Cuiabá, Quarta-Feira, 19 de Dezembro de 2018
RAIO-X DO SETOR
05.05.2018 | 19h30 Tamanho do texto A- A+

"Não houve avanço nenhum, mas colocamos a Saúde no eixo"

Secretário Luiz Soares diz que tenta resolver problema de descontinuidade na política de Saúde

Alair Ribeiro/MidiaNews

O secretário Luiz Soares, que destacou repasses em dia aos municípios

LUCAS RODRIGUES
DA REDAÇÃO

Há pouco mais de um ano no comando de uma das secretarias mais criticadas da gestão do governador Pedro Taques, o secretário de Estado de Saúde, Luiz Soares, garante que colocou a Pasta em uma situação muito melhor do que a encontrou.

 

Com uma sinceridade peculiar, ele admite que não houve avanço nenhum em sua gestão, uma vez que se concentrou em colocar a Saúde do Estado "no eixo".

 

"Eu não vejo avanço nenhum. O que eu vejo é uma operação de colocar no eixo algo que foi tirado desse eixo nos últimos 12, 13 anos. Não tem avanço. O esforço nosso é colocar no eixo. O próprio governador tem dito publicamente uma coisa: 'girar a chave da Saúde'. A partir do ano passado, foi girada a chave da Saúde. Tem muita coisa para fazer e o ano passado não foi um ano muito bom por conta da gravíssima recessão que o País passou a viver desde 2015. Isso gerou impacto nas receitas dos Estados, dos Municípios, e não foi diferente no Estado de Mato Grosso", disse ele, enquanto pitava um cigarro em seu gabinete. 

 

Luiz Soares destacou que uma das melhorias de sua gestão foi conseguir regularizar os repasses aos Municípios e diminuir pela metade a judicialização da Saúde, cumprindo as decisões liminares em favor dos pacientes.

O que eu vejo é uma operação de colocar no eixo algo que foi tirado desse eixo nos últimos 12, 13 anos. Não tem avanço. O esforço nosso é colocar no eixo

 

"Esse ano todos os repasses não obrigatórios para com os municípios, de janeiro, fevereiro, março e abril, estão rigorosamente em dia [...] Em 2016 existiam seis mil processos judiciais. Em 2017 reduzimos para três mil. E não vai acabar, judicialização é algo que veio para ficar. Quando você tem um sistema minimamente funcionando, você reduz a judicialização", afirmou.

 

Leia a íntegra da entrevista:

 

MidiaNews – Qual a situação da Saúde hoje?

 

Luiz Soares – A situação está muito melhor do que antes de a gente assumir. Os problemas de ontem muitos estão resolvidos. Hoje são outros problemas. Conseguimos arrumar o cenário geral, de equipamentos, farmácia de alto custo, hospitais paralisados...

 

MidiaNews – É possível dizer que a Saúde do Estado saiu da UTI? O que precisa arrumar ainda?

 

Luiz Soares - Nós precisamos avançar. Construir, ir para frente, mas ainda resolvendo problemas.

 

MidiaNews -  Mas quais são especificamente os problemas que ainda precisam ser arrumados?

 

Luiz Soares – Os problemas da secretaria são os problemas do SUS [Sistema Único de Saúde]. Há dois macroproblemas. Um é a descontinuidade de gestões. Como não é uma política de Estado, mas uma política de Governo, quando muda o Governo muda-se tudo. Esse é um gravíssimo problema do SUS. O segundo é o subfinanciamento, onde se agrega a corrupção. O dinheiro é pouco e muitas vezes é roubado. Quando não é roubado diretamente, é mal aplicado por ingerências políticas, sem que tenha o olhar de chegar na ponta, no usuário, no cidadão. Esses são os dois maiores problemas que tem o SUS.

 

MidiaNews -  Essa situação de corrupção por meio do subfinanciamento ocorre aqui no Estado?

