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Entrevista da Semana / DOENÇA CRÔNICA
29.04.2017 | 20h30
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Promotor: todos os últimos gestores têm culpa pelo caos na Saúde

Há mais de uma década atuando no setor, Alexandre Guedes faz avaliação do quadro em Cuiabá e MT

Alair Ribeiro/MidiaNews

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Promotor de Justiça do Ministério Público de Mato Grosso, Alexandre de Matos Guedes

JAD LARANJEIRA
DA REDAÇÃO

Há 17 anos à frente da Promotoria da área de Cidadania da Capital, o promotor de Justiça Alexandre de Matos Guedes afirma que o maior problema que ainda perdura na Saúde é a indefinição sobre um modelo de gestão.

 

Ele diz que os gestores que passaram pela Prefeitura de Cuiabá e pelo Governo do Estado, nos últimos 15 anos, precisam "pôr a mão na consciência" e reconhecer que erraram na condução das políticas públicas para a Saúde.

 

O promotor ainda chama a atenção para a falta de novas unidades médicas e o sucateamento das políclínicas da Capital, o que acaba resultando na superlotação do Pronto-Socorro.

 

Confira os principais trechos da entrevista:

 

MidiaNews – O novo procurador-geral de Justiça, Mauro Curvo, assumiu o Ministério Público Estadual com uma ideia focada na questão de Saúde, principalmente a compra de medicamentos em conjunto entre Estado e Municípios. Vocês têm conversado a respeito do assunto?

 

Alexandre Guedes – Ele ainda não conversou comigo a respeito. É uma proposta dele de campanha, então não foi conversado. Eu só sei o que a gente ouve da própria imprensa e algumas outras conversas que eu ouço por aí.

 

Mas a ideia é interessante, não tenha dúvida. Não apenas no Paraná, mas em Minas Gerais existe essa questão da compra coletiva de medicamentos. Mas o que nós enfrentamos hoje a respeito da falta de medicamento é a licitação do próprio Estado, especialmente daqueles medicamentos da Farmácia de Alto Custo – o nome é meio impróprio, porque nem tudo é tão caro.

 

Os medicamentos que o Estado deve comprar e distribuir são o grande problema hoje. Porque já se passaram mais de dois anos e a atual gestão ainda não conseguiu acertar a compra desses medicamentos. Então o que está faltando são os medicamentos que estão sob a responsabilidade do Estado. Basicamente a maioria dos problemas que chegam aqui é a respeito disso. Tem que organizar a compra coletiva e é preciso que o Estado participe e faça isso.

 

MidiaNews – No caso da falta de medicamento de alto custo, há risco para essas pessoas? Elas correm risco de morrer? Porque geralmente são remédios de uso contínuo, não é mesmo?

 

Alexandre Guedes – Pode haver intercorrências, a pessoa pode ser internada... Mas, sim, é óbvio que quando você não toma medicamentos contínuos, vai ter um problema. Por exemplo: aqui nós temos problemas com medicamentos para transplantados renais. Eles precisam tomar os medicamentos para o resto da vida. Então eu já tive casos aqui de faltar Ciclosporina, que é uma coisa essencial, porque senão o paciente começa a rejeitar o órgão transplantado. Há diversos prejuízos por isso. Há problemas de risco de vida, de lesão grave e de agravamento irreversível de algumas doenças.

 

MidiaNews – E onde que está o erro do Estado?

 

Alexandre Guedes – Um problema que eu acredito que haja é de gestão. O Estado até hoje não acertou qual o seu modelo de gestão para comprar esses medicamentos.

 

Na época do [ex-governador] Blairo Maggi havia uma empresa que fazia a tal da logística, mas aí dava o medicamento vencido. Depois, Silval Barbosa contratou uma OSS [Organização Social de Saúde], que deu medicamento vencido de novo e junto com isso veio também a falta de medicamento. E agora o Governo atual ainda não definiu um modelo de gestão. Não contratou uma OSS, mas tem uma empresa que está lá e que, aparentemente, o contrato está toda hora com problema de pagamento.

 

Inclusive, eu propus uma ação civil pública para que não haja mais empresa nenhuma, para que o Estado compre tudo e faça isso. Mas até agora não há uma decisão desse modelo de gestão. O secretário tem mudado à base de mais ou menos um por ano, então isso é algo extremamente difícil.

