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Entrevista da Semana / PENSAMENTO CONSERVADOR
11.03.2017 | 20h13
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“Servidor é casta privilegiada; sindicalista inveja o capitalista”

Advogado e professor defende maior eficiência do Estado e fim de "privilégios" no Poder Público

Marcus Mesquita/MidiaNews

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O professor e advogado Fernando Henrique Leitão: críticas aos políticos, servidores e UFMT

DOUGLAS TRIELLI
DA REDAÇÃO

Um dos líderes do Instituto Caminho da Liberdade, grupo de cerca de 50 pessoas que difunde ideias liberais e conservadoras em Mato Grosso, o professor e advogado Fernando Henrique Leitão cobra uma redução do Estado, de modo a combater a corrupção, e o fim do que chama de "privilégios" a servidores públicos e agentes políticos.

 

Segundo Leitão, em meio à crise econômica, é preciso cortar todos os benefícios, entre eles os aumentos e reajustes salarias dos servidores do Estado. Leitão classificou o funcionalismo público de “casta abençoada e privilegiada”.

 

“Por que uma casta abençoada, privilegiada, que vive do dinheiro do trabalhador de imposto, tem que ter aumento? Se passou no concurso, ótimo. O servidor público é necessário para o funcionamento do Estado. Mas temos que usar esse dinheiro com parcimônia, não existe dinheiro sobrando”, disse em entrevista ao MidiaNews.

 

O professor criticou ainda a influência ideológica nas universidades do País, entre elas a UFMT. Segundo ele, as instituições estão “empesteadas” de um pensamento “arbitrário” e “totalitário” implantado pela esquerda.

 

O liberalismo econômico defende, entre outros temas, a propriedade privada, o livre mercado, a mínima participação do Estado na economia e a igualdade perante a lei. Já o conservadorismo político é a favor da continuidade e a estabilidade das instituições, opondo-se a movimentos revolucionários e progressistas.

 

Confira os principais trechos da entrevista:

 

Marcus Mesquita Imagens

Fernando Henrique Cesar Leitão

"Por que uma casta abençoada, privilegiada, que vive do dinheiro do trabalhador que paga imposto, tem que ter aumento?"

MidiaNews – O governador Pedro Taques vai enviar para a Assembleia Legislativa um projeto congelando salários dos servidores pelos próximos dois anos. Como vê essa medida?

 

Fernando Henrique Leitão – Não existe dinheiro público, existe dinheiro dos pagadores de impostos. Temos um Estado grande e ineficiente, não adianta pôr mais gente. Não adianta colocar mais carvão na locomotiva fora dos trilhos. Mato Grosso, como o Brasil, tem errado em aumentar o tamanho do Estado e não melhorar sua eficiência. Tem errado em precisar de cada vez mais pessoas e conseguir menos resultados. A questão é óbvia – e muitos servidores ficaram e vão ficar chateados comigo -, mas toda iniciativa privada está cortando gastos, diminuindo salários, cortando na carne. Por que uma casta abençoada, privilegiada, que vive do dinheiro do trabalhador que paga imposto, tem que ter aumento? Se passou no concurso, ótimo. O servidor público é necessário para o funcionamento do Estado. Mas temos que usar esse dinheiro com parcimônia, não existe dinheiro sobrando. Se está gastando mais do que entra, evidente que não pode ter aumento. Claro, para uma Capital em que 30% dos habitantes têm alguma relação com o funcionalismo público, é um ultraje o que estou dizendo. Mas é um remédio amargo. Querem sair da crise aumentando o tamanho do Estado.

 

MidiaNews – Mas no ano passado o Governo não pagou a integralidade da RGA (Revisão Geral Anual).

