Cuiabá, Segunda-Feira, 17 de Dezembro de 2018
MUDANÇA NA LEGISLAÇÃO
15.09.2018 | 19h34 Tamanho do texto A- A+

“Qualquer crime no Brasil vale muito a pena; precisamos estancar”

Candidata ao Senado ainda fala de sua saída de chapa, de propostas e do atentado a Bolsonaro

Alair Ribeiro/MidiaNews

A candidata ao Senado Selma Arruda, que propõe mudanças na legislação

DOUGLAS TRIELLI
DA REDAÇÃO

Usando a decisão de mandar prender o ex-governador Silval Barbosa como um dos principais motes de sua campanha, a candidata ao Senado Selma Arruda (PSL) afirmou que, se eleita, pretende lutar por mudanças no Código Penal e no Código do Processo Penal.

 

Segundo ela, hoje, qualquer tipo de crime no Brasil “vale muito a pena”. E citou como exemplo o acordo de delação firmado por Silval. O ex-gestor é acusado de desviar algo em torno de R$ 1 bilhão, mas terá que devolver aos cofres públicos quase R$ 80 milhões.

 

“Qualquer tipo de crime no Brasil vale muito a pena. Enquanto não estancarmos isso, a gente não vai conseguir desenvolver. O Brasil não consegue atrair investimentos externos por causa disso. Quando se estanca isso, começa a dar o primeiro passo para crescer”, disse em entrevista ao MidiaNews.

 

A candidata ainda cutucou o ex-aliado de chapa, governador Pedro Taques (PSDB), que apresentou um projeto de lei, enquanto senador, que incluiu a corrupção ativa e passiva no rol de crimes hediondos. Segundo ela, o Congresso Nacional atualmente é cheio de “legisladores de meia tigela”, que só se preocupam com benefícios próprios.

 

Selma ainda ironizou recentes declarações do também candidato ao Senado Nilson Leitão (PSDB), que disse que o Senado não é lugar para se fazer laboratório. Ela afirmou acreditar que Leitão sequer tem nível superior e que sua única experiência é de distribuição de emendas.

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Selma Arruda 13-09-2018

"Um senador é eleito por um Estado, mas as leis feitas no Senado são federais. Então, não há projetos imediatos específicos para Mato Grosso"

“Quando se fala em político, hoje, já se fala automaticamente em corrupção. Eu prefiro ser inexperiente nesse sentido. Mas experiência legislativa, que acho que é a questão correta a que se propõe uma pessoa que vai ao Senado, esta eu tenho bastante. Tenho conhecimento jurídico muito mais do que ele”, disse.

 

Ela ainda disse discordar da forma de fazer política do presidente do PSL em Mato Grosso, deputado federal Victorio Galli, e afirmou que “ética é uma só”.

 

Veja os principais trechos da entrevista:

 

MidiaNews – Se a senhora assumir o mandato de senadora, o que pensa em fazer de imediato para Mato Grosso?

 

Selma Arruda – Eu sou candidata do PSL, partido do Jair Bolsonaro. Então, a nossa prioridade, dos eleitos pela base do Bolsonaro, é a prioridade dele. Começa pelo enxugamento da máquina estatal. Nossa primeira ação vai ser no sentido de extinguir ministérios e secretarias. Óbvio que ele vai precisar do voto dos congressistas para isso. Com intuito de ter mais receita e, consequentemente, diminuirmos essa carência que se sente no Brasil todo em relação à Saúde, Educação e os investimentos que não se consegue fazer.

 

MidiaNews – E em relação a Mato Grosso?

 

Selma Arruda – Um senador é eleito por um Estado, mas as leis feitas no Senado são federais. Então, não há projetos imediatos específicos para Mato Grosso, exceto emendas que podem ser canalizadas para cá. Mas não existe uma demanda exclusiva de Mato Grosso para se atender emergencialmente. Meus projetos, as demandas que vou atender, são voltadas para modificação da legislação federal, principalmente a legislação de combate à corrupção; a legislação penal; a questão dos recursos. Vemos o quanto a Constituição precisa ser mudada, o quanto precisa ser revista. São mudanças profundas que precisam ser feitas. A gente precisa resgatar algumas coisas que estão perdidas há vários anos.

