

 

Capucine Picicaroli - Felizmente a gente tem um mercado em Mato Grosso em que várias empresas valorizam a arte. Hoje a maior valorização da arte vem das empresas privadas, e não do Governo, sendo que deveria ser o contrário. A gente tem dificuldade com os órgãos públicos em Mato Grosso e sofre com isso. Isso é ruim, não só financeiramente falando. Promover o mercado de arte no Brasil é difícil. E em Mato Grosso não há interesse das instituições em fazer intercâmbio, levar um trabalho de um artista para outras regiões, coisas que são possíveis, pois vários Estados fazem isso. Mato Grosso está muito atrasado nesse sentido.

 

Nosso Governo ainda é muito cru nesse sentido. A gente vê que não foi feita muita coisa em Mato Grosso no sentido de arte, de prospecção da arte. Isso dificulta a vida dos artistas do teatro, da pintura, da música. Você não vê artista mato-grossense se destacando. A gente vê paraense, paulista, carioca, paranaense se destacando em vários segmentos da arte e em Mato Grosso ainda estamos estacionados. E aí, quando eu vou montar a exposição, além de ter que fazer todo o preparo, estudo, a gente tem que fazer captação de verba para poder montar uma exposição. Porque a gente precisa do público, mostrar o trabalho, senão a gente fica limitado ao público consumidor. Nem todo mundo pode comprar uma obra de arte, mas pode observar, visitar a exposição. O artista é vaidoso, quer ser visto, quer que crianças, adultos, visitem, comentem.  Você está pintando sobre uma coisa que quer mostrar. E é aí que o bicho pega.

Alair Ribeiro/MidiaNews

Capuccine Picicaroli

"Em Mato Grosso não há interesse das instituições em fazer intercâmbio, levar um trabalho de um artista para outras regiões, coisas que são possíveis, pois vários estados do Brasil fazem isso"

 

MidiaNews – A que se deve esse atraso de Mato Grosso no que tange à cultura, à valorização do artista?

 

Capucine Picicaroli – Eu acho que existe desinteresse mesmo, de só trabalhar isoladamente questões efêmeras. O gestor pensa: ‘Vou fazer um evento com um grupo ribeirinho, que vai apresentar uma dança’. Isso não é fomentar a cultura, isso é trazer um evento isolado, que vai ter um público. Representar a arte de Mato Grosso é levar além. E isso não tem sido feito. Não adianta pegar um cantor, um palanque, botá-lo no palco com uma iluminação. Ele canta e aí ‘tchau e benção’. Isso é uma solução efêmera, vai passar. Agora, pegar um artista, trabalhar o material dele, a parte visual, enviar isso para os museus, para o resto do Brasil e fazer esse trâmite que o artista não consegue fazer, é outra coisa. Porque a maioria dos artistas não tem talento pra essas coisas, nem tempo. O cara vai escrever a música, vai cantar, pintar. A Cultura em Mato Grosso é muito imatura, ela não amadureceu, ela não é consistente. As secretarias, esses órgãos que cuidam dessa parte, são imaturas, fazem trabalhos isolados, e não um trabalho que vai ter retorno a médio e longo prazos, que é o que mais precisa.

 

MidiaNews – A burocracia também não atrapalha?

 

Capucine Picicaroli -  Claro. Como que você vai pegar um artista que vive lá na casa dele, pintando, descabelado, e coloca para fazer edital com centenas de pré-requisitos? Ele não vai dar conta. Eu olho esses editais e penso: ‘Gente, não tem condições’. Algumas exigências absurdas, como propor um edital de R$ 50 mil e quem vencer tem que visitar seis cidades. Em que mundo ele vive para conseguir isso? Porque quando você vai levar a exposição a algum lugar, você não vai levar só o quadro na parede, tem que pagar transporte, hospedagem, alimentação. E o edital ainda exige obras inéditas. Esse artista vai ficar três, quatro meses produzindo para uma exposição, às vezes até um ano. Ele não pode vender porque tem que ser inédita. E enquanto isso ele vai comer o quê? Não faz o menor sentido. Acho que as coisas têm que ser bem pensadas e hoje não é difícil você pegar editais do Brasil todo e até do exterior e pegar como modelo. O que a gente não sabe, a gente aprende com os outros.