 

Fernando Henrique Leitão – Entendo que não deveria ter concedido nada. Está na lei? Mas também está na lei que não se pode descumprir Lei de Responsabilidade Fiscal. O que acredito é que faltou tenacidade ao Governo. Poderia ter sido mais duro. Mas, ao mesmo tempo, isso é criar um problema político. E vimos o resultado da eleição na Capital, que foi fortemente influenciada pela questão da RGA. A gente vê o poder político da questão.

 

E eu chamo de casta só para separar dos meros mortais, porque nosso salário varia de acordo com o mercado, mas o funcionalismo público não. Basta ver por que as boas cabeças preferem ir para o funcionalismo público ao invés da iniciativa privada.

 

MidiaNews – Os sindicatos já falam em greve com a possibilidade de não ter a RGA este ano e o congelamento de salários.

 

Faltou tenacidade ao Governo. Poderia ter sido mais duro. Mas, ao mesmo tempo, isso é criar um problema político

Fernando Henrique Leitão – É sindicato. Você matou a charada. O sindicalista não é nada mais que um invejoso do capitalista, porque vive dos lucros de quem produz. Ele não faz nada. Falar que isso é direito... Se quisesse realmente direito, ia lutar pela eficiência, ia lutar pela diminuição da carga tributária, pela diminuição do Estado. Mas eles não lutam por nada disso. Lutam por direitos. Nós vivemos a geração dos direitos, a geração dos quereres, sem deveres. Mas assim o Estado quebra e quebra todo mundo, inclusive quem está exigindo tudo isso. Agora, não sou político, não sei como lidar com isso. Minha posição pessoal é pelo endurecimento. Vai ter greve? Voltamos aos anos de Margaret Thatcher [ex-primeira ministra da Inglaterra]. Ela entrou e falou: “Se formos do jeito que estamos indo, vamos quebrar”. À época, toda a Europa quebrou. Portugal quebrou, Espanha quebrou, Itália quebrou, França quebrou. A Inglaterra era onde havia o maior número de sindicatos, mas ela peitou as greves e, se não fosse isso, a Inglaterra estaria quebrada.

 

MidiaNews – Com relação aos cortes que o governador Pedro Taques está propondo, como congelamento de salários, de duodécimo dos Poderes, acredita que este é o caminho?

 

Fernando Henrique Leitão – É uma etapa. Não adianta reduzir o salário do servidor e não melhorar o processo interno dos órgãos. Não gastar mais do que ganha é o mínimo. Você não vai ter um governo superavitário nunca ou quase nunca, justamente porque abrem as burras que não são deles. Então, não basta reduzir salário do servidor, mesmo que isso até sirva um dia para mudar a mentalidade e as pessoas deixarem de ir para o serviço público por dinheiro e irem por vocação. Esta redução é uma parte do que é necessário para aumentar a eficiência e reduzir o Estado como um todo.

 

MidiaNews – E o que mais é preciso fazer?

 

Fernando Henrique Leitão – Precisamos reduzir as normas, reduzir o papel do Estado, o que o Estado deve fornecer. É preciso passar por uma rediscussão de qual o papel da União, Estados e Municípios. O que eles devem fazer minimamente. O problema é que no Brasil é sempre o que mais o Estado pode fazer por você.

 

Marcus Mesquita Imagens

Fernando Henrique Cesar Leitão

"O sindicalista não é nada mais que um invejoso do capitalista, porque vive dos lucros de quem produz. Ele não faz nada"

MidiaNews – Um liberal defende o Estado longe da vida do cidadão, um Estado mínimo. Mas no Brasil em geral, e em Mato Grosso ainda mais, existe uma dependência enorme em relação ao Estado. Por que isso ocorre?