 

sou contra a Lei Kandir, mas não consigo entender bem porque essas discussões só entram em pauta durante o período das eleições

MidiaNews – Uma das questões que envolvem diretamente Mato Grosso é a Lei Kandir, e muitos candidatos ao Senado têm citado isso. O que se fala é que a lei prejudica muito o Estado. Qual sua posição em relação a esta lei?

 

Selma Arruda – Eu sou contra a Lei Kandir, mas não consigo entender bem porque essas discussões só entram em pauta durante o período das eleições. Não consigo entender. Não acho que seja uma prioridade.

 

MidiaNews – O que dá para aproveitar de sua experiência como juíza no Senado?

 

Selma Arruda – É exatamente essa bagagem que quero levar. Fui juíza por 22 anos. Combati a criminalidade. Tenho plena noção do que é o índice de violência enorme em Mato Grosso. Essa questão das nossas fronteiras, que são absolutamente descobertas. Quem vai para Comodoro, Pontes e Lacerda, vê que não tem um posto da Polícia Rodoviária Federal. A gente está com a fronteira absolutamente descoberta. Você não vê casos de apreensão de drogas e o pessoal ingênuo acha que não está passando drogas. Claro que está, só não está sendo apreendida. A gente sabe que o consumo da droga só aumenta. Então, a gente precisa endurecer esta fiscalização da fronteira. Eu penso, inclusive, que com a colocação da Aeronáutica. E a Marinha para fazer a fiscalização fluvial. Nós temos grande parte da droga que vem pelos rios, porque pelas estradas não apenas o gasto é maior como também enfrenta a fiscalização. Então, a gente precisa intensificar a fiscalização e combater essa criminalidade violenta.

 

 

E, quanto à minha jornada no Judiciário, o que posso levar para lá é exatamente o conhecimento das falhas legislativas. Por que no Brasil a gente tem essa sensação tão grande de impunidade com relação aos crimes? Tanto dos praticados por ricos quanto por pobres. A gente tem uma sensação de que as coisas foram feitas para não dar certo. E eu sei o porquê. Com relação à criminalidade de corrupção, de colarinho branco, a questão do foro privilegiado. É uma questão que é batida e rebatida e não podemos deixar para o Judiciário legislar, como hoje acontece hoje. A gente precisa que o Senado, que o Congresso, legisle e acabe com o foro privilegiado.

 

A questão da prisão em segunda instância, da mesma forma. Ela precisa ser lei, não pode depender de um conjunto de ministros, que amanhã muda e aí se muda o posicionamento, trazendo insegurança jurídica. O Brasil tem muita insegurança jurídica.

 

Nós temos que aumentar as penas para determinados crimes. Uma coisa a qual sou contra - e que está no projeto do Código Penal em tramitação - é o fato de que para furto o novo Código exige que a vítima ingresse com uma representação contra a pessoa que furtou. Isso é expor a vítima. É colocá-la cara a cara com o bandido, que muitas vezes é um cara que mora na sua rua, no seu bairro, que te conhece. Obrigar a vítima a fazer isso sob o pretexto de esvaziar a cadeia, a superlotação dos presídios, isso é uma crueldade e não pode passar. São coisas que precisamos fazer, que, às vezes, são pontuais, mas só quem lida na área é que sabe que isso está acontecendo lá. A minha intenção é usar minha bagagem, em especial na área criminal, para ir lá e mudar isso.

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Selma Arruda 13-09-2018

"Falam em tornar a corrupção em crime hediondo. É uma jogada de marketing político que faz com que a população ache que está sendo protegida e na verdade não está"

Falam em tornar a corrupção crime hediondo. Isso é muito bonito de se ouvir, mas que diferença faz se é hediondo ou não se a própria lei diz que a pessoa tem direito à liberdade? É uma jogada de marketing político que faz com que a população ache que está sendo protegida e na verdade não está. E depois cai a culpa no juiz, porque soltou. Mas soltou porque para crime hediondo só não cabe fiança. Ele vai sair sem pagar nada. É uma incongruência o que acontece [enquanto senador, o governador Pedro Taques foi autor do projeto que inclui a corrupção ativa e passiva no rol de crimes hediondos].