 

Luiz Soares – Não é um problema do Estado, mas do Brasil em geral. Aqui há também. Diante do que era a necessidade apontada em abril de 2017, de dispêndio financeiro do Tesouro do Estado, já reduzimos e muito sem fechar serviços. Pelo contrário, até ampliamos serviços. Nem sempre é corrupção, mas desvio de finalidade. Muitas vezes o dinheiro é mal gasto. E dinheiro mal gasto quando o dinheiro é pouco, ele não rende o que ele pode render.

 

MidiaNews -  Com qual orçamento o senhor trabalha esse ano? É suficiente?

 

Luiz Soares – Orçamento é papel. Dinheiro é dinheiro. O orçamento da secretaria, grosso modo, é de R$ 1,5 bilhão, mas não tenho de cabeça o valor exato. Pagando a folha de pagamento, sobra um pouco mais do que a metade. Sobra um valor pequeno. Desse valor, o Estado contribui, de forma não obrigatória, com repasses aos municípios de mais 50% do que sobra. Então sobram 25% para o custeio.

 

MidiaNews – A gestão da Saúde no Estado é muito criticada por demora em cumprir liminares, atrasos nos repasses, dentre outros problemas. Como o senhor reage a isso?

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Luiz Soares

"O dinheiro é pouco e muitas vezes é roubado. Quando não é roubado diretamente, é mal aplicado por ingerências políticas"

Luiz Soares – Eu acho que crítica em um sistema democrático é perfeitamente normal. Eu fico sempre atento quando há boas ideias para ajudar a melhorar. Porque isso não é um esforço do indivíduo, aliás, essa gestão é uma gestão compartilhada, colegiada. E todos esses resultados em um ano e pouco tem esforço coletivo. São profissionais que integram uma equipe que tem conteúdo profissional, técnico, e compromisso com o serviço e com o cidadão. As críticas eu vejo com bastante naturalidade.

 

MidiaNews – Mas quanto aos atrasos nos repasses às prefeituras?

 

Luiz Soares – Esse ano todos os repasses não obrigatórios para com os municípios, de janeiro, fevereiro, março e abril, estão rigorosamente em dia.

 

MidiaNews – Quais são os maiores gargalos hoje? É falta de médicos, equipamentos, remédios?

 

Luiz Soares – Temos déficit de leitos hospitalares, problemas também na mão de obra disponível no mercado de trabalho. Mais da metade dos médicos estão concentrados em Cuiabá. Por óbvio, quem mora mais distante, no interior, quer que tenha tudo em seu hospital. Mas nunca vai conseguir. Essa situação nós vamos viver por mais 100 anos enquanto você trabalhar nessa visão da medicina de especialidades. Muitos municípios não dão conta de fazer a atenção primária, para promover a Saúde, controlar os agravos, que são as doenças.

 

Nós temos uma realidade, e essa realidade, se você abre para o Brasil, mais de 50% da mão de obra médica disponível no mercado de trabalho estão em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Esses três Estados não significam 50% da população brasileira. É uma concentração. Trazendo para Mato Grosso, é a mesma realidade em Cuiabá.

 

MidiaNews – Há uma forma de descentralizar isso? O que a secretaria está fazendo nesse sentido?

 

Luiz Soares – No grau de especificidades que chegou a Medicina, daqui a 100 anos vai continuar do mesmo jeito. Você não vai conseguir colocar em cada município de Mato Grosso pelo menos um médico para cada uma das 60, 70 especialidades médicas. Mas precisamos trabalhar nessa organização. Isso também demonstra que a ingerência política só atrapalha.

 

Um exemplo é que você tem quatro hospitais em um raio de 300 km, dois eram estaduais e dois municipais que estadualizaram no passado. Você tem Sorriso, Sinop, Colíder e Alta Floresta. Mas não tem nada no Vale do Araguaia. Não tem nada na região do Parecis. Não foi feito um planejamento para distribuir isso. Você percebe claramente que esses hospitais só foram estadualizados por pressão dos políticos. Concentrou em uma região só, enquanto há áreas completamente desassistidas.

 

MidiaNews -  Essa má distribuição é fruto de más escolhas políticas, de políticos querendo mostrar serviço na base que vota neles?