 

Fernando Henrique Leitão – Há uma sensação de dependência que o cidadão tem do Estado. O que o Estado faz e tem feito, seja a Prefeitura, o Governo do Estado e Federal, há décadas, é atrapalhar a vida do cidadão, atrapalhar o empreendedor, dizer como ele deve viver. Cerca de 40% da nossa renda anual vai para imposto. É um dinheiro que não vem para mim e que burocratas em Brasília passam a aplicar conforme eles julgam digno. Mas o Estado é que depende do povo, não o contrário. Essa inversão é que o brasileiro precisa se conscientizar e exigir a redução do Estado. O brasileiro não pode mais ter essa impressão de que o Estado vai resolver tudo. Isso vem se maximizando desde a República, quando o Estado decidiu interferir na vida do ser humano. Hoje, o Estado está em todos os setores e dizendo: “Se não sou eu, o que seria de você?”. O Estado quebra sua perna, te dá uma cadeira de rodas, te cobra por ela e ainda faz com que você agradeça. É um absurdo. O que tem que mudar é a falsa sensação de dependência que a população tem do Estado. A gente passa algumas necessidades econômicas justamente por conta da interferência estatal. É preciso obrigar o Estado a ser mínimo, ser eficiente para as coisas mínimas necessárias.

 

MidiaNews – O prefeito de Cuiabá Emanuel Pinheiro se elegeu com um discurso muito claro de que vai atender a pauta do servidor público em relação a salário. Como o senhor avalia essa plataforma de governo?

 

Fernando Henrique Leitão – Eu não saberia que nós temos prefeito em Cuiabá, não fosse pela proibição do Uber e pelas câmeras que instalaram na cidade, que poderiam ser usadas para evitar roubo e proteger o cidadão, mas são empregadas para multar. Isso evidência o papel do prefeito de Cuiabá enquanto isso. O problema não é só o discurso, é a prática. O que o prefeito fez em três meses? Até agora não vi.

 

E o discurso é perigoso: eleger-se para um grupo. Você não pode se eleger para preto, branco, gay, hétero. Tem que se eleger para toda a população. É óbvio que a maioria ganha e vota de acordo com seus interesses pessoais, mas se o que ele [Emanuel] fez em campanha já era ruim, na prática tem sido muito pior.

 

Marcus Mesquita Imagens

Fernando Henrique Cesar Leitão

"Nós vivemos a geração dos direitos, a geração dos quereres, sem deveres"

MidiaNews – Então começou mal?

 

Fernando Henrique Leitão – Não começou. O Emanuel não começou. Ninguém tem que se vangloriar de retomar obra, tapar buraco na cidade. Isso é o mínimo. O que ele fez de diferente, foi para o negativo.

 

MidiaNews – Temos em Mato Grosso uma Assembleia que custa meio bilhão por ano. Em Cuiabá, a Câmara consome pouco mais de R$ 100 milhões. Acha que haverá progresso enquanto tanto dinheiro estiver sustentando a burocracia estatal?

 

Fernando Henrique Leitão – É difícil. Basta ver quanto eles recebem. Eu defendo que todas as funções devam ser remuneradas dignamente, mas desperdício de dinheiro é diferente. Tem que se lembrar do sentido original da palavra "servidor público", que é para servir e não para se servir. Os gastos das casas legislativas são fora do padrão. O gasto do Estado também, os salários são absurdos. Acho muito difícil, com os gastos nesses patamares, conseguir progresso. O mais importante é saber se as pessoas que se locupletam ou se enriquecem, que vivem disso, vão querer mudar? Acredito que não.

 

MidiaNews – Temos um ex-presidente da Assembleia Legislativa, que foi preso e responde a inúmeros processos, e um ex-governador que está preso há mais de um ano e meio. Como um liberal, acredita que o tamanho do Estado favorece à corrupção?

 

Fernando Henrique Leitão – Todo mundo diz que a razão da corrupção é ética, é má-índole, etc. Mas a razão da corrupção é o poder do Estado. Enquanto o Estado for grande, haverá corrupção. Isso é inequívoco. Quanto maior o Estado, maior a tendência à corrupção. Como resolver isso? Eu concordo que há um pouco de mentalidade, mas quanto maior a intervenção do Estado na vida do privado, mais alguém vai querer escapar daquilo. Quanto mais poder, mais poder vão querer comprar dele. E, se não tem poder, não tem como ser corrompido. Não vou entrar em mérito sociológico, antropológico, criminológico. A questão é simples: se quer diminuir a corrupção, diminua o poder na mão do Estado.