 

Por outro lado, tem coisas legais. A comunicação entre os artistas têm melhorado. A gente vê mais artista na rua, o que a gente não via. Porque sempre tem uma oscilação. Nos anos 80, 90, Cuiabá foi artisticamente bem ativa. De lá para cá deu uma desmoronada. A gente tem visto uma turma nova, um pessoal empenhado em fazer coisas novas. As pessoas estão curiosas, o público quer também, é receptivo a isso.

 

MidiaNews – Como a senhora analisa as atuais leis de incentivo à cultura?

 

Capucine Picicaroli – Essas leis foram criadas para incentivar os artistas que não têm recursos para bancar seu estudo, transporte. Acho fantástico. Agora, não funciona porque você vê artistas como Caetano Veloso, Maria Bethânia, Cláudia Leitte se beneficiando dessas leis de incentivo - e não precisam. E levando a maior fatia. Não estou criticando esses artistas, mas eu acho que eles se aproveitam de uma condição. O brasileiro tem essa mania de ver uma bocada e se aproveitar. Acho que eles estão errados, apesar de não ser um crime. É uma questão de ter bom senso e usar o benefício para as pessoas que precisam mais, como temos vários aqui em Mato Grosso, na Paraíba, no Brasil todo. Eu pego um trabalho como o meu, que já gastei antes de montar, então se o que eu arrecadar “zerar” a despesa, está ótimo. Só que isso não deixa a gente crescer.

 

Eu gostaria de fazer um trabalho grandioso. Tenho condições para isso, estudo para isso, mas não consigo, porque estou totalmente limitada. Gostaria de desenvolver esculturas fantásticas, telas incríveis de metros e metros, mas estou limitada. A gente sonha, mas é difícil. Eu estou com duas Rouanets aprovadas, mas não consegui patrocinador. Estou há dois anos nessa luta. Têm empresas com recolhimento absurdo de impostos. Não custa nada promover um artista, porque ele vai ser isento de imposto do que ele investir. E não acontece. E a gente fica em uma situação ruim. E não é porque você é um artista que tem que ficar implorando e batendo de porta em porta. O que estou oferecendo para a empresa é apoiar um projeto bacana, algo que ela é quem deveria se oferecer.

 

capucine tarde no parque

 

Acho que a lei de incentivo é bacana, funciona, mas não funciona para nós. Funciona para a grande maioria que não precisa, e isso é duro demais. Quando chega um Caetano Veloso na Petrobras, ninguém fala um ‘não’ para ele. Agora, vai a Capucine lá... A gente tem essa ideia muito errônea de celebridade e não do que a pessoa vale enquanto artista. Isso é até meio cafona. Mas espero que as coisas mudem, espero que seja melhor, porque há projetos incríveis. Eu fiz uma exposição de 28 artistas dentro do Shopping Goiabeiras com R$ 60 mil. Imagine se me derem R$ 1 milhão para investir em um super espetáculo, R$ 1 milhão rende muito na minha mão e dos artistas que são criativos. E a gente vê projetos de R$ 500 mil, R$ 1 milhão para trabalhos que não valem isso.

 

MidiaNews – A senhora já expôs em outros países também. Como foi a experiência?

 

Capucine Picicaroli -  A arte brasileira é muito bem recebida lá fora. Eu tenho muitos clientes na Europa, envio obras para lá. É muito receptivo. Eles gostam da arte brasileira e a vantagem disso é que a arte brasileira é uma arte nova, dessas cores, dessa exuberância toda. O artista europeu pinta cinza, azul marinho, branco. Porque você pinta o que você vive. A gente pode até tentar pintar a depressão aqui no Brasil, mas não tem como, até quem pinta depressão pinta colorido. É uma coisa engraçada, é uma característica da gente, e as pessoas gostam de colorido. Quando chega esse colorido todo, as pessoas gostam, se animam, ficam curiosas. É uma arte nova, você não vê tantos artistas brasileiros de pintura bombando no Mundo. Basta você inserir no mercado. Eu quis fazer essa linha de desenvolver o trabalho fora no Brasil, porque para mim é importante, porque quando eu pinto eu busco usar uma linguagem universal, que tanto a pessoa que mora em Cuiabá vai entender como quem mora no Japão, no México. É uma linguagem fixada no cotidiano, embora não seja dali.