 

Luiz Soares – É isso. Como a secretaria nesses últimos 12 anos perdeu a capacidade de formulação mínima de uma política hospitalar, você tem esse cenário. E é esse cenário que essa equipe valorosa de dirigentes está tentando organizar, trabalhando duro para poder dar respostas. E os problemas de ontem já não são os de hoje. Você tinha hospitais paralisados, hoje você tem hospitais funcionando. Mal e parcamente fazendo aquilo que ele se propõe a fazer, não dá conta de fazer tudo, mas muito está sendo feito.

 

Centenas, milhares de cirurgias ortopédicas nesses hospitais estaduais, gestações, cirurgias de urgência e emergência, cirurgias de traumas de pessoas acidentadas, feridas. Salvando muitas vidas pelo Estado. São ótimos hospitais? Longe disso. São hospitais que estão sendo recuperados, longe de levar nota máxima, mas é resultado de um esforço coletivo de um ano de trabalho.

 

Mais da metade dos médicos estão concentrados em Cuiabá. Por óbvio, quem mora mais distante, no interior, quer que tenha tudo em seu hospital. Mas nunca vai conseguir

MidiaNews -  Os problemas da Saúde nessa gestão poderão atrapalhar a possível reeleição do governador Pedro Taques?

 

Luiz Soares – Eu acho que já esteve pior. Não discuto sobre política, só sobre a política de Saúde.

 

MidiaNews – Em que situação está a judicialização da Saúde no Estado?

 

Luiz Soares – Em 2016 existiam seis mil processos judiciais. Em 2017 reduzimos para três mil. E não vai acabar, judicialização é algo que veio para ficar. Quando você tem um sistema minimamente funcionando, você reduz a judicialização. Quando o sistema está muito ruim, anima a judicialização. Mas ela veio para ficar, pois é um direito do cidadão. Cabe ao gestor correr atrás de organizar o sistema para diminuir essa situação.

 

Em um volume muito intenso, impacta a gestão, porque você acaba tendo que cumprir, sem ter a previsão daquela medida, daquela situação específica, daquele serviço específico para atender uma pessoa em detrimento de centenas, de milhares, que são atendidas  e poderiam ser atendidas. A judicialização é uma demanda individual. O princípio constitucional do SUS é a universalidade e a equidade, ou seja, a igualdade no tratamento de todos, que têm o direito de ser atendidos da mesma forma. Quando você individualiza, você quebra esse princípio.

 

MidiaNews – A judicialização impacta as contas da secretaria?

 

Luiz Soares – É um volume muito alto ainda. Mas nós temos diminuído os bloqueios, pois estamos dando conta de cumprir as liminares.

 

MidiaNews -  Acontece muito de se judicializar antes de procurar resolver primeiro no âmbito da secretaria?

 

Luiz Soares - Não há o esgotamento das instâncias administrativas.  Mas o procurador Edmilson [Medeiros], do Ministério Público, tem feito um trabalho de conciliação. Então o promotor que está em uma comarca distante solicita o apoio aqui para tentar resolver a situação administrativamente e, com isso, evitar o custo de um processo judicial. Eu achei uma excelente iniciativa.

 

MidiaNews – O que precisa ser feito para evitar esse problema comum no Estado, que é a demora para se cumprir as decisões liminares?

 

Luiz Soares - Precisa melhorar o sistema mesmo, os serviços para a população, uma porção de coisas. São providências de gestão mesmo.

 

MidiaNews – Muitos ex-gestores da Saúde no Estado, a exemplo do Pedro Henry, chegaram a ser condenados pela demora em cumprir decisões liminares, apesar de culparem a burocracia da máquina pública pelos atrasos. Teme que isso também ocorra com o senhor?

 

Luiz Soares – Eu acredito que não, até porque Pedro Henry é Pedro Henry. Eu sou o Luiz Soares.

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Luiz Soares

"São ótimos hospitais? Longe disso. São hospitais que estão sendo recuperados, longe de levar nota máxima, mas é resultado de um esforço coletivo de um ano de trabalho"

MidiaNews – Mas o senhor chegou a receber uma ordem de prisão no ano passado pelo juiz Fernando Ishikawa, em razão da demora em cumprir uma liminar...

