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Entrevista da Semana / POLÍTICOS PRESOS
14.01.2017 | 20h28
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“Temos certeza que os órgãos de controle estão trabalhando”

Futuro procurador-geral de Justiça de Mato Grosso, Mauro Curvo diz que pretende reforçar o Gaeco

Marcus Mesquita/MidiaNews

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O promotor de Justiça Mauro Curvo, que em março deste ano assume a Procuradoria-Geral de Justiça (PGJ)

RAMON MONTEAGUDO E AIRTON MARQUES
DA REDAÇÃO

O promotor de Justiça Mauro Curvo, que assume o comando do Ministério Público Estadual a partir de março, faz uma análise positiva sobre o combate à corrupção e ao crime organizado em Mato Grosso.

 

Segundo ele, o fato de o ex-governador Silval Barbosa (PMDB) estar preso desde setembro de 2015 no Centro de Custódia da Capital (CCC), assim como outros agentes políticos que participaram de esquemas de corrupção no Estado, é a demonstração de que os órgãos de controle estão funcionando.

 

“Quando olhamos para a realidade atual, em que temos um ex-governador de Mato Grosso preso, ex-secretários também presos, e um ex-presidente da Assembleia que foi preso e hoje responde [a processos] solto, podemos ter a certeza de que os órgãos de controle estão trabalhando”, disse.

 

Quando olhamos para a realidade atual, em que temos um ex-governador de Mato Grosso preso, podemos ter a certeza de que os órgãos de controle estão trabalhando

Em entrevista exclusiva ao MidiaNews, Curvo, que tem 44 anos e é cuiabano, também falou sobre o problema dos atrasos de repasses do Poder Executivo ao MPE, o fortalecimento do Gaeco (Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado) e a necessidade de adequações no instituto da delação premiada.

 

“Como tudo nessa vida, o instituto de delação deve ser aprimorado. Situações como essa [do ex-secretário Pedro Nadaf comemorando a virada do ano no Rio de Janeiro] são um verdadeiro acinte à sociedade. É dar um soco na cara da população, sem luva de boxe”, afirmou.

 

Confira os principais trechos da entrevista:

 

MidiaNews – Existe um problema grave, que também envolve outros Poderes, que é a irregularidade nos repasses constitucionais por parte do Executivo. O Ministério Público Estadual teria, no mínimo, R$ 33 milhões a receber do Governo do Estado. No ano passado, foi firmado um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), que acabou não sendo cumprido. Qual é o posicionamento do senhor sobre isso?

 

Mauro Curvo – Foi feito um TAC, pois houve um atraso no repasse dos duodécimos. Nesse TAC foi colocado, se não me engano, o dia 30 de novembro para ser feito um repasse de metade daquilo que tinha ficado em atraso.

 

Neste TAC, estava subentendido que, de certa forma, nós receberíamos o valor no dia 30 de novembro, com o repasse do Auxílio Financeiro para Fomento às Exportações (FEX) por parte do Governo Federal, que viria no mesmo mês. No entanto, esse repasse do FEX não veio neste mês e só foi depositado no último dia útil do ano passado.

 

Com a entrada desse dinheiro, nós conseguimos receber metade daquilo que deveria ter sido pago em 30 de novembro – quase R$ 12 milhões - no apagar das luzes de 2016.

 

O que precisamos fazer agora é sentar, continuar conversando e repactuar o entendimento de como deve ser feito o pagamento daquela metade do que ficou para trás e o restante dos repasses.

 

Não tenho dúvida de que, com boa vontade e transparência – todos nós tendo acesso à realidade da arrecadação e das despesas –, temos condições de chegar a um denominador comum, em que a gente receba isso que nos é devido, mas ficou para trás, sem inviabilizar a prestação de políticas públicas por parte do Executivo estadual.

 

Esse equilíbrio será encontrado na conversa. A mesma conversa que levou a entabulação e a assinatura daquele TAC deve resolver o problema agora.

 

MidiaNews – O senhor não concorda que o MPE está muito compreensivo com esta situação, uma vez que o TAC não foi cumprido e o atraso nos repasses redundou em deficiências para o órgão? Em outra situação, facilmente vocês teriam tomado um “remédio” que seria o pedido de medida de segurança na Justiça.