 

O Estado quebra sua perna, te dá uma cadeira de rodas, te cobra por ela e ainda faz com que você agradeça. É um absurdo

MidiaNews – Pelo cenário que temos hoje, é possível diminuir o tamanho do Estado e, consequentemente, a corrupção?

 

Fernando Henrique Leitão – Acredito que faça parte do amadurecimento do brasileiro. Precisamos nos informar, nos formar, precisamos deixar de achar que o Estado nos deve fazer tudo. E isso significa tirar os chupins das Assembleias, Câmaras, Prefeituras. Quando falo chupins, é sobre políticos eleitos enquanto pessoas que vivem disso, enquanto pessoas parasitárias do sistema. Agora, o que fazer? Acabar com a reeleição? Um mandato? São coisas que ajudariam. O problema é que o poder de organização da população comum é muito baixo. A esquerda é muito organizada. Estão aí os sindicatos, os grupos, as juventudes partidárias. Mas o cidadão comum não é organizado.

 

MidiaNews – O senhor enxerga os políticos como “parasitários do sistema”?

 

Fernando Henrique Leitão – Alguns são, mas não todos. A profissão "político" não deveria existir. É melhor estar político. O político partidário que vive só para se eleger, não tem uma profissão, não tem um objetivo de vida que não seja se reeleger e aumentar sua base com os favores estatais... este é um parasita.

 

MidiaNews – O PIB [Produto Interno bruto] do Brasil teve um tombo de 3,6% em 2016 depois de ter caído 3,8% em 2015. De quem é a culpa por esse desastre?

 

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Fernando Henrique Cesar Leitão

"O mais importante é saber se as pessoas que se locupletam ou se enriquecem, que vivem disso, vão querer mudar?"

Fernando Henrique Leitão – A Dilma foi o desastre, ninguém tem dúvida disso. Mas a retração da economia passa por vários fatores, entre os quais o gigantismo estatal, a arrecadação de impostos e a incerteza de como vai ser o dia de amanhã. Veja, por exemplo, a falsa redução do valor da luz [anunciada pela ex-presidente em 2013], uma política parasitária para conseguir votos, maquiar contas. Mas quando chegou a realidade, viu que não era bem isso. Acredito que a má condução da macroeconomia foi causa principal da recessão. E isso, na mão da Dilma e do PT e do pensamento mais do que de esquerda, maximizou e ajudou a travar ainda mais.

 

MidiaNews – Mas o senhor não vê nada de positivo nos governos Lula e Dilma?

 

Fernando Henrique Leitão – O fato de ter acabado.

 

MidiaNews – Um dos objetivos do Instituto Caminho da Liberdade é reviver a memória do cuiabano Roberto Campos, diplomata e senador que foi um dos principais nomes do liberalismo econômico brasileiro. Por que não há nenhuma grande avenida ou obra com o nome dele em Cuiabá?

 

Fernando Henrique Leitão – Porque ele foi extirpado da cultura nacional. Temos nomes de vários políticos em obras, mas dele não. Ele caiu em um processo, que começou na década de 60, de demonização do liberal-conservador. Um homem liberal como era Roberto Campos, um grande cuiabano, um grande mato-grossense, é ignorado nas próprias academias. Basta ver o curso de Economia da UFMT. O Roberto Campos se tornou um leproso ideológico. Aliás, conservadores e liberais são leprosos ideológicos, hoje em dia, para políticos de esquerda e centro-esquerda. Você ceifa, ignora, isola, da comunicação social, dos meios de entrevista, da academia... E, por mais que a pessoa seja importante fora do Brasil ou em círculos específicos, é solenemente ignorada. Então, jogaram-no no ostracismo. Agora, nós tentamos reviver as ideias desse homem, que, concordem ou não, foi uma grande cabeça.