 

Luiz Soares – Eu acho que a resposta foi dada pelo Tribunal de Justiça, que declarou a prisão como ilegal. A concessão do habeas corpus fala por si só. Se fosse uma prisão legítima, por óbvio não haveria a concessão do habeas corpus por parte do desembargador concedente. Mas cabeça de juiz...

 

MidiaNews – O senhor ingressou com uma reclamação contra o juiz no Conselho Nacional de Justiça, não?

 

Luiz Soares – Sim, mas eu não sei em que pé está.

 

MidiaNews -  O senhor tem sido muito criticado por não fazer pagamentos aos hospitais filantrópicos. Como estão esses repasses atualmente?

 

Luiz Soares – A secretaria não tinha, continua não tendo e nem terá contrato com entidades filantrópicas, sobretudo em Cuiabá e em Rondonópolis. O Estado ainda tem dois contratos diretos, que eu considero absurdos, feito ainda pelo Pedro Henry, com o Hospital São Luiz, em Cáceres, que é uma entidade privada hospitalar com título de filantropia. Não gosto do termo filantrópico. É uma empresa privada hospitalar com título de filantropia. Para ter esse título tem que atender ao SUS, disponibilizar no mínimo 60% dos serviços ao SUS. Gozando desse título, a empresa é isenta, por exemplo, do pagamento de tributos, o que é altamente vantajoso.

 

MidiaNews -  Qual é a outra unidade filantrópica que tem contrato com o Estado?

 

Luiz Soares – O Hospital Santo Antônio, em Sinop. Ninguém está fazendo isso de malandragem. Tem uma lei. Os caras se habilitam como empresas privadas para ter esse título e, por conta disso, devem oferecer como condição sine qua non o atendimento ao SUS. Eles atendem as exigências da lei. A partir desse título, ele goza de benefícios. Portanto, empresas outras que atuem dentro do hospital não emitem nota fiscal, a nota vem para o SUS pagar com isenção de imposto.

 

O Estado, e não a secretaria, aporta para o município de Cuiabá valores que o município de Cuiabá pactua e compra serviços próprios, como o Pronto-Socorro. O Estado põe o dinheiro, e o município faz os convênios, os contratos com essas entidades. A única coisa que o Estado garante que o município não ponha um centavo, que é um terço que o Ministério da Saúde põe dentro do município e dois terços o Estado põe para pagamento de leitos de UTI, contratadas pelo município. E aí, nesse caso, têm quatro hospitais com título de filantropia em Cuiabá que recebem e um em Rondonópolis.

 

MidiaNews -  Não é necessário rever essa situação de hospitais filantrópicos que recebem benefícios do Estado, reclamam da falta de repasses, mas, ao mesmo tempo, pagam salários altíssimos aos seus diretores?

 

Luiz Soares – Eu acho que quando você tem déficit, tem que trabalhar em duas pontas. A primeira é cortar despesas e a segunda é buscar ampliar as receitas. Se você fizer o dever de casa, você encontra o equilíbrio. Eu não tenho o poder de entrar para dentro desses hospitais. Eu sei que eles têm possibilidades de ampliar, não só através do SUS, oferecendo mais serviços, fazendo pactuações, produzindo, como também vender para planos de saúde, para particulares, boa parte deles faz arrecadações, recebe doações. São receitas. Pelo que eu vejo no noticiário, entendo que você não deve chutar o seu melhor cliente, que é o SUS. O SUS é muito maltratado. Parece que o SUS é o culpado de tudo.

 

MidiaNews -  Há alguns dias o diretor do Hospital de Câncer criticou o senhor, dizendo que o senhor nunca teria ido na unidade e que o hospital não estaria recebendo o devido reconhecimento do Governo do Estado. O que o senhor pensa disso?

 

Luiz Soares – Não conheço o diretor e não preciso conhecer o hospital. Eu preciso conhecer os meus 11 hospitais. Eu conheço o Adauto Botelho, eu conheço o Metropolitano de Cáceres, de Sinop... Eu tenho 11 hospitais para cuidar. Mas uma hora eu vou lá conhecer.