 

Mas eu vou te dizer uma coisa: não é algo impossível de fazer. No Espírito Santo, os medicamentos têm praticamente 95% de cobertura, não existe essa falta. E os 5% restantes que faltam já estão licitando. Não há os problemas que temos aqui. E lá é 100% público, não tem OSS, não tem coisa nenhuma. Então o problema que nós estamos vendo aqui é um problema claro de gestão e escolha de modelo que vai ser estabelecido.

 

MidiaNews – O senhor falou que tem uma ação pedindo que o Estado gerencie esses medicamentos. Qual a opinião do senhor em relação às OSS? Acha que elas deram errado em Mato Grosso?

Alair Ribeiro/MidiaNews

Promotor Alexandre Guedes

"Nós não temos uma auditoria no Sistema Único de Saúde"

 

Alexandre Guedes – Eu não posso dar opinião sobre a OSS. O Supremo Tribunal Federal disse que é lícito contratar OSS. Eu fui a Goiás algum tempo atrás com o pessoal do Tribunal de Contas do Estado e o presidente Antônio Joaquim e vi que lá há hospitais que funcionam com OSS - aparentemente da maneira adequada. Então não cabe ao Ministério Público dizer se elas são boas ou ruins. O que cabe dizer é o seguinte: o modelo é legal? Ou ilegal?

 

Inclusive eu tenho uma ação civil pública em que pego a decisão do Supremo, pego a decisão do Tribunal de Contas da União e pego várias leis e estabeleço o seguinte: “Se quer contratar a OSS, pode contratar, mas tem que seguir uma série de regras, que o Governo anterior não seguiu”.

 

Mas o problema maior é que o Estado de Mato Grosso não tem uma estrutura maior de fiscalização de auditoria. Nós não temos uma auditoria no Sistema Único de Saúde (SUS), aquele fiscal com poderes para isso, como se tem na Vigilância Sanitária de Cuiabá.

 

Aqui você tem bons servidores, que podem ter até curso de auditoria, mas aí chega um secretário qualquer e tira aquela pessoa de sua função da maneira como ele deseja. O relatório da CPI da OSS, que foi muito bem feito, demonstra isso – que a tal da comissão de investigação não conseguia investigar nada porque não tinha absolutamente autonomia nenhuma e não conseguia chegar a nada.

 

Então uma das coisas que o MPE pede é o seguinte: o Estado quer adotar a OSS, então adote, mas isso tem uma contrapartida, que é estabelecer uma estrutura de fiscalização autônoma e adequada, até porque esse é o modelo teórico desde a época do [ex-presidente] Fernando Henrique Cardoso, em que deixa isso muito claro. Se o Estado não se estruturar em termos de fiscalização, não vai funcionar.

 

MidiaNews – Então do jeito que está a OSS não vai dar certo?

 

Alexandre Guedes – O problema é que se você não tiver auditoria, nenhum modelo vai funcionar. Só que o Estado até hoje não decidiu o que ele vai fazer. Após dois anos e meio, [o atual Governo] ainda não decidiu se vai ser PPP (Parceria Público Privada), se vai ser OSS. Vai ser o quê?

 

Então eu volto a dizer: na concepção jurídica do MPE nenhuma tercerização pode ser feita enquanto não houver estruturação dessa auditoria e de seguir uma série de passos que o Supremo e o TCU deteminam. Primeiro você precisa fazer uma avaliação de serviço por serviço. Por exemplo, Cáceres. Há o hospital lá. Então é mais vantajoso operar diretamente ou passar para outra entidade? Você precisa fazer a avaliação disso, antes de dizer que vai fazer. Outra coisa importante é o seguinte: você tem que cobrar do gestor privado [da unidade pública] que ele tenha um regime de compras, para não comprar de quem quiser. Porque é esse, às vezes, o problema. Porque eu contratando quem eu quero sempre há um risco. Tem que ter um regime de compras que garanta a impessoalidade.

 

MidiaNews – Temos três obras importantes aqui em Cuiabá paralisadas ou atrasadas – o Pronto-Socorro, o Hospital Universitário e o Hospital Central. De que forma isso está impactando na saúde do mato-grossense?

 

Alexandre Guedes – A gente pode ver muito claramente que o problema da saúde em Mato Grosso é estrutural. E qual foi o problema? O Hospital Central, por exemplo, está desde 1986 e nunca foi concluído.