 

MidiaNews – Por que o pensamento conversador é tão pouco difundido no Brasil?

 

Quando falo chupins, é sobre políticos eleitos enquanto pessoas que vivem disso, enquanto pessoas parasitárias do sistema

Fernando Henrique Leitão – Eu não acredito que seja pouco difundido. Acredito que ele seja erroneamente interpretado. O espírito conversador está em todas as pessoas e no brasileiro não é diferente. E há uma frase do filósofo britânico Roger Scruton que diz: "Qualquer pessoa madura sabe facilmente o que é conservadorismo, basta aquela percepção de que 'as coisas admiráveis são dificilmente construídas, mas facilmente destruídas'”. Então, a partir do momento em que você tem uma maturidade de perceber que, para construir coisas boas, vai-se tempo, mas para destruí-las, vai-se um rompante, um estalar de dedos, já é um espírito conservador. E eu acredito que qualquer pessoa tenha isso. O problema é a forma como esse pensamento político tem sido encarado no Brasil. Aqui, o conservadorismo tem vindo com viés reacionário. Busca-se no passado uma noção de perfeição, em ideias superadas, em alguns casos. Ele não quer manter as coisas boas e reformar as ruins. Quer voltar para trás, como se tudo no passado fosse bom, o que é uma ilusão. Então, não é que o pensamento conservador seja mal difundido, é mal exposto, as pessoas não têm acesso a isso. No Brasil é um conjunto de fatores complexos.

 

MidiaNews – Por que no Brasil não existem partidos fortes declaradamente conservadores?

 

Fernando Henrique Leitão – Há movimentos na internet tentando buscar pessoas para criação de um partido conservador. E com isso não se pode confundir com um partido moralista, um partido carola. Desde a República, tivemos uma destruição do pensamento conservador. Todos os partidos, para se manter no poder ou conseguir o poder, abriram mão do conservadorismo para ser um partido estatal. E, nisso, tivemos grandes – no sentido de tempo – ditadores como Getúlio Vargas. Então, houve uma destruição do pensamento conservador institucionalizado. Tivemos uma ascensão dos movimentos partidários com algumas ideias pontuais de conservadorismo, mas que no fundo eram apenas pessoas querendo manter o poder, diferente do que ocorreu nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha.

 

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Fernando Henrique Cesar Leitão

"Há movimentos na internet tentando buscar pessoas para criação de um partido conservador e com isso não se pode confundir com um partido moralista, um partido carola"

MidiaNews – Acredita que os partidos no Brasil são todos mais ou menos ideologicamente parecidos?

 

Fernando Henrique Leitão – No País, hoje, não temos partido conservador nenhum. Não tem nenhum partido de direita, o máximo que se chega é um partido de centro e isso não envolve questões religiosas ou opção sexual. Todos os partidos no Brasil estão de centro para extrema-esquerda. E isso é engraçado, porque alguns partidos como PSDB são vistos como de direita, mas eles não foram, não são e não serão de direita. O PSDB é um partido social-democrata, é de centro-esquerda para esquerda. Mas aqui, a extrema-esquerda é chamada de esquerda, como PSOL; a esquerda é chamada de centro-esquerda, como o PT; e o centro-esquerda é chamado de direita, que é o PSDB. Então, desses grandes partidos, nenhum é de direita. Agora está ameaçando sair um partido com viés liberal, mas não conservador [Partido Novo]. E há iniciativas para a criação do Partido Conservador.

 

MidiaNews – Por que dizer que um partido ou alguém é conservador chega a ser quase palavrão em certos setores?

