Cuiabá, Terça-Feira, 18 de Dezembro de 2018
HOSPITAL DE CÂNCER
17.02.2018 | 21h00 Tamanho do texto A- A+

"Não temos reconhecimento, principalmente por parte do Estado"

Laudemi Nogueira, presidente da unidade médica, fala das dificuldades financeiras e da satisfação de ajudar a salvar vidas

Alair Ribeiro/MidiaNews

O presidente do Hospital do Câncer, Laudemi Nogueira, trabalha na instituição desde sua crianção, em 1999

BIANCA FUJIMORI
DA REDAÇÃO

O Hospital de Câncer de Mato Grosso tem convivido cotidianamente com o risco de colapso, dada a falta de recursos, que já era frequente e piorou nos últimos meses. Assim como outras instituições filantrópicas, também está em crise e sofrendo com a falta de repasses do Governo do Estado. 

 

"Nós não temos nenhum reconhecimento, principalmente por parte do Governo do Estado", lamenta o diretor-presidente do hospital, Laudemi Moreira Nogueira.


Segundo ele, diferente do que ocorreu com outros filantrópicos - que chegaram a parar os atendimentos em janeiro -, o Hospital de Câncer se manteve aberto em razão do compromisso profissional com os pacientes.

 

"Lidamos com um tipo de patologia que não tem como suspender um procedimento quimioterápico. Não tem como adiar uma cirurgia de um tumor cancerígeno, que já começa a tomar dimensões absurdas", explica Nogueira, que recebeu o MidiaNews em seu escritório.

 

Apesar das dificuldades, o diretor - que está na unidade desde a sua fundação - se sente gratificado pelo trabalho que desempenha.

Quando você tem dificuldade de pagar o seu fornecedor, você tem dificuldade de dispensar ao paciente o tratamento que ele precisa

 

“Estou desde o inicio aqui e me sinto abençoado por ter oportunidade de fazer esse trabalho, que permite que muitas vidas sejam salvas. Já vi muitas histórias tristes e muitas alegres de superação. Tem muita história bonita de crianças, de idosos...", afirmou.

  

Confira os principais trechos da entrevista:

 

MidiaNews - A crise pela qual passa o setor de Saúde está atingindo o Hospital de Câncer?

 

Laudemi Moreira Nogueira - Não tenha dúvida. A estrutura acaba ficando comprometida. Quando você tem dificuldade de pagar o seu fornecedor, você tem dificuldade de dispensar ao paciente o tratamento que ele precisa. Nós não paralisamos o nosso atendimento como os outros em mãos filantrópicas.

 

Não porque a nossa situação esteja melhor, mas porque nós lidamos com um tipo de patologia que não tem como suspender um procedimento quimioterápico. Não tem como adiar uma cirurgia de um tumor cancerígeno, que já começa a tomar dimensões absurdas.

  

A  exemplo de outros hospitais filantrópicos, a situação é crítica. Para você ter uma ideia, o último pagamento que nós tivemos se refere à produção do dia 25 de novembro.

 

MidiaNews - Quanto o Hospital tem a receber do Estado?

 

Laudemi Moreira Nogueira - De serviço entregue, nós já temos aproximadamente R$ 6 milhões. Efetivamente atrasado nós temos uma produção em torno de R$ 2,9 milhões, 3 milhões. Isso de produção normal. Aí, há procedimentos que extrapolaram o teto e que somam aproximadamente mais de R$ 1 milhão.

 

A questão financeira sempre foi um problema. Nenhuma entidade filantrópica do Brasil, na área da saúde, está com suas contas no azul. Ao contrário. Todas estão penduradas em banco, com salários parcialmente atrasados. É muito difícil a situação dos hospitais filantrópicos no Brasil.

 

MidiaNews - Acha que falta reconhecimento dada a importância do hospital?

 

Laudemi Moreira Nogueira - Total. Nós não temos nenhum reconhecimento, principalmente por parte do Governo do Estado de Mato Grosso, da importância dessa instituição para a sociedade. Não há nenhuma retribuição. Ao contrário: somos duramente criticados pela estrutura do Governo estadual. Acredito que seja mais a questão ideológica de quem está à frente do processo, porque o secretário de Saúde do Estado de Mato Grosso [Luiz Soares], pelo que eu saiba, não conhece o Hospital de Câncer, ele nunca esteve aqui pessoalmente.

 

MidiaNews - Quantos funcionários tem o hospital? Qual o orçamento?

 

Laudemi Moreira Nogueira - Funcionários diretos são 475 e indiretos, aproximadamente 150. O orçamento é de aproximadamente R$ 4,5 milhões ao mês.

 

MidiaNews - O hospital atende quantos pacientes por mês?