 

E de 2002 a 2010, em que as contas do Estado estavam em dia e a arrecadação crescente, não foi feito nenhum investimento estruturante na saúde. Não se fez nenhum serviço em Cuiabá, nem em Várzea Grande e nem em nenhuma cidade do interior. Ficaram os mesmos hospitais regionais que o governador Dante de Oliveira tinha deixado, com o ex-secretário [de Saúde] Julio Muller.

 

Como que eu fico oito anos com a população crescendo - porque Mato Grosso crescia a ritmo chinês -, mas sem estruturar os serviços de saúde? Cuiabá não tem hospital materno-infantil e não tem uma série de coisas. Esse é um problema muito sério. Se você não faz investimento lá atrás, ele explode tudo no Pronto-Socorro de Cuiabá, que hoje é pequeno para o atual ritmo do SUS. Hoje tudo "deságua" lá.

 

Então a gente vê com muita preocupação o fato do Hospital Central e o Hospital Universitário não terem sido terminados. O que é previsível, porque como que você manda fazer um hospital com emenda parlamentar?  Como se faz um investimento estruturante só com base em emenda? Emenda é algo que vem ou não vem. Pode vir esse ano e pode não vir no outro. E agora estamos com o Pronto-Socorro que está indo meio devagar, mas aparentemente está continuando. Mas o problema é o seguinte: mesmo que o Pronto-Socorro novo seja inaugurado, ainda vai continuar esse déficit histórico. Você tem importantes regiões do Estado que não têm hospital público. Por exemplo: Tangará Serra. Enquanto isso, num trecho de 150 quilômetros você tem três: Colider, Sorriso e Sinop.

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Promotor Alexandre Guedes

"O PS de Cuiabá além de receber a demanda de todo Estado, tem o sistema de policlínicas e UPAs (Unidade de Pronto Atendimento) muito falho"

O Hospital Metropolitano também foi mal planejado e mal estruturado. Ele é pequeno e tem apenas 70 leitos, onde basicamente você gasta a mesma coisa que gastaria com um hospital de 200 leitos. Então você tem esses obstáculos que nós vemos com muita preocupação. Volto a esclarecer: enquanto não aumentar o numero de serviços, vai continuar tendo problema.

 

No caso do Pronto-Socorro, Cuiabá - além de receber a demanda de todo Estado - tem o sistema de policlínicas e UPAs (Unidade de Pronto Atendimento) muito falho, pequeno e precário. Então, todo mundo vai para o Pronto-Socorro. E isso não pode acontecer, porque um hospital de urgência e emergência tem que lidar exclusivamente com isso. Foi o que eu vi em Goiás. Lá é urgência e emergência mesmo. As pessoas não procuram o hospital para cuidar de uma febre, por exemplo. Isso teria que ser resolvido na atenção básica ou na atenção secundária.

 

As UPAs foram feitas para substituir as policlínicas e, na verdade, não substituem, porque a policlínica tem uma série de serviços que a UPA não tem. Então, na verdade, você diminuiu a rede de serviço. E há anos que não há policlínicas novas. No centro da cidade, por exemplo, você não tem nenhuma unidade de atenção secundária. Então vai tudo para o Pronto-Socorro.

 

Outra coisa: as policlínicas têm um problema de não passar exames e distribuir medicamentos. Eu tenho uma ação civil pública aqui sobre isso. Porque se você chega numa policlínica depois das 18h – o que é muito comum para o trabalhador –, pode até ser atendido, mas não recebe medicamento, porque a farmácia fecha. Isso é uma questão de organização. Os exames também. Por exemplo, um exame que seria necessário para adiantar um diagnóstico, ou encaminhar um paciente até o Pronto-Socorro, caso seja mais grave, não é feito na hora. Então acaba tudo sendo encaminhado ao Pronto-Socorro.

 

MidiaNews – O senhor está há quanto tempo atuando na área de saúde?

 

Alexandre Guedes –  Eu estou nesta Promotoria desde 2005, mas ela foi configurada para a saúde a partir de 2011.

 

MidiaNews – Não é frustrante estar há tanto tempo trabalhando nessa área e ver que a situação não se resolve?

 

Alexandre Guedes – Frustração a gente tem em qualquer trabalho, mas a gente tem também muitas recompensas. Houve situações que conseguimos reverter.

