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Entrevista da Semana / AUXÍLIOS
27.04.2018 | 19h30
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"O Judiciário não é barato, mas não é ele que quebra o Estado"

Presidente do TJ, desembargador Rui Ramos diz que magistrados não têm reajustes salariais há quase uma década

Alair Ribeiro/MidiaNews

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O presidente do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, desembargador Rui Ramos

JAD LARANJEIRA
DA REDAÇÃO

O presidente do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, desembargador Rui Ramos, refuta as acusações de que os auxílios pagos aos magistrados sejam ilegais ou que provoquem impacto negativo perante o caixa do Estado.

 

Em entrevista concedida ao MidiaNews nesta semana, Ramos fez uma defesa enfática da boa remuneração dos magistrados e refutou qualquer acusação de que o Judiciário seja perdulário.

 

"Eu não tenho nenhuma dificuldade em falar sobre isso. O que ocorre é uma coisa perfeitamente compreensível. Vão dizer: ‘Vocês tem auxílio isso, auxílio aquilo’. Mas por que você acha que nós temos isso? Porque estamos indo para oito ou dez anos sem revisão de subsídios. E as coisas automaticamente te deixam brecado naquilo ali. Aquilo que nos é possível legalmente fazer, obviamente nós vamos ter que fazer. 'Ah, mas isso é excessivo'. Eu não vou discutir, não vou entrar neste campo de debate. Nós gostaríamos que tivéssemos essa revisão de subsídios e poderíamos deixar que isso não mais existisse. O que acontece é que nós ficamos privados ano a ano de poder aquisitivo. Depende do STF, que na discussão orçamentária para 2019 no Congresso, não colocou a questão de revisão de subsídios. Entende-se que é um momento de sacrifício e eu respeito. Mas nós estamos parados. Estamos indo para oito anos travados",  afirmou.

Por que que eu tenho que ter tanta incidência do Poder de Judiciário dentro das questões de Saúde?

 

O magistrado se mostrou compreensivo com os atrasos do Executivo em relação aos duodécimos, na ordem de R$ 200 milhões. Segundo ele, é preciso reconhecer que o governador Pedro Taques (PSDB) não recebeu uma “herança fácil”.

 

Ramos recebeu a reportagem nesta semana em seu gabinete. Na conversa, ele falou ainda sobre obras em Comarcas, dificuldades do Judiciário e os planos políticos de sua ex-colega de toga, Selma Arruda.

 

Veja a seguir os principais trechos da entrevista:

  

MidiaNews – De uma maneira geral, que avaliação o senhor faz a respeito da Justiça em Mato Grosso? Em relação à abrangência de Comarcas, em relação a demandas que existem, é possível afirmar que hoje o Judiciário de Mato Grosso consegue atender o cidadão a contento?

 

Rui Ramos – É um grande problema no Poder Judiciário você conseguir conciliar aquilo que é teórico, acadêmico, que é perfeito - e nós precisamos disso, dos avanços, das teorias, da equalização, da dinamização, para ser ter uma intepretação sempre atual. Mas o problema é exatamente esse: nós temos a Constituição Federal, temos as leis que estão abaixo da Constituição - e que trazem algumas coisas idealizadas. Então você transformar e trazer isso para o plano prático, o plano do mundo real, para que você atenda a sociedade, que é o grande destinatário, esse é um dos maiores problemas que nós temos.

 

MidiaNews – E como está isso na prática?

 

Rui Ramos – Todos os países aos poucos vão enfrentando isso por inúmeras razões. Como eu consigo fazer isso dentro de uma legislação que muitas vezes me trava ou me dá uma série de atribuições que são absolutamente impossíveis de se cuidar? Por que eu tenho que, em determinados assuntos, obrigatoriamente passar pelo sistema Judiciário?

 

MidiaNews - Dê um exemplo.

 

Rui Ramos - Por exemplo, há países em que o divórcio, ainda que não seja consensual, não precisa ser levado ao magistrado. Não tem mais necessidade de você ocupar o magistrado. Até porque para o casamento tem um procedimento extrajudicial. E depois tem o lado religioso, que também se resolve extrajudicialmente. 