 

O que fazem muito também - esses legisladores de meia tigela - é aumentar a pena para crime, por exemplo, de estupro ou de corrupção. Mas aumenta o máximo da pena, não o mínimo. Mas é muito difícil, em especial os crimes de corrupção, que o juiz consiga dar uma pena muito acima do mínimo. Se o cara não é reincidente, está empregado, tem residência fixa, tem todos os requisitos para receber a pena mínima, o que adianta aumentar a pena máxima? O juiz nunca vai conseguir aplicar a pena máxima para alguém. Aí, se mantém o mínimo, coloca na imprensa que se aumentou a pena de determinado crime, mas o efeito prático não existe. Temos que aumentar as penas mínimas.

 

MidiaNews – Do jeito que a legislação está atualmente, vale a pena ser corrupto no Brasil?

 

Selma Arruda – Muito. Vale muito a pena. Qualquer tipo de crime no Brasil vale muito a pena. Enquanto não estancarmos isso, a gente não vai conseguir desenvolver. O Brasil não consegue atrair investimentos externos por causa disso, por causa da insegurança jurídica, da corrupção e da sensação de impunidade que transmite isso para o mundo inteiro. Qual investidor em sã consciência vai colocar dinheiro aqui dentro dessa forma? Não tem como. Por isso digo que o início disso tudo está na corrupção e na sensação de impunidade. Quando se estanca isso, começa a dar o primeiro passo para crescer.

 

Penso, então, no enxugamento do Estado, com extinção de secretarias, ministérios - mas bastante, não é pouco. Deixar o mínimo possível e apostar na eficiência e na punição da corrupção. Às vezes a gente ouve dizer que mais nocivo que a corrupção é a ineficiência. Mas as duas coisas andam juntas. Na prática, por exemplo, o político faz a campanha com favores de A e B e depois precisa pagar esses favores. Então, loteia o Estado, dando uma secretaria, uma superintendência, um ministério... Para quê? Pelo mérito daquela pessoa? Não. Ele vai lá e já vai ser ineficiente, incompetente, porque está indo por indicação e não porque entende alguma coisa daquilo que está fazendo. Mas além dessa ineficiência, ele vai cometer atos de corrupção para poder resgatar o dinheiro gasto na campanha. São duas coisas absolutamente corrosivas. A forma de se nomear esses cargos também precisa mudar. Esses cargos têm que ser ocupados por pessoas de carreira. Tudo bem que se indique, mas que seja do quadro que já tem lá.

 

 

MidiaNews – O candidato a presidente do seu partido, Jair Bolsonaro, já disse que deve fazer privatizações. A senhora concorda com as privatizações, por exemplo, da Petrobras e do Banco do Brasil?

 

Selma Arruda – Eu concordo com o Paulo Guedes [economista que deve ser ministro da Fazenda de um eventual governo Bolsonaro] quando diz que tudo o que tiver que ser privatizado, deve ser privatizado. Eu sou a favor de um Estado muito enxuto. Tudo aquilo que o Estado põe a mão acaba não dando muito certo. Parece que cola a ineficiência. Então, tudo privatizado, você pagando menos imposto, acho melhor. Hoje, se paga 35% de imposto e passar a pagar 10% de imposto e tiver um Estado enxuto, esses 25% que deixou de pagar consegue pagar, por exemplo, um pedágio na estrada para andar em uma estrada sem buraco. Hoje, se paga o imposto para estrada estar bem, paga o pedágio para estrada estar bem, ainda tem Fethab, e ainda assim não está bem.