 

Mauro Curvo – Será que essa seria a solução? Se entramos com um pedido de bloqueio de contas, esse dinheiro poderia ir para a Saúde, que já está ruim e ficaria sem esse recurso.

 

Marcus Mesquita/MidiaNews

Mauro Curvo

"A conversa levou a elaboração desse TAC. Temos que ser compreensivos, pois a realidade nos obriga a isso"

Acredito que ninguém pode, em qualquer discussão, logo de início, dizer que não irá se socorrer da Justiça. No entanto, o caminho de se judicializar as questões, e de se obter uma decisão judicial para resolver um problema, só pode ocorrer depois de esgotadas todas as conversas.

 

É preciso conversar antes. A conversa levou à elaboração desse TAC. Temos que ser compreensivos, pois a realidade nos obriga a isso.

 

Houve um problema que não é só do Estado de Mato Grosso, mas nacional. A crise é de todo o País. Há Estados que estão em uma situação financeira pior do que o nosso. As realidades são diferentes.

 

Em Mato Grosso não houve uma queda na arrecadação de recursos. Com a entrada do FEX no ano passado, o Estado recebeu recursos deste fundo duas vezes em um só ano – o de 2015 e o de 2016. Uma coisa que nunca aconteceu antes. Quando isso for contabilizado, pode ter certeza que nós iremos chegar ao entendimento de que o Estado arrecadou mais do que se esperava. Mas esse dinheiro – R$ 400 milhões – chegou meia hora antes de o ano acabar.

 

Isso dificulta o planejamento e a gestão. Dentro do próprio Estado, a realidade entre os órgãos e Poderes é diferente.

 

MidiaNews – Mas o senhor acha justo que servidores do MPE, promotores e procuradores sintam e, de certa maneira, sejam prejudicados por um problema que é do Executivo?

 

Mauro Curvo – Essa é uma excelente pergunta para iniciarmos o ano. Vamos ver qual será a resposta dada pela Assembleia Legislativa [referiu-se ao pedido de reajuste dos servidores do MPE, em 7,63%].

 

Quando fecharmos o ano de 2016, o gasto com a folha de pagamento será de 1,7% do total de despesas. Nós estamos bem abaixo do limite estabelecido pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), que é de 2%.

 

Isso é porque nós fazemos gestão. Nós falamos não. Existem várias demandas de contratação de servidores e assessores, por exemplo. Nós temos conversado com os nossos colegas e dito que, se for atender a todos, em pouco tempo nós estaremos com as contas estouradas.

 

Temos que estabelecer prioridades para atender aquilo que mais se precisa em um determinado momento.

 

Trabalhamos com economicidade, planejamento. Tudo o que se pode fazer para economizar, nós fazemos. Isso nos levou a uma situação em que em 2017, trabalhando com o mesmo repasse de 2016, nós temos condições de pagar a Revisão Geral Anual (RGA) para os nossos servidores – não para promotores e procuradores.

 

Será justo que o nosso servidor, que nos ajuda a ter uma gestão boa – posso dizer isso, pois nossas contas foram aprovadas, estamos abaixo de todos os índices prudenciais e geramos bons resultados para a sociedade – fique sem RGA por problema de outros Poderes do Estado?

 

Vamos esperar a resposta da Assembleia. Já encaminhamos o projeto de reajuste dos nossos servidores.

 

Não precisa vir R$ 1 a mais para esse reajuste, além do que já nos foi repassado em 2016.

 

Marcus Mesquita/MidiaNews

Mauro Curvo

"Já encaminhamos o projeto de reajuste dos nossos servidores"

MidiaNews – O atual procurador-geral de Justiça, Paulo Prado, já disse que por conta desses problemas financeiros do Estado, ele deixou de licitar promotorias em Várzea Grande, Rondonópolis e até um anexo na Procuradoria em Cuiabá. Ele também disse que deixou de nomear servidores e promotores – 40 que passaram em um concurso, mas não foram chamados. Como que fica essa questão?

 

Mauro Curvo – Nós esperamos conseguir realizar todas essas questões ainda nesse biênio. Esperamos nesses dois anos nomear mais alguns colegas, pois existe essa necessidade. Além de criar alguns cargos e projetar o Ministério Público para daqui cinco anos.