 

Temos também as questões de Saúde, por exemplo. Por que que eu tenho que ter tanta incidência do Poder de Judiciário dentro das questões de Saúde? Talvez fosse necessário rever onde efetivamente eu preciso do Poder Judiciário e onde realmente eu não preciso. Isso se faz paralelamente quando você começa a pensar nas conciliações, etc. Até mesmo o Juizado é uma forma, embora judicializada, de você tentar simplificar para que você busque soluções sem a necessidade da tramitação de um processo, que tem um tempo de maturação. Isso é um problema.

 

Todo processo tem um tempo de maturação, ou seja, as regras que seguem até o momento da sentença. Naturalmente vai ter um tempo para que se conheça bem a causa, para poder instruir adequadamente, para que quem for julgar tenha concepção. Isso funciona assim pra gente. Mas pra sociedade, por exemplo, o que eu estou pretendendo? Olha, eu não sei bem se você vai trabalhar assim, se você precisa disso ou daquilo. O que eu preciso é de uma solução. Por que eu preciso de uma solução? Porque hoje a dinâmica do mundo é muito rápida, muito volátil - não no sentido negativo. Ela se transmuda rapidamente, em pouco tempo. 

 

MidiaNews – Então o modelo atual já está defasado?

 

Rui Ramos – Sim, estamos defasados. Porque você tem que ter a possibilidade de uma atuação mais flexibilizada em determinadas situações. Ou então nós temos que ter uma reforma –  e é pra valer. Você observa a tendência no Superior Tribunal de Justiça e no Supremo Tribunal Federal, no sentido de ter uma restrição maior nas questões dos recursos. Porque você imagina quantos recursos são recebidos pelos ministros do STJ? É humanamente impossível. Vinte e quatro horas é um período de um dia para todos.

 

MidiaNews – Há um movimento por parte do Judiciário no sentido de resolver essa questão? Ou ainda está muito difuso?

 

Rui Ramos – Eu acredito que o Judiciário está procurando soluções sim, internamente. Mas as iniciativas de leis não são atribuições do Poder Judiciário, são iniciativas do Poder Legislativo e também do próprio presidente da República. É a União quem legisla. Não tem como o Governo estadual ou Judiciário tomar essa posição. Na verdade, o que precisa é você ter uma nova ordem processual, uma nova ordem desse Direito que nós temos. Isso também não se faz. Então não posso pular do dia para a noite e apresentar essa solução. Mas tenho uma necessidade de fazer uma crítica, de que o nosso Legislativo realmente atue nesse plano para trazer uma legislação mais sensata. Eu preciso de uma legislação que seja adequada ao momento atual, ao momento histórico em que vivemos. Sem ferir garantias. Por exemplo: nós precisamos entender se pode ou não pode haver uma prisão por um julgamento feito por sentença condenatória sem o trânsito em julgado. Hoje nós estamos acompanhando todos os debates, em especial no Supremo Tribunal Federal. E nós poderíamos ter uma legislação mais clara sobre isso. 

 

Há uma pergunta meio que óbvia: se eu posso recorrer ainda, que sentido teria eu ter que começar a cumprir a pena? As diferenças não serão grandes, porém teremos que pensar nesse plano, o plano de você perceber o que significa isso para quem é acusado. Essa é a verdade. Por outro lado, uma boa parte dos países não tem toda essa possiblidade, de tantos graus de jurisdição. É 1º grau, 2 º grau, 3º grau e 4º grau, vamos dizer assim.

Alair Ribeiro/MidiaNews

Rui Ramos Ribeiro

"Eu preciso de uma legislação que seja adequada ao tempo em que vivemos"

 

MidiaNews – Essa crise econômica que se abateu no País prejudicou o Judiciário no sentido de impossibilitar abertura de novas comarcas ou até no fechamento de algumas?