 

 

MidiaNews – O ex-companheiro de chapa da senhora, Nilson Leitão, propôs um projeto de lei que visa diminuir o número de parlamentares em todo o Brasil, economizando mais de R$ 5 bilhões. Concorda com a proposta ou acredita que ela está sendo mais usada para o processo eleitoral?

 

Selma Arruda – Muitas coisas foram feitas no Brasil este ano com fins eleitoreiros. Veja a reforma da Previdência, que tiraram de pauta, em uma jogada jurídica. Resolveram decretar a intervenção no Rio de Janeiro porque enquanto estiver com intervenção não se pode votar PEC [Proposta de Emenda Constitucional]. Então, não se pode votar reforma da Previdência. A proposta é muito eleitoreira e as pessoas, às vezes, não conseguem entender essas coisas.

 

Mas concordo que deva ocorrer a redução do número de congressistas. A gente aprende na escola que temos três Poderes: O Legislativo, o Judiciário e o Executivo. O Judiciário para julgar, o Executivo para executar e o Legislativo para fazer lei. Se formos a um cargo legislativo com essa intenção, o ideal é que você eleja pessoas que tenham conhecimento de lei e pessoas que se proponham a editar leis que sejam úteis para o País. No sistema brasileiro, o que acontece é que cada parlamentar tem direito a um quinhão de dinheiro, que são emendas distribuídas para os Estados e Municípios. Com isso, cada congressista divide esse dinheiro no seu curral eleitoral e vai como se tivesse tratando galinha com milho, dando um pouco para cada cidade. Depois, aquele prefeito, ou aquele governador, fica devendo o favor, vamos dizer assim, e devolve o favor em votos. Isso eterniza o cara e o leva à reeleição quase que automática. Qual sentido faz um legislador atuar como um membro do Executivo entregando emenda para construir pontes, para construir estrada? Por que isso não é feito direto? É um sistema legislativo feito da forma errada. E é por isso que há tanto deputado, senador, porque o bolo é muito grande. Se não houvesse esse interesse escuso nessa distribuição de dinheiro, não haveria necessidade de tanto legislador.

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Selma Arruda 13-09-2018

"Qualquer tipo de crime no Brasil vale muito a pena. Enquanto não estancarmos isso, a gente não vai conseguir desenvolver"

MidiaNews – Dá para mudar isso?

 

Selma Arruda – Com certeza. Dá para enxugar, dá para se diminuir em ao menos 1/3 o Senado e também a Câmara, com mais de 500 deputados. Você já foi à Câmara? Não tem poltrona suficiente para todo mundo. Tem 300 e poucas poltronas e 513 deputados. Isso é um absurdo. Precisamos de voto distrital. Precisamos rever essa forma. Não se pode dizer que um Estado como Mato Grosso, que sustentou o País no pior momento de crise, seja um Estado que tenha apenas oito deputados. Que incongruência é essa? O número de deputados é computado de acordo com o número de eleitores. Não deveria ser assim. 

 

Esse sistema tem que ser mudado. Eu acredito que o Congresso vai receber uma renovação muito grande este ano. Não acredito que as pessoas ainda não tenham acordado para a necessidade da renovação. Havendo essa renovação, fica muito fácil para a gente implantar este tipo de ideia. Mas não com intenção eleitoreira, mas com a intenção de mudar esse quadro, esse sistema que é tão intrincado.

 

MidiaNews – O deputado Nilson Leitão afirmou, recentemente, que Senado não é lugar para se fazer laboratório, que é para quem tem experiência. Como analisa essa declaração?

 

Selma Arruda – Experiência política no atual quadro não é uma boa referência. Quando se fala em político, hoje, já se fala automaticamente em corrupção. Eu prefiro ser inexperiente nesse sentido. Mas experiência legislativa, que acho que é a questão correta a que se propõe uma pessoa que vai ao Senado, esta eu tenho bastante. Tenho conhecimento jurídico muito mais do que ele, que acredito que não tem nem nível superior. Mas sem partir para esse lado e voltando a questão das emendas, acredito que a experiência dele deve ser só no sentido de distribuição de emendas pelo Estado.