 

MidiaNews – O que o senhor vê como necessidade prioritária no Ministério Público?

 

Mauro Curvo – A nossa estrutura é muito boa, mas ela pode e precisa melhorar. Mas só dela já existir, para nós que vivemos em Mato Grosso, é um alento.

 

Nós temos ainda hoje Estados em que um promotor sozinho é a Promotoria. Essa, graças a Deus, não é uma realidade em Mato Grosso.

 

O promotor que está mais distante da Capital tem uma estrutura básica.

 

Nesse biênio, temos a intenção de evoluir. Com criatividade, economicidade, recebendo esse dinheiro que ficou para trás, e lançando a construção dessas sedes de Várzea Grande e Rondonópolis.

 

MidiaNews – Na última semana, o senhor afirmou que pretende fortalecer o Gaeco, principal responsável pela atuação da instituição no combate à corrupção. A falta de repasses pode acabar atrapalhando este fortalecimento?

 

Mauro Curvo – Nós não podemos deixar que isso ocorra. Vejo que, para Mato Grosso, nós devemos ter duas prioridades muito nítidas: o combate à corrupção e a questão da Saúde.

 

Nós vamos fortalecer o combate à corrupção levando mais gente para trabalhar no Gaeco. Hoje são quatro promotores. Nossa ideia é levar, pelo menos, mais um.

 

Nós vamos fortalecer o combate à corrupção levando mais gente para trabalhar no Gaeco

Além disso, devemos conversar com a Polícia Civil para trazer um terceiro delegado.

 

E não só aumentar o número de pessoas, mas também trabalhar com a melhoria da tecnologia nas investigações. Não que nossa tecnologia esteja defasada, mas precisamos de investimentos.

 

Levando mais pessoas e melhorando a tecnologia no Gaeco, nós teremos resultados melhores do que os grandes resultados que nós já estamos colhendo.

 

MidiaNews – Qual a analise que o senhor faz da corrupção e dos crimes de colarinho branco, uma vez que nos últimos anos, nós vimos uma série de desbaratamentos de organizações criminosas?

 

Mauro Curvo – Infelizmente a corrupção é algo que existe desde quando o Mundo é Mundo. O que temos a fazer é combatê-la com o máximo de rigor e eficiência possíveis.

 

Para mostrarmos às pessoas que se locupletar em prejuízo do cofre público não será bom para elas.

 

Temos que mostrar que, por maior que seja o benefício, o custo será grande: irá perder sua liberdade, terá seus bens apreendidos e outras punições.

 

Para desestimular esse tipo de conduta, é preciso fortalecer os instrumentos de controle. Fortalecer as promotorias de Patrimônio Público e o Gaeco.

 

Além de ir as escolas e tentar fazer com que, no futuro, nós tenhamos pessoas em cargos públicos que não pensem nisso: em se locupletar com dinheiro da população.

 

MidiaNews – Talvez nunca tenha acontecido tanto em Mato Grosso, como nos últimos anos, de as pessoas serem penalizadas. Qual sua avaliação das investigações que são feitas pelo MPE?

 

Mauro Curvo – Olhando para o conjunto de ações, acredito que as investigações estão satisfatórias. Quando olhamos para a realidade atual, em que temos um ex-governador de Mato Grosso preso, ex-secretários também presos, e um ex-presidente da Assembleia que foi preso e hoje responde [a processos] solto, podemos ter a certeza de que os órgãos de controle estão trabalhando.

 

MidiaNews – Falando nestas investigações, quem o senhor pretende nomear para coordenar o Gaeco, no lugar do promotor Marco Aurélio?

 

Mauro Curvo – Um dos promotores que já estão no Gaeco. A ideia é que a gente mantenha o trabalho que já vem sendo feito. Por uma questão pontual, por conta de o promotor Marco Aurélio decidir que quer se dedicar a um mestrado, ele demonstrou esse desejo de deixar a função.

 

Nós temos que encontrar alguém para coordenar. Essa pessoa deve ser alguém que já esteja lá para não atrapalhar as investigações que estão sendo feitas.