 

Rui Ramos – Em Mato Grosso, nós temos que entender - e não é uma defesa, não é algo pela figura específica de determinado governador de hoje - que ele vem com consequências do passado. Não são consequências criadas a partir de 2015. Não estou defendendo o Pedro Taques, estou falando o que eu acho. Ele recebeu uma herança, correto? Quem assume, assume tudo, como se diz. Mas você solver aquelas situações que estavam lá criadas e repercutiram dentro do mandato dele não é alguma coisa que se faça em dois ou três anos. As coisas são um tanto quanto difíceis. Você tem todo o problema de legislação, tem todo problema político num Estado deste tamanho, continental, com todas as suas dificuldades. Então esse tipo de modulação dessas dificuldades e possibilidades não é alguma coisa que seja fácil de fazer. Eu acho que talvez já tivesse sido mais fácil em tempos atrás, quando as coisas eram menos complexas, as legislações eram menos complexas. Hoje, com toda essa legislação e responsabilidade fiscal que você tem, com toda fiscalização pela qual você passa, não é fácil trabalhar, nem fazer um bom governo.

 

O Judiciário, com seu poder instituído, têm lá o seu duodécimo que efetivamente, além dos dois Poderes, tem que ser atendido. Porque na verdade eles administram também, só que cada um na sua área. O Judiciário não vai começar a construir obras, pontes e etc., mas o Poder Executivo também não vai proferir sentenças. Então, na verdade, o Judiciário também administra dentro de um determinado campo, de uma determinada área específica. O Legislativo também participa da administração, porque embora não tenha construções, processos e etc., tem todo seu poder legiferante, que também é privativo. Então todos os três Poderes participam da administração do Estado. Claro que se o Estado não vai bem como um todo, em termos de arrecadação, orçamento, financeiro, os três Poderes passam a sentir as consequências. Então naturalmente nós passamos a ter condições que não são as mais favoráveis para uma boa administração. Nós temos um fundo [Funajuris] que é arrecado pelo Poder Judiciário para o Poder Judiciário, que se utiliza para construções, reformas de fóruns, equipamentos e outros. É de investimentos. Eu não posso pagar pessoal.

 

MidiaNews – Qual o valor hoje desse fundo?

 

Rui Ramos – As pessoas falam que temos R$ 400 milhões, nós não temos esse dinheiro todo. É bem abaixo. Nós não temos mais que R$ 100 milhões de jeito nenhum. E não vai sobrar absolutamente nada.

 

MidiaNews – Qual o investimento que o senhor considera fundamental para a sua gestão mas que teve que acabar deixando para mais tarde?

 

Rui Ramos – Nós podemos fazer da seguinte forma: o que eu sou capaz de fazer? Nós fizemos uma reunião de planejamento e perguntamos isso. Nós conseguimos fazer em dois anos o que exatamente? Quanto nós vamos ter de recurso para poder fazer isso? Então o que nós temos para as obras do Funajuris? Fórum de Primavera do Leste; reforma no de Guarantã do Norte; ampliação em Tangará da Serra; algumas melhorias aqui para Cuiabá; Fórum de Várzea Grande, que é insuportável; Fórum de Barra do Bugres, que está numa situação extremamente precária; Fórum de Itiquira, que ficou dependendo da continuidade da construção. Enfim, em que vamos aplicar? Nós vamos aplicar R$ 60 milhões em tecnologia da informação. Vamos investir em links porque do Médio para o Norte nós temos uma dificuldade de acesso muito grande ao Processo Judicial Eletrônico. Tem uma velocidade incompatível. Eu preciso colocar alguns mecanismos para melhorar essa acessibilidade dos advogados e ao mesmo tempo trabalhar na administração para que se aumente a velocidade para aquele plano. As empresas [de telefonia] muitas vezes não têm interesse comercial porque não é uma região muito populosa e questionam por que aumentar a velocidade. Nos usamos quase todo o Funajuris em investimento em TI e cabeamentos. Não adianta achar que vamos pegar dinheiro do Funajuris para pagar pessoal. Não temos condições de fazer isso. Voltando à sua pergunta: eu não deixei de fazer, eu apenas retardei algumas ações, mudei enfoque, fiz uma reengenharia...

Alair Ribeiro/MidiaNews

Rui Ramos Ribeiro

"O Judiciário também administra o Estado"

 

 

MidiaNews – A leis de carreiras, que muitos dizem que são ‘bombas-relógio’ do Poder Público, impactaram o Judiciário também?