 

Tenho conhecimento jurídico muito mais do que ele [Nilson Leitão], que acredito que não tem nem nível superior. Mas sem partir para esse lado e voltando a questão das emendas

MidiaNews – A senhora decidiu romper com o governador e candidato à reeleição Pedro Taques. Já decidiu em quem vai votar para o Executivo?

 

Selma Arruda – Sei, mas meu voto é secreto [risos]. Eu não apoio a coligação. Expus já os motivos pelos quais não apoio. E na verdade, não estou pedindo voto para nenhum candidato.

 

MidiaNews – O deputado Victorio Galli, presidente do PSL estadual,  afirmou que sua decisão de romper com o PSDB foi arbitrária e prejudicou o partido em Mato Grosso. Como analisa  essa crítica?

 

Selma Arruda – A minha decisão foi independente do partido. Isso eu deixei bem claro. A opinião dele [Victorio Galli] de ter sido arbitrária ou não decorre de pontos de vistas diferentes sobre o que é fazer política. Política se faz com ética. Não venha me dizer ‘você não é mais juíza, agora é política e tem que enxergar as coisas de forma diferente’. Não vejo dessa forma. Acho que ética é ética, certo é certo, não importa se você está na política, no Judiciário ou onde estiver. Então, essa falta de traquejo para as coisas que não são certas eu realmente não tenho. Isso foi uma discussão que ele e eu tivemos.

 

MidiaNews – Acha que errou em algum momento desse processo?

 

Selma Arruda – Eu procuro ter a postura sempre coerente com meus princípios. Não estou concorrendo a qualquer custo. Quero me colocar à disposição para trabalhar, só isso. Não tenho sede de poder, não tenho vaidade.

 

Mas acho que posso ter errado talvez em não ter insistido mais para que o Dilceu Rossato viesse ao Governo, lá no começo. Quando ele desistiu, começou uma crise, porque a gente ficou perdido. Ele era o líder da frentinha, daquele projeto, que era leve e fácil de levar. E isso acabou nos deixando perdidos no caminho. Acho que poderíamos ter insistido um pouco mais para que ele permanecesse.

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Selma Arruda 13-09-2018

"Não estou concorrendo a qualquer custo. Quero me colocar à disposição para trabalhar, só isso. Não tenho sede de poder, não tenho vaidade"

MidiaNews – Essa desistência teve participação do Victorio Galli. Qual sua análise em relação ao deputado? Ele pensou mais em si e em sua reeleição que no grupo e no partido?

 

Selma Arruda – Ele tem alguns pontos de vista que não consigo concordar. Essa questão do Dilceu foi uma delas. O posicionamento em relação à má conduta da coligação em relação a minha pessoa também é outra. Às vezes, para se fazer política, adota posições que não vão beneficiar a sociedade, que é para quem você está trabalhando. Posições que só vão beneficiar você mesmo. Então, são posições das quais eu discordo.

 

MidiaNews – Como está a sua relação com ele?

 

Selma Arruda – Normal. Cordial. Nunca tivemos nenhum tipo de intimidade ou afinidade extrema.

 

MidiaNews – E com relação ao governador Pedro Taques, após o rompimento vocês chegaram a conversar?

 

Selma Arruda – Eu fiquei muito decepcionada com o governador Pedro Taques, porque houve um compromisso por parte dele comigo que não foi cumprido. Ele não se preocupou em cumprir. E houve também a questão que foi aventada na imprensa de que ele teria participado de uma reunião em que outro candidato [Procurador Mauro] foi posto para o Senado com intuito de me prejudicar e facilitar a vida do colega de coligação [Nilson Leitão]. Essas coisas me deixaram chateada. E não conversei mais com ele a esse respeito e não pretendo conversar. Isso tem que ser passado agora e bola para frente.

 

MidiaNews –  O governador foi citado, junto com o deputado federal Nilson Leitão, em delações do empresário Alan Malouf e do ex-secretário de Educação Permínio Pinto. A senhora acha que eles são corruptos? Que o governador cometeu algum ato ilegal no Governo?