 

Laudemi Moreira Nogueira - O paciente oncológico é diferente. Ele vem várias vezes. Do momento em que é confirmado o câncer até a cura, ele fica até cinco anos aqui dentro. Então ele só será considerado curado cinco anos depois da última intercorrência. Mas para você ter uma ideia, nós tivemos no ano de 2017 em torno de 130 mil atendimentos. Falo de atendimentos, não é de pacientes. Porque o paciente passa pela consulta, por exames, ele passa por uma cirurgia. Em média você tem 4 ou 5 atendimentos por paciente. Mas há pacientes que têm muito mais. Há paciente crônico, com dores crônicas, que vem de manhã, à noite...

 

MidiaNews - Como estão as campanhas de arrecadação de donativos para o hospital?

Alair Ribeiro/MidiaNews

Laudemi Moreira Nogueira Diretor Hospital de Câncer

"Se não fossem as doações, o Hospital de Câncer não existiria"

 

Laudemi Moreira Nogueira - Essas campanhas são permanentes. Nós temos várias parcerias com outras instituições, com empresas privadas, com colégios. O Hospital de Câncer, sem falsa modéstia, é uma das instituições mais respeitadas pela sociedade mato-grossense. Destes atendimentos que nós fazemos, cerca de 65% vão para o interior. Ele é voltado para pacientes do interior. No ano passado fizemos campanha de prevenção em 87 Municípios. Nós atendemos 26.798 pessoas. Dessas, 1.887 foram encaminhadas para o Hospital de Câncer. 

 

Nós fizemos campanha de prevenção oncológica em 87 Munícipios de Mato Grosso no ano passado a custo zero para o Governo. Isso não tem custo para o setor público. Isso é bancado pela sociedade. No ano de 2016, nós arrecadamos cerca de R$ 5 milhões com leilões no interior.

 

Se não fossem essas doações, o Hospital de Câncer não existiria. Não há nenhuma ajuda por parte do Governo nem federal, nem estadual e nem municipal. Nós ainda não recebemos a UTI do mês de novembro, que é o Governo do Estado que repassa para o Município de Cuiabá pagar os hospitais. Nós estamos falando de UTI, não estamos falando de banco de praça.

 

MidiaNews - O hospital também recebe doações. Como a pessoa pode fazer para ajudar?

 

Laudemi Moreira Nogueira - Nós temos um setor no Hospital de Câncer, o departamento de captação, temos as redes sociais, que tudo isso já está muito publicizado, muito enraizado na sociedade. Temos toda a relação de contatos que divulgam nas redes sociais. Nós temos Facebook, toda uma estrutura. O hospital é todo departamentalizado, muito organizado.

 

Temos também a campanha de doação na conta de energia. Existe uma ficha que a pessoa pode preencher. Você pega sua conta de energia e autoriza a doar R$ 5, R$ 10, R$ 15 ou o valor que você quiser. Coloca o número da sua unidade consumidora, assina e entrega aqui no hospital. Nós transformamos isso em meio magnético e mandamos para a Energisa.

 

MidiaNews - Que tipos de produtos que o hospital prefere receber?

 

Laudemi Moreira Nogueira - Nós recebemos muita doação de alimentos, que é o fundamental. Medicamentos são poucos por conta do tipo. É um medicamento de alto custo, controlado. No caso de dor, é extremamente controlado porque usuários de drogas podem acabar fazendo uso [indevido]. Medicação praticamente não recebemos. O que recebemos muito são alimentos. A sociedade tem correspondido muito. E também tem doações de bens. Por exemplo, estamos com a UTI semipronta, 100% doada pela sociedade mato-grossense. Ela vai ficar em torno de R$ 2,8 milhões. Acredito que em 90 dias estará prontinha aguardando credenciamento por parte do Poder Público.

 

MidiaNews - Recebe dinheiro também?

 

Laudemi Moreira Nogueira - Pouco. A doação em dinheiro é sempre através desses eventos como leilões, várias comunidades realizam bingos. De onde menos vem doação é de Cuiabá, da Baixada Cuiabana. É a que menos contribui.

 

MidiaNews - Por que isso acontece?

 

Laudemi Moreira Nogueira - Eu acho que é uma leitura equivocada, porque muitas pessoas imaginam que isso aqui é do Governo. Várias vezes nós já tivemos essas discussões aqui. As pessoas, às vezes um pouco agressivas com um atendimento que ficou tardio, fala: “É por isso que não funciona, isso aqui é do Governo. Tudo do Governo é assim”.

 

MidiaNews - Qual o perfil dos pacientes?

 

Laudemi Moreira Nogueira - A nossa maior clientela é adulta. A maior incidência é de câncer de mama em mulheres acima de 50 anos. Nós temos também muito câncer de colo de útero. Em homem a maior incidência é próstata.

 

MidiaNews - A maioria dos pacientes é homem ou mulher?

 

Laudemi Moreira Nogueira - Eu acredito que seja quase equivalente, é muito próximo. No global eu acredito que seja meio a meio.

 

MidiaNews - Como o senhor relata a experiência de trabalhar no Hospital de Câncer?