 

Rui Ramos – Os servidores do Judiciário, vocês podem observar que ao longo dos cinco, sete anos, foi o que menos teve evolução em termos de carreira. Nós ficamos atrás de todos os outros Poderes, inclusive de órgãos. O Judiciário não foi o que teve a maior evolução salarial, não.

 

MidiaNews – O Tribunal anunciou no começo do ano a formação de uma comissão para avaliar o impacto dos atrasos do duodécimos, inclusive com a possibilidade de desativação e fechamento de várias Comarcas. Qual é o valor do atraso hoje?

 

Rui Ramos – Hoje se você buscar creio que está em torno de R$ 200 milhões. Começou a haver uma previsão, como foi pactuado em uma reunião em janeiro. Falou-se que não haveria repasse em janeiro. Então, dos 12 meses do ano, teríamos 11 repasses. Teriamos uma dificuldade em dezembro. Não poderia pagar fornecedores...

 

MidiaNews – Mas o Executivo está fazendo os repasses mensalmente?

 

Rui Ramos – Sim, tem passado normalmente uma parte, dia 23 ou 24, e outra logo nos primeiros dias do mês. Simplesmente nós adequamos isso sem nenhuma ilegalidade e esse plano está indo. Nós temos esse passivo, mas não é um passivo de 2017. É um passivo de 2014, 2015 e 2016.

 

MidiaNews – O senhor considera que está tratando deste assunto de uma maneira adequada, no sentido de que há muitas críticas, internas inclusive, de que o Judiciário estaria muito complacente?

 

Nenhuma vez o diálogo foi encerrado, nem prejudicado ou deixado de lado. Se eu encerro o diálogo, o que tenho que fazer é judicilizar, mas comigo pessoalmente não há dificuldade

Rui Ramos – Complacência nós não temos. O que eu preciso é ter um pouco de bom senso por causa do período que nós estamos vivendo. Eu tenho para mim que tenho atuado, neste período, com sentido público.

 

MidiaNews – Como foi o diálogo com o Executivo a respeito disso? Parece que houve muitas queixas. Houve dificuldade de sentar e conversar?

 

Rui Ramos – Nós sempre tivemos diálogo. Nenhuma vez o diálogo foi encerrado, nem prejudicado ou deixado de lado. Se eu encerro diálogo, o que tenho que fazer é judicializar, mas comigo pessoalmente não há dificuldade. O que nós temos é que muitas vezes, as reuniões que nós tivemos, envolviam uma série de dados. E tivemos que parar, estudar, para depois retornar, porque não daria para “bater martelo” da forma como estava.

 

MidiaNews – Mas se o senhor tivesse aberto mão desse perfil mais conciliador, a crise poderia estar pior? Uns defenderam até mesmo um pedido de intervenção.

 

Rui Ramos – Tem muitos Estados assim. Roraima teve esse problema, Minas Gerais teve, São Paulo, Rio de Janeiro, enfim. Eu tenho que entender que eu não sou estanque do Executivo. Eu faço parte da administração do Estado. Eu tenho que entender que lá na ponta tem as pessoas. E se eu entrar num nível de estrangulamento de debates e discussões, que eu tenha que levar para a Brasília, para resolver a nível de Supremo, eu não acho seria o melhor para a população. Eu penso assim. Posso ser criticado.

 

MidiaNews – Até há um comentário de que o próprio STF se colocaria contra esse tipo de intervenção...

 

Rui Ramos – É porque você começa a observar que isso não é um mal focalizado. Começa  a ver que dentro do Brasil ele começa a ter uma série de instabilidade e é preciso manter as instituições. Então isso não vai passar fora da sensibilidade do julgadores. Eles entendem.

 

 MidiaNews – Num passado recente o senhor deu uma endurecida, notificou o governador dando um prazo para o repasse.

 

Rui Ramos – Tive que notificar, mas ele cumpre. Eu tenho um limite e, quando chega a esse limite, notifico e ele atende. Mas é como eu disse: não posso imaginar que seja um crédito particular que eu esteja recebendo. Isso aqui tem uma série de envolvimentos, uma série de consequências que é da administração pública.

 

MidiaNews – Como o senhor vê a gestão do Estado atualmente? 