 

Fernando Henrique Leitão – Isso é um grande êxito que a esquerda conseguiu. A esquerda, com seus vários vieses marxistas, conseguiu deturpar o termo conservador e - principalmente, a partir do regime militar e do processo de abertura [política] - atrelou o conservador a algo reacionário. E aí o conservadorismo virou um palavrão, uma ofensa, pelo mau emprego e pela capacidade da esquerda de manipular esse termo a seu favor. Conservador virou uma pecha negativa por êxito da esquerda. Tanto que qualquer inimigo deles vira conservador ou fascista. Aliás, fascista é um termo usado da forma mais estúpida que existe. Chamar uma pessoa liberal de fascista é burrice. É um termo que criou vida própria, assim como conservador. É uma forma de se ofender uma pessoa, mas sem substrato.

 

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Fernando Henrique Cesar Leitão

"A esquerda, com seus vários vieses marxistas, conseguiu deturpar o termo conservador e, principalmente, a partir do regime militar"

MidiaNews – O que vocês estão fazendo para mudar essa imagem?

 

Fernando Henrique Leitão – Acredito que lentamente tem mudado. Temos alguns grupos - e é o que a ICL [Instituto Caminho da Liberdade] se propõe - que buscam alterar essa concepção de conservador, mostrar que não é ruim. Pelo contrário, é o conservadorismo que, bem ou mal, nos fez chegar até aqui.

 

MidiaNews – O conservador não é um insensível às diferenças sociais?

 

Fernando Cesar Leitão - Essa crítica não tem fundamento porque alguém que presume a vida de um inocente, como é o caso de ser contra o aborto, como os conservadores, obviamente não pode ser um insensível social. Então, alguém que é contra a morte de inocente, sendo contra o aborto, não é insensível. A crítica ao conservadorismo, sobre certa insensibilidade social, é uma crítica que terceiriza a responsabilidade. O conservador assume que cada pessoa adulta, consciente, madura, é responsável pelos seus atos. Não estamos tratando de pessoas vulneráveis, inconscientes, de pessoas que não sabem o que estão fazendo. O conservador quer que cada pessoa, consciente e madura, responda por seus próprios atos, e não por atos de terceiros ou sobre o que querem impor a ele.

 

Ah, o conservador é insensível? Não, ele não é insensível. Ele quer que cada pessoa seja responsável por si própria. A partir deste momento, em que você é responsável por suas ações, não vai ser socorrido por ninguém, se não sua própria conduta, é que se conscientiza disso. Você vai ser responsável por sua própria ação. Isso não é apenas o conservadorismo. É também o liberalismo. Temos o viés libertário. O conservador e o libertário acreditam que cada pessoa adulta e consciente é única e exclusivamente responsável pelas próprias ações e omissões. Nós somos responsáveis pelo que fazemos e deixamos de fazer.

 

MidiaNews – O senhor é formado na UFMT. Uma das críticas feitas pelos conservadores às universidades públicas é de que há um desequilíbrio no pensamento político. O senhor está entre os que acreditam que o marxismo tem predominado nas universidades?

 

Fernando Henrique Leitão – Indubitavelmente. É uma estratégia conhecida como ocupação de espaços. Economicamente e por armas, eles não conseguiram a revolução. Então, surge na Itália fascista o filósofo Antonio Gramsci, que concluiu que “a melhor forma de se alcançar o poder e se manter nele é mudar a linguagem, a forma como as pessoas veem”. É um projeto que dura gerações: encrustar nas pessoas uma ideia e ir ocupando espaços. E de onde sai o conhecimento? Das universidades. E a esquerda ocupou a universidade durante o regime militar. O regime militar abriu mão e deixou que lá se criasse qualquer tipo de corrente - a favor, contra... E, nisso, os marxistas souberam fazer as ocupações. Então, as universidades estão empesteadas de um pensamento totalitário, arbitrário, autocrata e alheio à realidade. A gente sabe que, assim como Brasília, as universidades brasileiras vivem em um mundo paralelo. E os movimentos que tentam quebrar essa espiral são destruídos dentro das universidades, em alguns casos com embates físicos. Estão tolhendo o livre pensamento, a liberdade de ideias, a liberdade das pessoas, encaminhando e obrigando-as a seguir um único ramo.