 

Eu sempre insiro alguns itens da cuiabania, mas tudo muito assim fluído, nada preso a isso. Eu expus em Nova York duas vezes, expus em Paris, na Finlândia, no Museu Histórico do Rio de Janeiro, fiz bastantes Estados do Brasil. No meu caso específico, faço todo o trabalho, porque não consigo ter uma equipe terceirizada por causa dos custos. Eu produzo, eu pinto, escrevo, monto a exposição, desmonto. Eu, meu marido e minha filha fazemos todo este trabalho e é muito cansativo. Quando não estou pintando estou estudando, quando não estou estudando, estou escrevendo. Então é um trabalho diário e exaustivo. Mas a vantagem é que através disso consegui abrir muitos caminhos e as pessoas recebem muito bem o meu trabalho, tanto no Brasil quanto fora, inclusive no relacionamento com as galerias, com as pessoas, nos museus por onde eu passei. Procuro sempre manter esse relacionamento com as galerias, de amizade e entrando sempre em contato para ver o que está acontecendo, porque é muito importante esse trabalho de pesquisa, de saber o que acontece lá fora.

 

Eu estou indo para Paris agora a convite da Academia Francesa de Belas Artes, que vai fazer a Semana da Celebração da Arte Brasileira em Paris. Eu vou receber uma premiação pelo meu trabalho de conjunto da obra. A França recebe muito bem a arte brasileira, os artistas brasileiros, e isso é muito legal. Vou para lá em outubro. Como artistas brasileiros, nós temos uma responsabilidade muito bacana, temos um compromisso muito sério com a gente mesmo, que talvez veio da dificuldade de trabalhar no Brasil. Então a gente se compromete mesmo. O pintor brasileiro tem um compromisso muito grande com a obra dele, mais do que a gente vê nos outros países. Acho que é pela vontade de se firmar. A gente se apega na oportunidade que temos.

 

MidiaNews -  Existe ainda essa situação de só receber reconhecimento no Brasil após expor em outros países, especialmente Europa?

 

Capucine Picicaroli – Isso é muito complicado, porque não faz sentido. É cultural, a gente acha que o que bomba lá fora é bom. É o exemplo da [cantora] Anitta. Até seis meses atrás o pessoal meio que desdenhava. Aí ela lançou uma música que bombou internacionalmente e, de repente, já virou diva. Michel Teló também passou por isso, quando a música dele [Ai, Se Eu Te Pego] bombou internacionalmente, bombou aqui também. E assim por diante, temos inúmeros exemplos. E qual é o sentido disso? E hoje você encontra muitos artistas com obras de arte de qualidade a um custo tão acessível. Você ter arte em casa é tão fácil hoje. Não faz sentido nenhum uma pessoa não consumir arte. Às vezes você consumir o que não é arte é mais caro do que uma obra de arte. Você bota um sofá de R$ 30 mil na sala, mas um cartaz de R$ 100 na parede. Não faz sentido nenhum e acontece muito. Valor e preço são coisas diferentes. Não adianta ter muito dinheiro e nenhuma cultura, mas também é ruim ter muita cultura e nenhum dinheiro para consumir. E aí entra a necessidade do artista de montar a exposição, porque uma minoria vai comprar uma obra de arte, mas a gente quer que todo mundo veja. Você não pode ter, mas você pode ver. E aí geram as conversas, se a pessoa entendeu a sua proposta.

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Capuccine Picicaroli

"Acho que a lei de incentivo é bacana, funciona, mas não funciona para nós. Funciona para a grande maioria que não precisa, e isso é duro demais"

MidiaNews – Como a senhora falou: mesmo não podendo comprar, a maioria das pessoas pode ver, visitar as exposições, museus que, muitas vezes, têm entrada gratuita ou de baixo custo. Ainda assim, recentes pesquisas indicam que a maior parte da população não tem o costume de ir ao teatro, visitar museus, ler livros. Por que isso ocorre?

 