 

Rui Ramos – Bom, o Estado de Mato Grosso eu vejo da melhor forma possível. No sentido de futuro, acho que estão sendo feitas correções. A correção de 100% é praticamente impossível, mas, como você mencionou, nós tivemos uma boa moralização e nós tivemos uma convergência de boas ações que estão sendo realizadas ainda. E eu não estou entrando no lado político-partidário, vejo isso como cidadão. Tem as dificuldades de Saúde, de Segurança, enfim. Eu digo sempre que a questão de Segurança Pública passa aqui dentro do Judiciário.

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Rui Ramos Ribeiro

"Creio que as iniciativas são adequadas para o momento que estamos passando"

 

Então eu entendo que este Estado é promissor, ele está se encaminhando melhor. Eu não posso esquecer que a herança que o governador recebeu não era uma herança fácil, com determinados detalhes como dívidas em dólares e etc. Isso nós somos obrigados a admitir. E isso impacta em nós. Fica difícil imaginar se quem teria sido melhor, se alguém teria sido melhor em resolver as coisas. Eu tenho assistido uma série de ações, de moralizações...

 

MidiaNews – Mas não são necessárias reformas?

 

Rui Ramos – Nós estamos no aguardo de uma reforma administrativa. Essas coisas não se fazem em um ano ou outro. Isso é uma coisa que vai ter que ser sedimentada ao longo do tempo. Eu creio que as iniciativas são adequadas para o momento que estamos passando, porque se não tivessem sido tomadas, como que nós estaríamos aqui? E eu não vi ninguém demonstrar que se trata de inverdades, falácias ou imprecisões. O que nós temos é um Estado que tem uma enorme arrecadação, mas também tem um custo muito alto, inclusive com o funcionalismo público. É preciso equacionar. Então quem seguir, ou se for o próprio Pedro que for reeleito, talvez num segundo momento, ele consiga coordenar melhor tudo. E com mais tempo melhore. Eu acredito o Estado vai melhorar e melhorar muito.

 

MidiaNews – O senhor é a favor da continuidade da atual gestão do Executivo?

 

Rui Ramos – Eu tomo por base o seguinte: eu fiquei quatro anos no TRE (Tribunal Regional Eleitoral). Em 2009 como corregedor e vice-presidente; em agosto de 2010 acabei assumindo interinamente a presidência e fiquei assim até abril de 2013. Ficando quatro anos tive condições de acompanhar e dar prosseguimento a tudo que estava sendo iniciado alguns anos atrás. Eu acho que quatro anos de uma vez só [no caso do Governo], como dois anos no nosso, é muito pouco, porque nós demoramos um tempo até o ajuste. E até conseguir [esse ajuste], você perde um pouco de tempo. Mas quem tem o voto é a população, é o eleitor. E é a escolha deles.

 

MidiaNews – Uma vez ou outra esse discurso de pró-moralização dos serviços públicos envolve a figura do magistrado. Fala-se em supersalários que estariam acima do teto constitucional, fala-se em auxílio-moradia, auxílio-livro. Enfim, esse questionamentos em cima do que os juízes ganham, como o senhor se insere nesse debate?

 

Rui Ramos – Eu não tenho nenhuma dificuldade em falar sobre isso. O que ocorre é uma coisa perfeitamente compreensível. Vão dizer: ‘Vocês tem auxílio isso, auxílio aquilo’. Mas por que você acha que nós temos isso? Porque estamos indo praticamente para oito ou dez anos sem revisão de subsídios. E as coisas automaticamente te deixam brecado naquilo ali. Aquilo que nos é possível legalmente fazer, obviamente nós vamos ter que fazer. 'Ah, mas isso é excessivo'. Eu não vou discutir, não vou entrar neste campo de debate. Nós gostaríamos que tivéssemos essa revisão de subsídios e poderíamos deixar que isso não mais existisse. O que acontece é que nós ficamos privados ano a ano de poder aquisitivo. Depende do STF, que na discussão orçamentária para 2019 no Congresso, não colocou a questão de revisão de subsídios. Entende-se que é um momento de sacrifício e eu respeito. Mas nós estamos parados. Estamos indo para oito anos travados.