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Selma Arruda 13-09-2018

"Fiquei muito decepcionada com o governador Pedro Taques, porque houve um compromisso por parte dele comigo que não foi cumprido"

Selma Arruda – Eu sempre fui juíza e sei que não podemos prejulgar. Eu não prejulgo ninguém. A única diferença que faço dessas notícias da época em que estava no processo para essas notícias agora é o fato de que, naquela época, o que a gente tinha era a palavra de um réu. De um criminoso falando do envolvimento de Nilson Leitão e Pedro Taques. Hoje, temos uma delação premiada homologada no Supremo Tribunal Federal, que faz referência a documentos. E isso é muito mais grave. Eu fui juíza há 22 anos e ouvi conversa de réu de todo tipo, e no Brasil o réu tem o direito constitucional de mentir. Então, óbvio que aquilo que foi dito naquela época não poderia ter o mesmo peso do que foi feito agora. Agora, temos algo formal. Então, eu pessoalmente não acho que ele é corrupto ou deixa de ser, mas acho que os fatos, agora, são mais graves.

 

MidiaNews – Qual sua análise em relação à delação premiada, à qual o próprio governador Pedro Taques tem feito algumas críticas por conta dos benefícios dados aos delatores?

 

Selma Arruda – A minha grande decepção como juíza foi a forma como delação premiada foi tratada. A lei acabou deixando muito vaga a forma de se fazer delação. E aqui no Brasil, aqui em Mato Grosso, a delação foi absolutamente vulgarizada. Todo mundo delatando todo mundo, até que chega o chefe da organização e faz uma delação. Como assim?! Não é esse o espírito. Não se pode ter uma delação dessa forma. E também a flexibilidade que se dá para esse acordo que é feito. O juiz ou os ministros, quando homologam a delação, não tem sequer o poder de dizer que algo não está correto. Desviou R$ 1 bilhão e vai devolver só R$ 60 milhões. O juiz não pode fazer isso. Simplesmente homologa. O acordo quem faz é o Ministério Público e o réu. E aí esse acordo acaba saindo muito barato, muitas vezes. Acaba saindo compensador. Até porque a gente sabe e já foi constatado que a maioria desses delatores acabam extorquindo seus comparsas para ter o dinheiro para devolver. Em troca disso, não entrega o comparsa. Então, o dinheiro devolvido sequer é dele. E muitas vezes é um dinheiro de corrupção que vem do próprio Estado. Então, precisamos ter essa seriedade com delação, esse tratamento mais sério. Por isso a lei da delação é boa, mas precisa ser aprimorada.

 

 

MidiaNews – O ex-governador Silval Barbosa é acusado de desviar quase R$ 1 bilhão dos cofres públicos. O acordo prevê uma devolução de algo em torno de R$ 80 milhões.

 

Selma Arruda – É ridiculamente pouco. E a forma como foi feita, entregando fazendas invadidas, avião velho, terreno atrás da rodoviária. Eu fiquei muito revoltada na ocasião, porque a gente vê que o rombo foi enorme, foi estrondoso, e esse acordo acabou valendo muito a pena. E ainda com prazo de cinco anos para acabar de pagar. Foi uma coisa que a gente não consegue entender.

 

Se você não tem esse pensamento político, digamos, inescrupuloso, é muito difícil você enfrentar a política. Quando você quer fazer a política direitinho

MidiaNews – As pesquisas têm mostrado a senhora em quarto lugar, ainda que embolada com outros nomes. Está otimista com os números?

 

Selma Arruda – Nós estamos tecnicamente empatados em segundo lugar. Acredito que temos condições de crescer muito. Acredito que nos últimos 15 dias é que vamos ter uma definição melhor dessas colocações. Eu pessoalmente estou apostando na conscientização da população para tornar o voto útil. Não se votar simplesmente por votar. Não anular voto e nem votar em branco. E temos também o fator Bolsonaro, que é um impulsionador para a candidatura. Existe uma legião de pessoas que votam no Bolsonaro, que são ‘bolsonarianos’, mas ainda não se conscientizaram que não adianta votar só nele, elas têm que votar nos candidatos que o apoiam para ter uma base no Congresso satisfatória. Essas pessoas se conscientizando disso, é óbvio que o número de votos aumenta. E tenho certeza que vamos estar eleitos em 7 de outubro.