 

Marcus Mesquita/MidiaNews

Mauro Curvo

"Incomoda não só o MPE, como também deve incomodar a sociedade, pois justiça tardia é justiça desqualificada"

MidiaNews – Ainda neste sentido de combate à corrupção, nesta semana nós tivemos uma decisão do juiz Luis Bortolussi – em relação ao afastamento do conselheiro do TCE-MT, Sérgio Ricardo - dois anos depois da proposição feita pelo MPE. Essa morosidade nas decisões judiciais ou na punição efetiva incomoda o órgão?

 

Mauro Curvo – Incomoda não só o MPE, como também deve incomodar a sociedade, pois justiça tardia é justiça desqualificada.

 

O ideal é que a resposta seja dada na maior proximidade possível da prática do fato. No entanto, isso exige um investimento maior na Justiça. Um maior investimento na tecnologia e em meios, para fazer com que a Justiça seja mais rápida.

 

MidiaNews – Nestes últimos anos, nós observamos um alto número de agentes políticos e empresários presos nestas operações em Mato Grosso. No entanto, há casos em que as prisões preventivas já ultrapassam um ano – como a do ex-governador Silval Barbosa (PMDB). Alguns advogados criminalistas falam que isso seria um excesso.

 

Mauro Curvo – Não acredito que haja excessos. Quem sente esses excessos é quem vai ao posto de saúde e não tem atendimento médico, assim como quem vai à escola e o prédio está sucateado.

 

Quem causou essas mazelas - é da regra do jogo - que pague por isso. Não podemos afrouxar a regra do jogo e dizer: “Mas ele é uma pessoa tão boa, e não representa perigo a sociedade. Então, pode ficar soltou desfrutando do patrimônio amealhado em prejuízo da sociedade”.

 

Em minha opinião, isso é um descalabro. A regra geral seria responder preso pelos crimes de corrupção – desde que tenha elementos de prova que demonstre a participação de alguém.

 

MidiaNews – Mas isso não seria uma punição antecipada?

 

Mauro Curvo – Não diria isso. Havendo elementos de prova que apontem, deve-se “recolher” o cidadão. Por que um bandido que rouba à mão armada pode ficar preso, mas um que rouba um Estado inteiro não vai para a cadeia?

 

O que deveríamos questionar é por que quem cometeu esses crimes não foram presos antes?

 

Talvez isso crie um estranhamento, por ser uma medida recente.

 

MidiaNews – É inegável que o instituto da delação premiada significou um avanço no combate à corrupção. Mas, por outro lado, também fica uma sensação de injustiça, pois o que a população entende é que a pessoa rouba milhões, faz uma delação, devolve uma parte mínima e vai “curtir” a vida – como se viu no caso do ex-secretário Pedro Nadaf, que passou a virada do ano em Copacabana (RJ). Não há alguma coisa de errado nisso?

 

Mauro Curvo – Como tudo nessa vida, o instituto de delação deve ser aprimorado. Situações como essa [o caso de Pedro Nadaf] são um verdadeiro acinte à sociedade. É dar um soco na cara da população, sem luva de boxe.

 

Mas também temos que entender que se não fosse pelo fato dessas pessoas terem contado o que sabem, não conseguiríamos apreender patrimônios e chegar a outras pessoas envolvidas nesses crimes.

 

Para combatermos isso, nós temos que ter uma evolução nos organismos de controle e investigação. Temos que ter mais tecnologia e pessoal

Para saber de tudo como os crimes aconteceram, só quem pode contar são as pessoas que participaram de tais esquemas. Para apontar alguns elementos de prova, só quem participou do crime.

 

O grande problema é encontrar um equilíbrio nessa questão. Caso contrário, daqui a pouco irá parecer que o melhor negócio do mundo é participar do saque aos cofres públicos e, na primeira oportunidade, fazer uma delação premiada e gozar a vida.

 

MidiaNews – No ano passado, o Gaeco apontou que o delator da Operação Ventríloquo, o advogado Joaquim Mielli de Carmargo, teria acobertado a participação de outros autores nos crimes na Assembleia Legislativa. Como o senhor vê essa situação?

 

Mauro Curvo – Para combatermos isso, nós temos que ter uma evolução nos organismos de controle e investigação. Temos que ter mais tecnologia e pessoal.