 

MidiaNews – Então esses auxílios acabam sendo uma maneira de compensar?

 

Rui Ramos – É porque você começa a ver as perdas. Um plano da Unimed para um servidor que está aqui dentro, se você for ficar travado, provavelmente não vai pagar mais. E então ele vai perder aquele plano. Ou seja vai definhando. Você não consegue segurar ninguém assim. São seres humanos. Então é uma forma de no mínimo amenizar uma situação que não tem mais como ficar. É isso que se faz.

 

Eu não tenho condições de demonizar o Judiciário e falar que ele é o grande problema de tudo

A questão do auxílio-moradia nos era permitido. Então não posso dizer que é ilegal. ‘Ah, mas é imoral’. Bom, isso aí é uma dificuldade de discussão. Porque o que para uns é imoral, antiético, para outros não é.

 

O problema é que eu preciso ajustar. Porque você queira ou não queira, aqui nós sofremos limitações. Eu não posso começar a sair daqui 16 horas para ir “cuidar da minha lanchonete”. O que eu posso fazer é dar aulas. São coisas limitadíssimas. A ideia é uma só: ter a sua capacidade física e mental reservada para a Magistratura. Nem síndico eu posso ser.

 

O magistrado tem que se atualizar, tem que comprar livros, tem que ter condições de estudar, condições de vestimenta. Não há lugar em que você possa ir de camiseta ou sapatênis ou de bermudão. Você é obrigado a ter que gastar - e não é porque você quer. Então essa discussão é ampla. Eu preciso de alguma coisa equalizada, compatível, razoável... Se não, vai-se chegar a uma situação em que a pessoa vai pensar: tenho duas pós-graduações e vou continuar aqui para ganhar R$ 10 mil, R$ 12 mil? Eu vou para a iniciativa privada. Algumas coisas precisam ser equalizadas, não podem ser feitas “nas coxas”, não! Eu não tenho condições de demonizar o Judiciário e falar que ele é o grande problema de tudo, que é perdulário, que é o causador.

 

Não é o Judiciário que “quebra” o Estado ou o País. O Judiciário pode não ser barato, mas não é ele quem “quebra” o Estado. Imagina que o dinheiro que se paga ao Judiciário é aquele que vai salvar tua saúde, vai salvar teu transporte público. Você não pode tirar esse direito das pessoas. E as pessoas não vão mais ter interesse em trabalhar aqui, elas vão sair. E vamos trabalhar com pessoas que não estão preparadas, ou que vão demorar muito tempo para serem preparadas, as quais quando perceberem que estão no melhor patamar dirão ‘não me interessa ficar aqui’. Vemos isso com os estagiários. Ele entra aqui “razoavelmente cru” e quando começa a trabalhar, é convidado para um escritório para ganhar o dobro. E você não pode impedir que ele faça isso. Então o apelo que faço é que entendam que as coisas não podem ser feitas como se fosse gerenciar uma barraca de feira – e eu não estou diminuindo o trabalho, nem a profissão das pessoas, por favor!. Isso aqui é de uma complexibilidade muito grande.

 

  

Alair Ribeiro/MidiaNews

Rui Ramos Ribeiro

"Apenas não gosto nada de extremo par menos nem extremo para mais"

MidiaNews – Recentemente a juíza aposentada Selma Arruda deu uma entrevista ao MidiaNews em que manifestou um desconforto que ela sentia enquanto magistrada, quanto aos resultados dos trabalhos dela. Ela usou o termo “enxugando o gelo”. E falou que era um sentimento generalizado no Judiciário.

 

Rui Ramos – Não! Eu particularmente respeito a opinião dela. Mas eu acho que são formas de ver a Magistratura. Tem muita gente que pensa assim, porque muitas vezes você não tem a sensação de um trabalho cumprido. Você termina um e já tem outro igual. Então talvez não dê essa sensação, o prazer, como por exemplo se tivesse visto uma obra acabada. Não há como ficar tranquilo aqui. Porque terminamos um, mas ainda temos 3 ou 4 para cumprir. E aí por mais que você faça, que trabalhe bem, parece que não atingiu o objetivo. E você pensa ‘pô, tô enxugando gelo’. Bem-vindo ao mundo (risos). O mundo é assim. Se não fosse assim, seríamos [nota] 10, não teríamos problema nenhum. Não estou dizendo que ela não esteja certa, mas há dias em que somos diamantes e há dias em que somos pedras.