 

MidiaNews – Caso não consiga essa vitória, qual o seu plano?

 

Selma Arruda – Eu tenho tempo de aposentadoria e estou aposentada, graças a Deus. Eu penso em advogar, em trabalhar com programas de compliance e também voluntariamente tentar fazer alguma coisa para ajudar, levando um pouco da mensagem que a gente precisa deixar para as pessoas. Já me pus à disposição para fazer palestras de graça para um determinado público que consiste em famílias que estão com os filhos adolescente em situação de pré-violência, ou seja, indo para criminalidade. Me coloquei à disposição para ajudar essas pessoas. Então, talvez um trabalho voluntário ou alguma coisa nesse sentido. Mas para a vida política não venho mais não. Se você não tem esse pensamento político, digamos, inescrupuloso, é muito difícil enfrentar a política. Quando você quer fazer a política direitinho.

 

Se alguém denigre sua imagem por algum motivo, dói para quem tem vergonha. Quem não tem acha que está certo. Então, para maioria dos políticos, o que se fala sobre eles é indiferente. Para mim, uma inverdade, uma fake news, sobre mim, me machuca profundamente, porque a gente é criado dessa forma. Então, acho que não vale a pena o desgaste, porque eu não almejo pessoalmente nada. Minha ideia é ir lá trabalhar, se der vou, senão...

 

MidiaNews – Então, com três meses de política, já está decepcionada com essa vida?

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Selma Arruda 13-09-2018

"Não é decepcionada com essa vida, estou cada vez com mais convicção que precisamos mudar isso"

Selma Arruda – Não é decepcionada com essa vida, estou cada vez com mais convicção que precisamos mudar isso. Mas óbvio que se essa tentativa não for exitosa, já me sinto com a missão cumprida.

 

MidiaNews – Como analisa o atentado sofrido pelo candidato de seu partido, Jair Bolsonaro? Foi um lobo solitário ou vê a ação de algum partido por trás?

 

Selma Arruda – Eu tenho certeza, absoluta, que o ataque teve motivação política. Ele não estava sozinho. Existe até um vídeo que mostra uma pessoa socando o Bolsonaro quando ele estava sendo carregado, para aumentar a lesão. Ali havia várias pessoas infiltradas. Acho que o inquérito vai, em breve, revelar essa conotação política. Foi um atentado terrorista, em minha opinião. Um atentado contra a democracia. Da mesma forma que lamento o tiro dado no ônibus do Lula, também lamento esse tipo de coisa, porque isso demonstra que o Brasil está muito mais à beira do abismo do que a gente imagina. Isso sai do lógico, do razoável. A eleição tem que ser uma festa democrática, não pode ser na base da violência.

 

Mas por outro lado, acabou incitando as pessoas a fazerem a campanha por ele. Criou-se uma comoção enorme. Na semana passada, eu não tinha tantas previsões de carretas pró-Bolsonaro como tenho agora. Chego a ter duas, três, por dia, porque as pessoas querem se manifestar a favor do Bolsonaro, por conta dessa fragilidade que o acometeu. Então, se imaginaram que iam causar o mal, acabaram dando um tiro no próprio pé.

 

MidiaNews – Recentemente, a senhora esteve envolvida no caso dos grampos ilegais em Mato Grosso, por conta do depoimento do cabo Gerson Correa. Ele a acusou de participar de uma “estória cobertura” para justificar escutas. Isso faz parte do jogo político? O que diz a respeito dessas acusações?

 

Selma Arruda – Esse menino que falou isso já tinha dito que eu não tinha envolvimento nenhum em outras ocasiões. Parece que é a quinta versão que ele dá a respeito dos fatos. É igual a declaração do Alan Malouf anterior à delação. É palavra de bandido, que pode mentir, pode dizer o que quiser. Eu nem me preocupo com isso. Esse não tem a mínima credibilidade.