 

É um trabalho cotidiano. A gente fica frustrado é com essa falta de planejamento e essa falta de rumos da gestão, em que não se consegue definir um modelo. Como eu falei: de 2002 a 2010 não houve planejamento e não houve investimento. A gestão de 2010 a 2014 foi aquele desastre administrativo e financeiro, em que as contas da Secretaria de Saúde foram rejeitadas e o TCE, de maneira inédita, pediu que fosse exonerado o secretário de Saúde. E até agora a gente vê essa indefinição do que vai ser e o que vai acontecer.

 

MidiaNews – Dinheiro então tem, o problema seria a gestão?

 

Alexandre Guedes – A saúde é subfinanciada – vamos deixar isso bem claro. Ao longo dos anos, o Governo Federal, em termos de percentagem, tem diminuído o investimento em saúde e jogado no colo dos Municípios e do Estado. E acontece que a União Federal tem investido percentualmente cada vez menos. E o Estado sempre investe o mínimo constitucional, nunca sobe muito além disso. Então, normalmente, a “conta” sempre acaba caindo nas mãos dos Municípios. Seria necessário mais recurso – o Brasil é um dos países que têm mais recursos e o País que menos investe em termos de dinheiro público – em saúde, seja sistema universal ou não.

 

Mas além do subfinanciamento, vemos que há um grande problema de gestão. Por exemplo: nesse tempo, de 2002 a 2010, foram comprados três hospitais que já existiam. Eles foram mantidos e ainda estão fechados. Ou então eles servem para coisas burocráticas. O antigo São Thomé virou garagem para o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência). O outro é o antigo Hospital Modelo, na Rua Comandante Costa, que virou Central de Regulação. E o outro é em Guiratinga, que não está funcionando. Então comprou-se três hospitais e não deu a eles o destino como hospitais. Foi investido dinheiro, ficou parado no período em que a arrecadação estava crescendo e as contas do Estado estavam em ordem.

 

MidiaNews – Nos últimos tempos foi comum ver a Justiça concedendo liminares para internar pessoas em UTI. Esse problema continua?

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Promotor Alexandre Guedes

"Precisa-se de mais leitos de UTI. A situação já foi mais grave, mas hoje ainda precisa de um pouco mais"

Alexandre Guedes – UTI tem sempre algum problema. Nós temos uma ação civil pública que diz que a gente está precisando adequar as UTIs. O problema é o seguinte: se você perguntar "Cuiabá tem o número de leitos de UTI de acordo com o Ministério da Saúde?" Pode até ter, só que tem um problema: os leitos de UTI de Cuiabá não são só para a população de Cuiabá. São para a população de Várzea Grande e do interior. Então precisa-se de mais leitos. A situação já foi mais grave, mas hoje ainda precisa de um pouco mais. A Defensoria Pública tem operado muito nessa questão.

 

Um outro problema é que o Poder Público não tem nada próprio de alta complexibilidade – nem Município, nem Estado. Então quando vem uma liminar, ele tem que comprar da iniciativa privada, e aí é que dá problema.

 

Então bastou inaugurar o São Benedito que já notamos uma melhora em questão de cirurgias ortopédicas. Houve uma boa melhora, mas não resolveu tudo, porque há um déficit de serviços.

 

MidiaNews –  Existe um termo chamado "ambulancioterapia", que é o "tratamento" pelo qual se pega um paciente no interior, o coloca em uma ambulância e o deixa no PS de Cuiabá. Esse problema persiste?

 

Alexandre Guedes – É como eu falei. Com a questão da tecnologia, as pessoas que antigamente morriam lá mesmo, hoje acabam sendo transferidas com vida para Cuiabá - que é o único lugar que se tem quase tudo de alta complexibilidade. Tudo bem que você tem Rondonópolis e Sinop, onde também há serviços. Mas até pela própria precariedade dos hospitais regionais, eles acabam mandando tudo para Cuiabá.

 

Então, por um lado você não pode ter hospitais de alta complexibilidade em todos os cantos, mas você deveria estruturar melhor o interior, que precisa de médicos que façam esse serviço.

Um dos grandes problemas da saúde, está na atenção básica, porque a cobertura de unidades de saúde é só de 53%

 

O problema não é nem tanto empurrar os pacientes para cá – claro que existem situações que poderiam ser resolvidas por lá mesmo. Por isso é preciso de auditoria, para detectar esses casos e tomar a providência. Mas o fato é que, como Cuiabá tem uma alta complexibilidade, é natural que se mande para cá. E os pacientes têm que ser atendidos, porque as vidas precisam ser preservadas. Por isso que eu digo que não há serviço público aqui para atender essa demanda.