Capucine Picicaroli – Cuiabá tem cinco museus, que estão fechados, infelizmente. Mas eu conheço pessoas daqui que conhecem o Museu do Louvre, o Moma, mas nunca entraram em Museu de Cuiabá. Porque se acredita que o de fora tem valor. Quantas pessoas saem de Cuiabá para ir a São Paulo a trabalho, toda semana, e nunca entraram no Masp? O Masp fica na Avenida Paulista, é a coisa mais fácil do mundo, e ali tem obras mundiais, tem Picasso, grandes artistas brasileiros, uma infinidade de artistas. Mas isso está mudando. A nova geração está mais curiosa nesse sentido. Quando eu fiz uma exposição sobre os contos infantis, que tinha uma pegada lúdica, tive uma super lotação. Na noite de abertura, passaram mais de 800 pessoas. Isso é inédito em Cuiabá. Nós abrimos há dois meses a Art Shopping, que é uma exposição móvel, em que 28 artistas participaram. Ficou 30 dias em cartaz e teve 8 mil visitantes assinados, sendo que apenas 1/3 assina. A gente tem esse comprometimento de levar o melhor para o público, com iluminação de qualidade, ar-condicionado, conforto, estacionamento. E aí você consegue trazer as pessoas e elas se impressionam em conhecer o trabalho de tantos artistas. A gente está formando um novo público, é importante educar o público.

 

MidiaNews -  A senhora também trabalha por encomenda?

 

Capucine Picicaroli – Faço muito, e é o trabalho em que a gente mais sofre. Quando tem encomenda, é diferente de quando você pinta livremente. Eu normalmente levo o dobro do tempo. Se eu pinto uma obra em 10 dias, por encomenda eu demoro 20. Muitas vezes recebo encomendas porque a pessoa quer um tamanho específico ou algo que lembre uma situação da vida. Eu faço tudo, não tenho dificuldade, consigo captar tudo. Outro dia pintei um astronauta para um cliente. As limitações são muito poucas. E ainda assim, quando existem, eu dou um jeito de ultrapassá-las, porque a gente tem que se desafiar. Se eu não entendo sobre determinada demanda, eu vou estudar para aprender. Você pode ter talento, mas ninguém nasce pronto, você tem que aprimorar esse talento, em qualquer área.

 

MidiaNews -  Já se recusou a fazer alguma encomenda por não concordar com o tema proposto?

 

Capucine Picicaroli -  Não. Mas o que eu não pinto são dramas. Tudo que a gente pinta existe uma energia. Eu sei porque quando eu pinto eu estou passando uma energia para a tela. Eu não pinto quando eu não estou bem. Se eu estiver triste eu não pinto. Não pinto bebendo, se eu estiver de mau humor eu não pinto. A tela é um pedaço da gente. E isso vai para a casa das pessoas. Não pintaria nada como um demônio, um monstro. Talvez a morte sim, porque não vejo como uma coisa ruim, vejo mais como uma consequência de vida. Prefiro pintar coisas alegres, porque eu sou uma pessoa extrovertida. Se eu pintar coisas tristes não parece comigo. Mas ninguém nunca pediu. Agora que eu falei, talvez alguém vai pedir (risos).

 

MidiaNews – A senhora montou há pouco tempo também uma galeria em Cuiabá...

 

Capucine Picicaroli – Eu tenho a galeria no Goabeiras Shopping, que leva o meu nome. Quando a montei, era para trabalhar só as minhas obras. Mas hoje represento 20 e poucos artistas na galeria. Observei que havia poucas galerias em Cuiabá e uma dificuldade das pessoas em ir até o ateliê do artista, por causa da rotina do dia a dia mesmo. Já que eu abri a galeria, decidir abrir para os outros artistas também. Porque eu não tenho problema em relação a isso. Existe, obviamente, a rivalidade entre os artistas, como em todas as carreiras, e quem falar o contrário é mentiroso. Artista é super egocêntrico, mas eu consigo lidar muito bem com isso. Represento o meu trabalho, mas se o cliente disser que quer o trabalho do artista ‘x’, ok. Levo para a pessoa, faço a venda, pago o artista. É um mercado que necessita disso em Cuiabá. E aí a gente profissionalizou. A galeria está em constante aprendizado de atendimento, com artistas de São Paulo, do Rio de Janeiro, um artista francês. Está sempre em constante mudança.

 

capucine nossa senhora auxiliadora

 

 Esse ano vamos fazer uma exposição individual do Clovis Irigaray, agora em setembro. Gosto muito dele. Vai ser a primeira individual da galeria que não é minha. O mais importante é conseguir colocar no mercado as obras dos artistas e as pessoas entenderem que o consumo de arte é muito importante. Se o público não consome a arte, o artista tem que parar de pintar. E isso é um retrocesso, porque em toda a história da humanidade têm artistas, têm pinturas. Quando a gente vê artistas que estão parando de pintar para procurar outro emprego, é um retrocesso. Não é importante consumir a minha arte, mas qualquer arte. Quando você consome, você está patrocinando e incentivando o artista a continuar o trabalho dele. A gente precisa ter essa consciência.