 

As pessoas precisam saber que o crime não compensa. Enquanto houver dúvida de que o crime contra o cofre público pode compensar ou não, haverá pessoas que continuarão praticando as irregularidades.

 

Isso só vai diminuir quando tiverem a certeza da punição. A colaboração premiada é um mecanismo novo. Então, situações como essas vão continuar surgindo.

 

MidiaNews – Como o senhor vê esse movimento no Congresso Nacional em tentar aprovar leis que punam promotores e magistrados pelo crime de responsabilidade e abuso de poder?

 

Mauro Curvo – Enxergo que seja quase como a lei da física, de ação e reação. Pessoas que, até pouco tempo atrás, se julgavam inalcançáveis pela Justiça passaram a ver que não são tão inalcançáveis assim.

 

A partir disso, surge aquele “espírito de corpo”, no qual se pensa que a melhor defesa é o ataque. Começam a partir para cima daqueles que os estão investigando e julgando.

 

O que noto é que, como uma retaliação, aproveitou-se de uma situação trágica – que foi a queda do avião com a delegação da Chapecoense -, para, na calada da noite, pegarem um projeto que visava melhorar e dar mais eficiência ao combate à corrupção [10 medidas de combate a corrupção] e partir para cima de quem está combatendo este ato ilícito.

 

É uma coisa de ir para os anais da história da sociedade.

 

MidiaNews – O Ministério Público, em âmbito nacional, está mobilizado contra isso?

 

Mauro Curvo – Sim, não só o MPE, mas foi a mobilização da sociedade, em apoio à instituição, que evitou o sucesso desse projeto.

 

MidiaNews – O senhor vê movimento parecido de retaliação ao trabalho do MPE e da Justiça no Estado de Mato Grosso?

 

Mauro Curvo – Não vejo isso. O que vi foi esse desvirtuamento das 10 medidas de combate a corrupção no cenário nacional.

 

MidiaNews – Em Mato Grosso, a Assembleia Legislativa ainda investiga a emissão das cartas de crédito feita a 47 membros do Ministério Público Estadual [promotores e procuradores de Justiça], por meio de uma Comissão Parlamentar de Inquérito. Com está esta questão?

 

Mauro Curvo – Eu conheço a parte interna dessa situação, pois estava aqui quando essas cartas de crédito foram emitidas.

 

Na época, a legislação do Estado permitia que o servidor convertesse isso em uma carta de crédito e negociasse no mercado

A lisura quanto à emissão das cartas de crédito foi total, como é de praxe no Ministério Público Estadual.

 

Como isso chegou a Assembleia e o que os deputados estão apurando eu não sei. Podem falar o que for, mas os fatos são um só.

 

MidiaNews – Os promotores que optaram por negociar essas cartas não têm nada a temer?

 

Mauro Curvo – Absolutamente nada. Esses valores recebidos pelas cartas de crédito são frutos de férias. Quando entrei no MPE, fiquei alguns anos sem poder receber férias, pois não tinha alguém que me substituísse.

 

Então, acumulou-se um número de férias que não consegui tirar. Isso ocorreu com vários membros do MPE.

 

Na época, a legislação do Estado permitia que o servidor convertesse isso em uma carta de crédito e negociasse no mercado. E foi feito.

 

MidiaNews – O que levantou a desconfiança foi que o então secretário de Estado de Fazenda Eder Moraes indicou a solução e, inclusive, a antiga Rede Cemat para fazer essa compensação. Além disso, segundo dizem, em patamares muito diferentes do mercado, em algumas situações.

 

Mauro Curvo – Nessa situação, o desconto foi de 25%, ainda parcelado em até doze vezes.

 

No início da negociação, imaginava-se que poucos promotores iriam ter o interesse de fazer a negociação com a Cemat. Então, a proposta foi de um deságio de 10%. Quando a demanda de pessoas interessadas aumentou, falaram que essa proposta não poderia continuar, então se passou para a o deságio de 25%.

 

Com isso, ficou a situação de alguns terem conseguido um desconto menor e outros maior.

 

Essa negociação foi vista pela primeira vez no julgamento das contas do MPE, no ano em que as cartas foram expedidas. Na época se comprovou que estava tudo regular.