Alair Ribeiro/MidiaNews

Laudemi Moreira Nogueira Diretor Hospital de Câncer

 "O perfil do paciente oncológico é diferente. Ele não fica doente sozinho"

 

Laudemi Moreira Nogueira - Eu me sinto gratificado a Deus pela oportunidade que eu tive de estar aqui. Participo do projeto do hospital desde a abertura, desde os primeiros passos para que esse prédio pudesse ser transformado em hospital lá em 1998, como voluntário. Durante 15 anos como voluntário sem nenhum tipo de remuneração. Ao contrário: tirando dinheiro do próprio bolso muitas vezes para viajar para o interior, para ir para Brasília atrás de credenciamento. Eu estou desde o inicio aqui e me sinto abençoado por ter oportunidade de fazer esse trabalho que permite muitas vidas sendo salvas.

 

MidiaNews - São muitas histórias marcantes, não é mesmo?

 

Laudemi Moreira Nogueira - Já vi muitas historias tristes e muitas alegres de superação. Tem muita história bonita de crianças, de idosos. Dias atrás mesmo estive em uma cidade do interior e conheci um paciente do Hospital de Câncer. Poucos dias depois ele estava aqui nos corredores em um retorno de uma consulta. Ai já fiquei sabendo que ele estava na UTI e, praticamente, foi considerado morto. E acho que com a vontade, aquela força que a gente não sabe definir, ele deu a volta por cima. Encontrei com ele dias atrás aqui nos corredores. Ele não fala mais por conta da cirurgia que teve que fazer. Mas estava bem, corado, bonito, alegre, sorrindo. Teve câncer no esôfago e por isso perdeu a fala. Mas ele nos convidou, a mim e o médico que cuidou dele, para irmos a um almoço em sua casa lá no interior. E nós vamos! Isso é uma coisa muito bonita: essa ligação do hospital com os pacientes.

 

MidiaNews - Como é conviver com o paciente de câncer? 

 

Laudemi Moreira Nogueira - O perfil do paciente oncológico é diferente. Ele não fica doente sozinho, mas ele também não cura sozinho. A cada melhora dele, todo o entorno melhora junto. E quando ele alcança a cura, todo mundo, os amigos, o ambiente de trabalho, também. Porque o estigma é muito pesado. Quando a pessoa recebe o diagnóstico de câncer, nós temos isso como cultura, ele é considerado morto. E isso não é verdade. É como se fosse o fim, mas não é. Mas o processo é muito dolorido. É dura a vida do paciente oncológico. E se não fosse uma instituição como essa, onde as pessoas teriam esse atendimento em Mato Grosso? O nosso fundador, o doutor José Leite de Figueiredo, o primeiro oncologista de Mato Grosso, dizia: “Devemos cuidar bem das pessoas para que elas acreditem no tratamento que é dado a elas”. Por isso o nosso lema é: "Cuidar de gente e salvar vidas".

 

MidiaNews - O paciente com câncer recebe, aqui, algum tratamento psicológico para aceitar a doença?

  

Laudemi Moreira Nogueira - Nós temos uma equipe de psicólogos que acompanham o paciente. Não é fácil. Precisava ter um número muito maior porque o volume de pacientes é muito grande e o hospital não tem estrutura financeira para manter um quadro nessa quantidade. Mas temos um grupo de psicólogos que acompanham os pacientes, tem assistente social e tudo.

 

 

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11 Comentário(s).

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Fabiana   24.02.18 06h44
Vou fazer o cadastrar a minha conta de energia !!!!
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Graci Ourives de Miranda  22.02.18 22h40
O governo está preocupado em estabelecer no poder, é lamentável. Vidas? SÓ PARA VOLUNTÁRIOS E PARA PROFISSIONAIS. GRACI ourives DE Miranda
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Gustavo Bouret  19.02.18 11h55
Os que faleceram não psicografam na internet, mas quem sabe....Infelizmente meu pai faleceu por demora no atendimento, cada vez que ele ia pra ser atendido tinha um novo problema com o especialista. Com o descaso mais parece que é tudo um faz de conta, paciente acha que vai ser curado e hospital faz de conta que resolve... Pode melhorar com uma nova gestão.
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Ruy Sousa Ojeda  18.02.18 20h26
A função do Hospital do Cancer de MT, precisa sim ter o reconhecimento do Governo do Estado, pois os atendimentos realizados pela instituiçao de saúde extrapolam as fronteiras de Mato Grosso. Os funcionários são capacidados dentro de um padrão de excelência, equipamentos e instalações de primeiro mundo. Tive a sorte, a felicidade de ser atendido pelo HCan MT e com propriedade faço tal relato. Lamento q exista uma campanha direcionando arrecadações de grandes leilões beneficentes para o interior de São Paulo, sendo q possuimos no estado uma estrutura q logisticamente é melhor servida para atender pacientes da região. Mato Grosso ainda irá reconhecer a importância do HCan de Cuiabá para nossa população.
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Geovani  18.02.18 20h20
Muito obrigado, por existir e ajudar a população de uma forma em geral mesmo com descaso dos GOVERNANTES.
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