 

As universidades estão empesteadas de um pensamento totalitário, arbitrário, autocrata e alheio à realidade

Isso altera completamente a realidade. O pensamento marxista deturpa o objetivo da universidade. A universidade foi uma instituição criada na Idade Média, em que monges, para resgatar o pensamento grego clássico, decidem espalhar ideias e ser uma elite intelectual de conhecimentos. Hoje em dia, as universidades não ensinam, não abrem horizontes. As universidades públicas, sobretudo, põem tapadeira nos olhos das pessoas. É um câncer que se espalha, algo maligno, bitolando as pessoas. O objetivo da [proposta de] escola sem partido é romper esse movimento de ter um único pensamento válido. Da forma que está, não há debate de ideias.

 

MidiaNews – Por que a direita não consegue atrair a simpatia dos jovens como a esquerda?

 

Fernando Henrique Leitão – Porque uma mentira doce é melhor que uma verdade amarga. Eu não vejo outra explicação. O discurso da esquerda que está no poder são ilusões. A religião, por exemplo, oferece o paraíso após a morte. As ideologias, sobretudo as de esquerda, oferecem um paraíso terreno. Então, é um discurso bonito, que engana e que pega os jovens, porque não têm experiência, não têm leitura, não têm conhecimento e maturidade e querem mudar o mundo. E é legítimo querer melhorar o mundo, mas, nisso, vem o canto da sereia com mentiras, com falácias, dizendo que todos vão ser iguais, vão ter uma linda casa, um lindo carro, enquanto a única coisa que a esquerda e o comunismo têm para oferecer é igualdade na miséria. Então, o discurso é enlatado para enganar. O conservadorismo tem essa dificuldade e o que chega às universidades nem sempre é conservadorismo ou liberalismo. Para concluir, uma frase do Nelson Rodrigues: “Um conselho aos jovens: jovens, envelheçam”.