 

Marcus Mesquita/MidiaNews

Mauro Curvo

"Foi pelo combate a corrupção que ele chegou ao Senado da República, e depois ao Governo do Estado"

Além disso, essa questão também foi analisada em outra situação, quando o Tribunal de Contas do Estado (TCE-MT) veio apurar exatamente a emissão das cartas de crédito. Então, se existe alguma coisa bem investigada, é a emissão dessas cartas.

 

Confio que essa investigação vem sendo feita com seriedade. Essa investigação não tem como chegar a um resultado diferente daquilo que o TCE-MT já viu duas vezes.

 

Não diria que não fizeram nada, mas que não encontraram nada, pois não há o que encontrar.

 

MidiaNews – O senhor acredita que esse episódio envolvendo essas cartas de crédito não maculou a imagem do MPE?

 

Mauro Curvo – Nem tudo em nossa vida são flores, pois nós passamos por percalços. A vida parece uma gangorra, onde você sobe e depois desce. Esse deve ter sido um dos vieses de baixa que nós passamos, mas que foi bem esclarecido.

 

MidiaNews – A postura do governador Pedro Taques (PSDB) – reconhecido pelo seu trabalho ao combate a corrupção e crime organizado – significou um avanço em relação a inibição de práticas corruptas no Executivo?

 

Mauro Curvo – Acredito que sim. Até porque, o compromisso de vida do nosso governador foi de combate à corrupção.

 

Foi pelo combate à corrupção que ele chegou ao Senado da República e depois ao Governo do Estado. Não tenho dúvida de que a chegada dele ao Palácio Paiaguás foi um avanço muito grande.

 

MidiaNews – Apesar disso, houve um escândalo de corrupção em seu Governo. O MPE está no meio de uma investigação que, segundo se fala nos bastidores, pode chegar até o governador por conta de um suposto “caixa dois” em sua campanha de 2014.

 

Mauro Curvo – Em relação a essa operação específica, não sei dar muitos detalhes, pois não participei da apuração. Não sei dizer se chega ou não ao governador.

 

O que posso dizer é que, na esfera de nossas atribuições, nós faremos tudo o que se pode fazer para investigar este fato.

 

MidiaNews – O senhor foi o mais votado pela categoria na eleição realizada em dezembro passado. No entanto, há uma lista tríplice e o governador Pedro Taques tem a prerrogativa de escolher qualquer um desses nomes. Em algum momento o senhor teve algum receio de não ser escolhido?

 

Maro Curvo – Não. O governante tem a sensibilidade de identificar que quem deve saber aquilo que é melhor para a instituição é quem está dentro da instituição, vivenciado a realidade.

 

Na medida em que os membros da instituição entenderam que o MPE deveria ser chefiada por mim, não tem muito sentido ser preterido, sem que haja um motivo muito forte. Nunca enxerguei qual seria o motivo de, de repente, ganhar a eleição e ser preterido.

 

Ainda mais com um governador que é egresso do Ministério Público.

 

Este cenário me deu total confiança de que quem ganhasse as eleições seria nomeado. Caso não tivesse essa segurança, nem candidato seria.

 

MidiaNews - Por fim, qual a mensagem o senhor pode deixar à população sobre sua gestão, que começa em março?

 

Mauro Curvo – A mensagem que quero deixar é a de que irei tentar retribuir com trabalho e prestação de serviço à comunidade a honra que tive em ser agraciado com os votos dos colegas e nomeado pelo governador.

 

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2 Comentário(s).

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Marcos Souza De Barros  15.01.17 10h31
Pabbéns Mauro! Na condição de cidadão comum deste Estado, tenho a lhe dizer que a sua vida é maior demonstração do equilíbrio do ser humano. Sua humildade se percebe em sua transpiração e passos seguidos em sua profissão . A sociedade foi abençoada com a vossa escolha para dirigir o MP, pois, és preparado para o desempenho desse mister. A minha felicidade na condição de advogado militante neste e em outros Estados da Federação é muito grade com a sus assunção. Felicidades.
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alexandre  15.01.17 08h55
Trabalhando em defender o governo, e não à sociedade, onde estavam nos últimos 8 anos ? nas obras dá copa, o controle a posterior, só atua depois dá casa arrombada.
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