 

MidiaNews - E como está a atenção básica em Cuiabá, aquela que engloba, por exemplo, os postos de saúde e as equipes PSFs (Programa de Saúde da Família)?

 

Alexandre Guedes - Um dos grandes problemas da saúde está na atenção básica, porque a cobertura de unidades é só de 53% - praticamente metade de Cuiabá está desassistida de unidade de atenção básica. Isso gera uma superlotação nas unidades que já existem, e há mais de cinco anos que não é construída uma unidade nova.

 

MidiaNews –  Por causa da crise econômica, muita gente foi demitida e consequentemente perdeu o plano de saúde. O senhor notou algum aumento de demanda, ou algum problema por causa disso?

 

Alexandre Guedes – Na Promotoria não, mas tenho certeza que, se você for na Secretaria de Saúde de Cuiabá, vai ver que houve um grande incremento no atendimento dos postos de saúde da atenção básica e até mesmo no Pronto-Socorro.

 

No Brasil temos o SUS. Então do “peão ao barão”, todo mundo poderia ser atendido. O que o plano privado me daria, em tese, seria uma rapidez para ser atendido – o que nem sempre acontece –  e possibilidade de você escolher com quem você vai ser atendido. Então essas seriam as duas vantagens. O resto o SUS teria que atender tudo. E até que ele atende. Por exemplo, transplante. O SUS atende em 100%. Não há quem não seja atendido, por mais dinheiro que tenha. Certos tratamentos de câncer, às vezes por mais que a pessoa tenha uma boa vida de classe média, ela precisa do SUS, porque não há como se pagar um tratamento oncológico muitas vezes. Então o SUS precisa ser estruturado para atender todas as pessoas, tendo plano ou não.

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Promotor Alexandre Guedes

"O SUS ele precisa ser estruturado para atender todas as pessoas, tendo plano ou não"

E também o mercado de saúde privada tem um problema: os planos individuais foram praticamente extintos. Porque, se a pessoa tivesse um plano individual, ela não dependeria exatamente de um emprego, porque quando ela perde um emprego, ela perde um plano que tinha que era para os trabalhadores da empresa. O mercado hoje não atende mais planos individuais. E isso é uma das coisas que têm se agravado muito.

 

MidiaNews – O senhor está desde 2005 atuando em cidadania e saúde. Acompanhou, portanto, o trabalho de quatro prefeitos. Qual a avaliação que o senhor faz da atuação desses gestores na área de saúde. Eles deixaram a desejar?

 

Alexandre Guedes – Todos têm a parte que lhes cabe neste latifúndio – o Emanuel ainda não porque acabou de entrar. O Wilson Santos teve muito embate com as categorias dos trabalhadores da área da saúde e isso causou vários problemas. O Chico Galindo também seguiu nisso, desativou a policlínica para botar a UPA. O Mauro [Mendes] fez uma boa gestão. Colocou o São Benedito, mas não acresceu serviço. No final de sua gestão diminuiu vários serviços e também diversas policlínicas deixaram de funcionar com a carga plena. Então cada um tem a sua parte dentro dessa situação.

 

Mas a saúde de Cuiabá tem uma boa Vigilância Sanitária, tem uma equipe boa de fiscais, que tem continuado ao longo das gestões. É uma boa equipe de profissionais, o que tá faltando mesmo é a gestão.

 

MidiaNews – Mas dentre esses quatro, qual a seu ver fez mais pela saúde de Cuiabá? Sem entrar em questão partidária.

 

Alexandre Guedes – O que eu posso dizer é que todos eles fizeram alguma coisa. O Wilson inaugurou a policlínica do Pedra 90 – que foi a última. O Mauro, como eu falei, colocou o São Benedito. O Chico ficou um ano e pouco, mas desativou a policlínica do CPA 1 para colocar a UPA, aí tirou diversos serviços de especialidades.

 

Todos esses prefeitos não cuidaram da estrutura física. Todas as policlínicas estão sucateadas - e para todas elas eu tenho ação civil pública. Então essa deterioração das unidades é uma coisa que aconteceu com todos os prefeitos até agora.