 

 

MidiaNews – A senhora disse que existem “legisladores de meia tigela”. O nível dos nossos legisladores é muito ruim?

 

Selma Arruda – É uma mistura de ineficiência com corrupção. Eles não têm conhecimento técnico e são corruptos. Então, fazem a legislação valer de acordo com o interesse de quem está pagando. Por exemplo, se tem um determinado medicamento que uma empresa não quer que seja colocado no mercado, vai lá paga, e simplesmente proíbem o uso desse medicamento. Estão pouco se lixando se vai morrer milhões de pessoas. Essa é a parte corrupta do legislador. E quando não tem conhecimento técnico, é esse caos que é.

 

 

MidiaNews – De todos os candidatos ao Senado em Mato Grosso, a senhora pode ser considerada uma das mais, se não a mais, conservadora. Acha que o pensamento de esquerda é um atraso para o Brasil?

 

Selma Arruda – Acho que é um atraso. A gente precisa tirar essas posições marxistas de uma vez por todas do Brasil. A gente só vai se desenvolver se for liberal, capitalista. A gente precisa de desenvolvimento, de emprego. Não é tratando o povo como gado. Mas, sim, como gente. Parar de dar, dar, e ensinar a pescar. Ensina a pescar que a gente cresce. Não tem nenhum País no mundo socialista que tenha dado certo. Nem a China que se diz comunista. Ela é super capitalista, a gente sabe disso. Só é comunista de nome. É o País mais capitalista que existe. E veja o tanto que está crescendo, olha a potência que é. Olha a nossa possibilidade de crescimento se a gente conseguir se livrar desses pensamentos socialistas. Então, efetivamente, é um grande atraso de vida a gente continuar com esse pensamento de esquerda.

 

 

 

 




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COMENTÁRIOS
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Graci Ourives de Miranda  18.09.18 12h45
Sociedade despertem!Ela trabalha excelentemente por MT . GRaci
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edilson  18.09.18 10h39
Compreender a essência de evolução dos processos naturais de desenvolvimento do comportamento humano, adormecido e perdido na mente humana da sociedade brasileira, é fundamental para entendermos o momento de contradições que vivemos com grandes inversões de valores. Precisamos urgentemente de reconstruir o país, recolocando nossos filhos e netos em escolas seguras com ensino público de qualidade com tempo integral, que realmente promovam a aprendizagem científica em todas as áreas do conhecimento, livre de ideologias que manipulam a formação da estruturação do caráter de nossos jovens. Precisamos sim de renovar os princípios fundamentais básicos de ética, moral e civilidade com respeito mútuo em todos os tipos de convivência social, para que nossas crianças e adolescentes cresçam e se desenvolvam para formar os pilares de sustentabilidade de uma nação desenvolvida. Parabenizo a entrevistada pelas colocações claras e objetivas que precisam ser implementadas em nossa sociedade desorganizada e, aproveito a oportunidade para lembrar principalmente as mulheres que tanto reclamam da falta de representatividade política no congresso nacional, que chegou a hora de eleger uma pessoa competente e honesta capaz de defender os verdadeiros interesses da população brasileira.
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Matheus  17.09.18 17h38
Sem sombras de dúvidas, Dra. Selma é a mais preparada para representar o Estado de Mato Grosso no Congresso Nacional. Uma mulher que tem transparência no que fala, demonstra um caráter ilibado e, como mais importante, apoia Jair Bolsonaro. Peço, encarecidamente, ao povo Mato-grossense, que não desperdice o voto. Hoje, temos uma candidata merecedora e que fará jus do nosso apoio. 170 na cabeça.
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Walter  17.09.18 15h17
Mulher guerreira essa! Tem meu voto!
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Nelso  17.09.18 09h36
Gostaria de saber como fica a moral de uma pessoa mulher que diz defender a lei em subir em um palanque para defender um candidato que historicamente ataca as mulheres???? como acreditar em suas palavras Selma?
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