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Joaquim silvério  14.03.17 11h41
A misantropia contida na fala do douto advogado chega a causar perplexidade. Sua fala demonstra total desconhecimento de como funciona a estrutura pública e os responsáveis por essa desordem que ele tanto faz alusão. A incoerência é patente porque esse mesmo crítico à máquina pública dela se beneficiou em várias etapas. Mas há sempre aqueles que cospem no prato que comeu. Natural na vida em sociedade. Todavia, isso não é suficiente para que arautos da falsa-moral venham a público falar sobre objetos a ele desconhecidos. A culpa da suposta desordem que ele tanto fala vem da falta de preparo dos gestores políticos (presidente, governo e prefeitos). De forma covarde, não teve a audácia de criticar de forma contundente essa lacuna. Preferiu atacar o óbvio: funcionalismo público. O que ainda causa espécie é ver que ele aponta os problemas conhecidos de toda a sociedade, mas de forma covarde e irresponsável não fala o que a instituição a que ele se diz pertencer, tem para solucionar essa fenda aberta que ele tanto prega. Fácil falar asneiras sem conhecimento de causa. Vá lá combater o crime sem coletes a prova de balas e portando um 38 contra uma metralhadora. Vá lá no hospital público ver um médico combatendo enfermidades graves (chicungunya por ex.)sem ter a mínima condição de ajudar o paciente porque não tem remédio e nem estrutura "mínima" para atender a tantas demandas. Vá lecionar numa escola pública, com pessoas que trabalham o dia todo e ainda enfrentam o desafio do cansaço, na tentativa de serem alfabetizados. Essas declarações do douto advogado reflete no recalque em não conseguir ser aprovado num concurso público da área jurídica. Em tempo: como vai a OAB? Teria ele a audácia de propor menor intervenção da OAB na máquina pública? Espero. Oremos!
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NIVALDO CORREA DUARTE  14.03.17 10h50
BOM DIA, LI A MATÉRIA DO NOBRE ADVOGADO E PROFESSOR,E QUERO DIZER QUE CONCORDEI EM PARTE,E EXPLICO PORQUE, NÃO CONCORDEI POR QUE ELE GENERALIZA OS SERVIDORES, POIS, TEMOS NOS ÓRGÃOS PÚBLICOS DOS TIPOS DE SERVIDORES, OS QUE FIZERAM CONCURSOS PARA UM CITADO CARGO E GANHAM POUCO, AGORA TEMOS AQUELES QUE NÃO FIZERAM CONCURSOS, OS DITOS CARGOS COMISSIONADOS QUE GANHAM MAIS DO QUE OS OUTROS, SEM CONTAR QUE QUANDO SE DIZ FOLHA DE SERVIDOR ESTÁ INCLUIDO OS SERVIDORES DE CARREIRA, OS COMISSIONADOS E OS POLITICOS, DAI ENTÃO A FOLHA FICA INCHADA. FORA ESSES DETALHE O NOBRE JURISTA ESTÁ CERTO NO SEU POSICIONAMENTO. SÓ QUERIA FAZER ESSAS RESSALVA.
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Evanderson Silva  14.03.17 08h00
Independente de posições ideológicas e falando em peculiar da esfera estatal regional, também concordo que existe uma tratamento de benefícios muito incomum para algumas categorias do serviço público (não, não se doa ainda, eu não generalizando. Eu não tento concursos, não é minha praia. Eu não estou recalcado e reconheço quem dedica em estudar para tal. A questão é que existe uma disparidade e isto pode ser analisada. Nos comentários anteriores é possível notar uma rejeição de quem apresenta uma opinião como a minha. Não é para menos. O serviço público estatal em MT é inchado, crescente e precisa ser encarado com menor tamanho e com distribuição de benefícios mais condizente.
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Robson Santos  14.03.17 03h34
Sinceramente até estou tendo insônia de tão ofendido moralmente que fiquei com essa entrevista do mídia news. Querem "endemonizar" os servidores públicos. A própria Bíblia diz que digno do seu salário é o trabalhador, e 99% dos servidores públicos dão duro e recebem pouco. Entre eles, está o enfermeiro que ganha pouco e tem que trabalhar até sem luva, o professor que enfrenta alunos mal educados protegidos pelo vergonhoso ECA que não atende mais as necessidades da sociedade atual, e os servidores do judiciário, que muitas vezes trabalham até 12h, que tocamos uma secretaria, algumas vezes só o gestor, sem servidor para auxiliar, e no máximo um estagiário nível médio, realidade esta do interior afora desse MT e ainda assim são obrigados a dar prioridade a processos de presidiários em detrimento do idoso que pede sua aposentadoria depois de calejar suas mãos em árduos 40 anos de trabalho. Nós, servidores públicos, como qualquer trabalhador privado, demos duro em nossa formação profissional, fizemos faculdade por 4 ou 5 anos, nos qualificados e assim como qualquer assalariado temos o direito de pelo menos ter nosso salário reposto a inflação. É uma covardia sem limite culpar o servidor público pelo assalto aos cofres públicos praticados pelas "excelências" eleitas para representar o povo e administrar bem o dinheiro público. Somos trabalhadores honestos, não podemos seu culpados pelos assaltos ao cofres públicos praticados pelos gestores que o povo não soube eleger.
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Diego   13.03.17 22h13
Bela entrevista.... Parabéns Leitão, linda palavras..... Aposto que você é um Advogado, muito bom por sinal, mas aposto que já prestou concursos.... para magistratura... procuradoria... promotoria....... E pelo jeito não passou. Se não suas respostas seriam bem diferentes.
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