 

Todos esses prefeitos não cuidaram da estrutura física da cidade, todas policlínicas estão sucateadas, todas elas eu tenho ação civil pública para fazer

MidiaNews –   O senhor, inclusive, chegou a abrir um inquérito afirmando que tinha fezes de rato nos medicamentos...

 

Alexandre Guedes – Exatamente. O problema é que a gente teve na gestão pública o seguinte: eles inauguram uma obra e depois querem, vários anos depois, fazer uma reforma caríssima. Mas, no meio, você tem que fazer uma manutenção – trocar a lâmpada, arrumar infiltração, mandar pintar. São coisas pequenas, mas que deterioram a unidade.

 

Por exemplo, a Policlínica do Verdão o Wilson Santos fez uma reforma nela, mas continuou caindo quando chovia. Então foi uma reforma que não adiantou muita coisa. São esses os pontos que temos que deixar bastante claros.

 

Então cada um teve a sua parte no latifúndio. Não posso dizer que houve um pior do que o outro, porque cada um deles fez alguma coisa boa. O que eu posso dizer é que, em todos eles, a gente pôde ver, de uma maneira indistinta, a questão da atenção secundária. Tanto no que se refere a absorver a demanda do Pronto-Socorro, como o fato de que não está bem espalhada pela cidade. Enquanto não houver uma unidade de atenção secundária [que inclui as UPAs e a média complexidade] no Centro de Cuiabá, ou próxima, para atender, seja a população trabalhadora, que vai para o centro, o Pronto-Socorro vai continuar lotando.

 

MidiaNews –  No final do ano passado o senhor também abriu um inquérito sobre a falta de profissionais no Pronto-Socorro. Como está essa situação?

 

Alexandre Guedes – O problema do Pronto-Socorro é que ele funciona na base de especialidades, que aliás é um dos problemas que todos os prefeitos têm, porque eles não estabelecem um modelo de pessoas. Cada um quer colocar - ou OSS ou empresas - mas não se define uma maneira de contratar essas pessoas. Então existe uma grande instabilidade no serviço pessoal, porque a saúde é pessoal – você precisa de pessoas para atender.

 

Lá no Pronto-Socorro você tem empresas contratadas, servidores estatutários, você tem todo o tipo de vínculo e isso gera uma série de problemas, inclusive para a própria gestão lidar com isso.

 

Por mais que as pessoas digam que há servidores trabalhando, a gente vê que ele não tem o suficiente para atender a demanda. Cuiabá e Várzea Grande têm mais de um milhão de pessoas. E mais as pessoas de Santo Antônio, Chapada, Poconé... Então coloca aí mais 100 mil pessoas. É um núcleo urbano muito grande que você precisa resolver, e que está crescendo.

 

Uma demanda que cresceu, por exemplo, foram os acidentes com motocicleta. As UTIs e a fila da Ortopedia estão sendo ocupadas em grande parte por conta disso. Nos últimos dez anos, aumentou muito a frota de motos. E pessoas que não têm a habilitação estão dirigindo de qualquer maneira. E isso é uma verdadeira doença urbana, que tem aumentado muito o serviço de saúde. Se você for na UTI do Pronto-Socorro, vai ver que 30% ou 40% são internações por acidentes de moto.

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Promotor Alexandre Guedes

"Já faz quinze anos que não se tem um estruturamento adequado de serviços"

Outra parte que tem crescido muito é a questão de fraturas de idosos, porque tem aumentado muito a população idosa. Fora isso, tem também a intensificação da dengue, a intensificação de chicungunhya e do zika vírus. Isso aumentou muito a demanda do SUS.

 

Mato Grosso tem uma “tempestade” perfeita. Falta de investimentos do Estado, falta de planejamento, obras paradas, falta de estruturação de serviços. E isso vem desde 2002. Ou seja, já faz quinze anos que não se tem uma estruturação adequada de serviços.

 

E na Capital do Estado teve o aumento da tecnologia, porque tem exames para fazer toda hora, a desorganização da gestão na distribuição de remédios, a população crescendo, o desemprego. E tudo isso forma uma tempestade perfeita que em Mato Grosso se apresenta ainda pior.

 

MidiaNews – Voltando ao Pronto-Socorro. Não é desumano o que acontece com aquelas pessoas espalhadas por corredores?

 

Alexandre Guedes – Eu faço uma certa comparação: antes de haver o SUS, essas pessoas morriam fora [no interior]. Porque o Pronto-Socorro de Cuiabá tem uma virtude: como ele é público, acolhe todo mundo. Pode demorar, pode ficar no corredor, pode ficar no chão, mas algum atendimento ela tem.