 

MidiaNews – O senhor acha interessante esse movimento dela de ir para a Política?

 

Rui Ramos – Eu acho ótimo que ela busque essa vida num outro Poder, que seja Legislativo ou Executivo, não sei exatamente. Mas eu acho ótimo que colegas que tenham deixado a Magistratura ingressem e conheçam esse mundo. E se puderem, se for possível, ainda tenham a lembrança da importância do Poder Judiciário. Certamente ela se recordará.

 

MidiaNews – Como o senhor vê essa questão dos juízes “mitos” ou “estrelas”?

 

Rui Ramos – Eu não tenho nada a dizer, apenas eu não gosto nada de extremo para menos nem extremo para mais. Então para você encontrar muitas vezes o equilíbrio, você tem que ter algumas coisas bem extremadas. Eu sempre quis aprender e me manter numa posição mais equilibrada. Acho que isso é sempre o melhor. Os exageros vão sempre ocorrer, é do ser humano. Mas eu fico sempre me pautando pelo posicionamento central, e acho que as coisas se corrigem com o tempo. O conhecimento é um amadurecimento para o juiz e para todo o Judiciário. Então amadureça por vocês, que nós amadurecemos com vocês.

 

MidiaNews – Há previsão de concurso na sua gestão?

 

Rui Ramos – Há sim. Deve sair um edital para juízes e para servidores. Porque daqui para um período inferior a uma década, nós vamos ter muita gente se aposentando. Então vamos ter que custear os aposentados e recrutar outros. Nós estamos abrindo inicialmente para juiz dez vagas ou até mais. E para servidores ainda temos que ver.

 

MidiaNews – A respeito de um suposto anexo relacionado à delação do ex-governador Silval Barbosa investigando magistrados. Comenta-se que o senhor teria recebido um comunicado do Supremo a respeito disso.

 

Rui Ramos – Isso foi há uns meses atrás. Eu cheguei até a tirar uma certidão, porque não aguentava mais o pessoal falando. Então se falar que era mentira, seria quem emitiu a certidão. Não existiu absolutamente nada. Disseram que eu tinha recebido no começo de fevereiro, não tem nada disso comigo, não. Ouço falar desses anexos, mas conheço aquilo que vocês publicam. Então estou no aguardo, porque sinceramente não recebi nada. Não sei de onde surgiu, mas nós ficamos uns dez dias atrás, querendo saber se havia chegado.

 

 




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25 Comentário(s).

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Walter  04.05.18 10h04
Brasileiro precisa ser estudado. É o povo que odeia político mas ama o Estado grande. Espera que a solução venha do Estado mas não gosta dos salários dos Juízes. Povo tem que entender que para o juiz ganhar menor o Estado tem que encolher. Enquanto ele abocanhar 40% do Pib, menos sobra para os bolsos do Povo e consequentemente mais poder fica concentrado para os burocratas nadarem de braçada...
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sediclaur  30.04.18 10h46
Não é só o judiciário que quebra o estado mas é ele também junto com os outros poderes, todos inoperantes e que já não representam a sociedade e sim seus próprios interesses. Isso precisa ser mudado nos nossos dias atuais.
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ALEX R  30.04.18 08h14
Judiciario é o Maior Elefante branco do país...
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Alves  30.04.18 01h20
Pois é, vossa excelência precisa sair as ruas , para ouvir e sentir a afrisão do cidadão matogrossense. Só quem espera por uma decisão da justiça sabe quanto custa a justa justiça deste país.
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Geraldo Ducarmo da Silva  29.04.18 20h12
Acho que o presidente do TJMT, está perdendo uma grande oportunidade ser o melhor presidente deste tribunal. porque Eu veja a justiça celebrando convêios com prefeituras, governos para recebimentos de créditos, as vezes um ou dois anos atrasados. enquanto tem varas abarrotados de processos que tem mais de 10,14 anos mofando sem decisão definitivas. porque não fazer um mutirão também?.
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