 

MidiaNews - Já se sentiu desvalorizada em relação a clientes que não entendem todo o preparo, o trabalho e o estudo que justifica o preço de uma obra?

 

Capucine Picicaroli - No meu caso, não. As pessoas sabem que o meu valor de mercado é o mesmo valor, é único, tanto aqui, quanto em Paris, em qualquer lugar. Não dou desconto, é muito raro. Uma obra de arte nunca deprecia, ela só valoriza. Você compra essa cadeira por R$ 1 mil, quando você vai vender ela custa R$ 50. Uma obra de arte que você pagou R$ 1 mil, amanhã vale R$ 2 mil, daqui cinco anos vale R$ 3 mil. Quanto mais antiga, maior o valor. Tanto que os mafiosos, os políticos, lavam dinheiro com obra de arte, porque nunca se perde valor. Diamantes e obras de arte são eternos. O mundo inteiro consome a arte nos negócios, nunca dá prejuízo.

 

MidiaNews -  Muitas vezes vemos artistas aqui do Estado que têm potencial, talento e que acabam vendendo sua arte por um preço muito aquém do que deveriam. Isso é reflexo do mercado?

 

Capucine Picicaroli – Isso é reflexo de falta de preparo do artista. Eu penso que tudo tem limite. Se você tem um imóvel e o aluguel é R$ 10 mil, você não pode baixar para R$ 1 mil. Talvez consiga um meio termo. Acho que esse é o papel da galeria na vida da gente, na vida do artista. Quando eu trabalho fora, eu escolho a galeria com a qual vou trabalhar e mando minhas obras. Ela é minha representante, ela não pode vender meu trabalho abaixo do preço de mercado, senão ela vai estar me desvalorizando enquanto artista. E o mesmo para o artista. Quando o artista diminui o valor dele, está dizendo que o trabalho dele não está no mercado, que não é um bom investimento.

 

Não estou criticando ninguém, penso para mim. Já aconteceu de me dizerem: ‘Ah Capucine, eu achei caro’. Eu digo que não tem problema, é só não levar a obra. Por inúmeros fatores, eu tenho toda uma estrutura, pago agência de publicidade, tenho uma galeria no shopping que tem um custo alto, trabalho com tintas de boa qualidade. Viajo, faço pesquisas, compro livros, estou estudando um ano e meio para fazer uma exposição. Isso é um custo alto. Se eu diminuo o valor do meu trabalho, o que estou dizendo? Que tudo isso não tem valor nenhum.

 

MidiaNews – Hoje há muita polêmica em relação à arte classificada de contemporânea. Como vê isso?

 

Capucine Picicaroli - Eu estava na Semana de Arte de Paris e tinha uma exposição no Grand Palais. Tinha coisas super legais, descoladas, mas aí eu vi cinco tijolos como obra de arte. Custava três milhões de euros. Pra mim aquilo não é arte. Eu entendo que tem uma contextualização, o crítico, o curador escreve um texto maravilhoso para explicar aqueles cinco tijolos, um em cima do outro. Mas quando olho, eu penso que poderia ver isso no meu bairro – moro no Dom Aquino -, vejo muito tijolo empilhado. Eu então fui ler o texto. O cara tinha escrito um texto incrível. Mas se é para escrever um texto imenso para justificar os cinco tijolos, ele deveria escrever um livro e ser escritor e não artista plástico. Se você tem que explicar muito onde você quer chegar, você deixa de ser um artista para ser escritor.

 

Não digo que tenho razão, é uma imagem minha, mas o Museu do Louvre vive lotado, tem filas quilométricas. E é um museu que tem arte de vários séculos, de várias regiões do mundo, de várias culturas, e muita coisa figurativa. E hoje você entra em um museu de arte contemporânea, e vê que não é tão lotado, sempre está vazio, porque as pessoas querem ser inspiradas. Uma coisa é você ver uma obra figurativa, outra é ver uma tela branca com uma bola vermelha no meio. Pra mim isso é a bandeira do Japão. O cara vai lá, diz que pegou a tinta não sei da onde, faz um círculo de um lado, e custa três milhões porque está simbolizando o céu ou algo parecido.