 

E realmente é desumano, é horrível, é degradante.  Eu penso na alternativa que seria não existir. Mas acho que todos os governantes a partir de 2002 têm que botar a mão na consciência e ver que eles contribuíram para a parte que lhes cabe nesse latifúndio que nós estamos vendo.

 

Está faltando esse tipo de boa vontade de fazer uma estruturação de gestão, que nenhum dos prefeitos de Cuiabá fez até agora

Quais são as responsabilidades dos prefeitos de Cuiabá? Não estruturar a atenção secundária ou básica para que ela absorva uma parte da demanda que vai para o Pronto-Socorro. E dos governadores? Não estruturar, seja na Capital ou no interior, serviços para absorver – seja ambulancioterapia, ou outra coisa. É muito complicado isso. Porque eu volto a dizer: se você pegar de 2002 a 2014, o que aumentou de serviços públicos foi que você abriu o Metropolitano – que tem 70 leitos e foi formatado para atender certas situações e acabou não definindo seu perfil – e o Hospital de Sinop. Mas este está numa região que já tinha nas duas pontas dois hospitais públicos.

 

O Pronto-Socorro de Várzea Grande é muito precário. Toda hora está em obras, toda hora está cheio e manda um monte de gente para Cuiabá. Se você fizer uma estatística como uma vez eu fiz, vai ver que 30% dos pacientes atendidos no Pronto-Socorro de Cuiabá eram de Várzea Grande. Então tem mais isso: você tem uma Capital com um milhão de problemas e ainda tem uma cidade vizinha cujo serviço de atenção básica e secundária é muito pior.

 

MidiaNews – O Hospital Metropolitano não ajudou?

 

Alexandre Guedes Não ajudou porque é um hospital de porta fechada, que em tese foi feito para cuidar de determinadas doenças, mas secundou. Antes era para fazer ortopedia. Aí depois era para fazer outra coisa. Então parece que estava fazendo bariátrica, mas não está mais fazendo. Então o hospital até poderia ser usado para ajudar em alguma coisa, mas que, por uma série de razões, como falta de pagamento, acaba não funcionando.




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ELZA QUEIROZ   02.05.17 18h30
Parabens Promotor ! conheço e admiro seu trabalho na saude publica , ja contribuiu muito salvando vidas e trazendo as melhorias possiveis neste complexo universo da saude . Poucos conhecem tao bem e podem falar com tanta competencia no assunto. Toda populaçao de MT precisa muito de sua dedicaçao e experiencia . Obrigada !ELZA
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Henrique laboissiere  02.05.17 16h31
Bela entrevista muito proveitosa e informativa mas lamento não ter tecido nenhum comentário sobre o centro de queimados desta capital que se tornou referência estadual e que foi inaugurado em 1985 com 08 leitos e perdura até hoje com os mesmos leitos isto é um absurdo pois está sempre lotado e com pacientes eventualmente no corredor do PSMC. Realmente sem vontade politica não conseguiremos nada. PARABÉNS PELA REPORTAGEM.
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Carlos Nunes  01.05.17 11h06
O maior exemplo disso tudo é o Nosso HOSPITAL CENTRAL parado na construção há mais de 30 anos...e não apareceu ninguém pra dar uma cutucada nos diversos Governadores que passaram, pra dizer: Governador, pelo amor de DEUS, toca a obra do Hospital, Governador, que tá morrendo gente. E morreram mesmo, crianças, idosos, até por falta de vaga em UTI. Brevemente essa situação vai piorar...a prioridade NÚMERO UM desse Governo vai ser o VLT. Todo dinheiro, toda atenção, vai pro VLT...pra Saúde só se sobrar dinheiro, e não vai sobrar nada, ou vai? Claro que não. Vai ficar no final da fila de prioridades.
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leni  30.04.17 14h56
Excelente entrevista!! Psrabens, Promotor! Todos os gargalos da saúde pública estadual e municipal foram aqui expostos. Aos novos gestores, bastariia estudar os pontos citados para comprrender que é possível reparar os erros cometidos em nome da gestão pública. Fazer diferente e com eficiência. Quem se habilita? É desalentador fazer parte do sistema como servidora pública, sem enxergar sequer uma luz que indique mudanças contrapondo o caos e a inércia instalados..
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