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Capuccine Picicaroli

"Quando você se depara com algo que não te passa emoção nenhuma, que você não consegue entender, talvez é porque não dá para entender mesmo"

MidiaNews – Uma parte dos artistas defende que a arte, para ser considerada arte, precisa exigir algum tipo de técnica envolvida. Outra parte já relativiza tudo como sendo arte ou tendo potencial para ser arte. Qual é a sua visão sobre isso?

 

Capucine Picicaroli – Algumas coisas são difíceis de engolir. O cara pegar uma ferradura, um pedaço de pau e pregar na parede e dizer que é uma obra de arte, e volta de novo na versão do contexto para explicar que aquilo é uma visão moderna ou pós-pós-pós-pós-moderna. Mas continua sendo apenas uma ferradura pregada em um pedaço de pau. Eu tentei entender, estudei isso, mas na minha cabeça não entra. Mas existe um mercado para isso, da proposta que foge ao lugar comum, de criar uma ideia. Eu penso que aí já não é uma arte, pode ser uma expressão sobre determinado assunto, mas não necessariamente como arte. Eu fico impressionada em ver até aonde vai a concepção da arte contemporânea.

 

A gente sabe que se grandes galerias jogarem no mercado um trabalho e falarem que um controle remoto em cima de uma madeira é uma ‘super expressão’, isso tem peso. Porque não é a Capucine falando sobre a obra, é a maior galeria do Brasil falando. Os críticos de arte, os galeristas determinam também muita coisa, assim como as grandes editoras de livros, assim como as grandes marcas de roupas determinam a moda. A gente tem isso de seguir tendência, porque todo mundo quer estar na moda. Vejo muita coisa tendenciosa, porque há interesses.

 

Um grande curador, um grande galerista, ele quer vender o artista dele, mesmo que ali na frente tenha um outro com potencial, mas que não interessa para a galeria. Então ele vai depreciar esse outro artista porque ele tem que valorizar o que ele representa. Isso é muito comum.

 

MidiaNews – Essa relativização da arte também não acaba roubando o espaço de quem realmente tem talento? Porque a situação chegou ao ponto de, em várias ocasiões, frequentadores de museus esquecerem coisas como guarda-chuvas e canetas, e os objetos serem confundidos com obras de arte...

 

Capucine Picicaroli – Teve também o caso da exposição sobre resíduos recicláveis, em que teve a festa de lançamento da exposição, no ano passado. Quando acabou a festa, os garis entraram para limpar a festa. E eles cataram as obras de arte e jogaram no lixo (risos). Quando você vê uma arte, você sabe que é uma obra de arte. Temos que entender que há alguns limites. Nem tudo que é dito, é realmente aquilo. A gente tem que acreditar no sentimento, porque a obra de arte é uma mensagem, assim como o ator no teatro, o cantor, o escritor, o poeta. Todos os artistas estão passando uma informação. Quando você se depara com algo que não te passa emoção nenhuma, que você não consegue entender, talvez é porque não dá para entender mesmo. Não é que a gente está errado, que a gente é leigo, é que talvez aquilo ali não faça o menor sentido nem para mim nem para a grande maioria.




Clique aqui e faça seu comentário


5 Comentário(s).

COMENTE
Nome:
E-Mail:
Dados opcionais:
Comentário:
Marque "Não sou um robô:"
ATENÇÃO: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do MidiaNews. Comentários ofensivos, que violem a lei ou o direito de terceiros, serão vetados pelo moderador.

FECHAR

Maria Aparecida Gomes  07.08.17 15h18
parabens Capucine, a sua arte traz luz e beleza à vida!!!
6
0
Claudio Barreto  07.08.17 10h44
Falta critério na distribuição do bolo de verba cultural, geralmente só os chegados dos secretários, isso é ruim pra área e pra MT
9
0
Cleuza Dias  07.08.17 08h34
PARABENS EXCELENTE ENTREVISTA PRINCIPALMENTE NAS CRITICAS AO SISTEMA
11
0
Safiya Beatriz  07.08.17 03h33
Diva!! Capucine eh uma das mais brilhantes artistas que o Brasil possui.Orgulho de vc!!!
7
0
NÍCIA CUNHA  07.08.17 00h23
Moça sensível, inteligente, antenada. Parabéns. Desejo cada vez mais reconhecimento e sucessos.
7
0

PUBLICIDADE

PUBLICIDADE

1999-2017 MidiaNews - Credibilidade em Tempo Real - Tel.: (65) 3027-5770 - Todos os direitos reservados