A secretaria não tinha, continua não tendo e nem terá contrato com entidades filantrópicas, sobretudo em Cuiabá e em Rondonópolis. O Estado ainda tem dois contratos diretos, que eu considero absurdos

 

MidiaNews – Qual sua posição sobre as Organizações Sociais de Saúde (OSSs)?

 

Luiz Soares – Eu não tenho ideologia contrária às OSSs. Existe gente com caráter e gente sem caráter em todos os ambientes. E existe OSS boa e OSS vagabunda. As que existiam aqui, especialmente as que foram trazidas em 2012, por aí, não são boas entidades. Mas temos ótimos exemplos no Brasil de OSSs. O que precisa é o Poder Público contratar, dar transparência às metas a serem cumpridas, acompanhar a execução dessas metas e pagá-las.

 

MidiaNews -  Quantas OSSs operam no Estado e como o senhor avalia o trabalho delas?

 

Luiz Soares – Dos 11 hospitais, estamos com duas em contratos emergenciais. São da mesma OSS, que se chama “Gerir”, tem base em Goiás e em São Paulo, administra vários hospitais, incluindo o maior hospital público de Goiás, o Hugol, que tem 400 leitos. Para você ter uma ideia, dá o total de leitos do Pronto-Socorro de Cuiabá e Várzea Grande juntos. E eles estão gerenciando o Hospital Regional de Sinop e o de Rondonópolis. Nós temos três outros hospitais gerenciados por consórcios e seis na gestão da administração direta, exatamente para sair da situação daquelas OSSs.

 

MidiaNews -  A constante troca de secretários agravou a situação da Saúde no Estado?

 

Luiz Soares – Eu não tenho que estar olhando para o retrovisor sobre aqueles que me precederam. Mas o problema da descontinuidade é muito grave. Se tivesse, por exemplo, adotado no final do governo Dante a política de Saúde implantada em oito anos pelo ex-secretário Júlio Muller, Mato Grosso teria um dos melhores sistemas públicos de Saúde do Brasil.

 

Mas infelizmente as eleições, as trocas, e tudo o mais, gerou uma descontinuidade. Eu já fui secretário em Cuiabá e eu sei que uma construção feita em quatro anos demora menos de um ano para ser destruída. Voltei três anos depois, com a mesma equipe, achamos que íamos andar para frente, mas tivemos que voltar para reconstruir.

 

MidiaNews – Isso é reflexo também de escolhas políticas erradas, de colocarem secretários que não entendem o funcionamento da Saúde, que não possuem competência para gerir a Pasta?

 

Luiz Soares – Eu acho que é a própria descontinuidade mesmo. Via de regra o ambiente político interfere muito mal nas gestões. Toda decisão é política. Mas a decisão política embasada em um bom conteúdo técnico é imbatível. Eu penso que a descontinuidade no Brasil, junto com o subfinanciamento, são os maiores problemas na consolidação do SUS.  

 

A rigor, olha-se muito mal o SUS. O ambiente político, a própria imprensa, a sociedade de uma maneira geral. Quando se fala em SUS, as pessoas acham que é para pobre. O SUS tem serviços que são executados no Brasil que são para 100% da população. O Brasil tem o melhor programa de imunização do mundo. 100% dos transplantes realizados no país são pelo SUS. O tratamento do câncer é 100% pelo SUS. Tem 30 anos de SUS, mas é um processo social em andamento. Há 30 anos não tínhamos nada. Só tinha algum tipo de atendimento quem tinha muito dinheiro para pagar.

 

MidiaNews -  Como está a situação da fila de espera para cirurgias?

 

Luiz Soares – O governador lançou em Rondonópolis o popular “papa fila”, para fazer cirurgias em seis especialidades em Rondonópolis, Primavera do Leste, Jaciara e Poxoréu. Dos 19 municípios da região sul, aqueles que estavam na lista de espera em vários ambientes das secretarias municipais, no escritório regional, foi juntado tudo, fizemos uma fila única e dividimos por seis especialidades. E já está rodando. A próxima regional que estamos esperando é em Sinop fazer o lançamento. É um aceleramento.

 

Agora, quanto a essas cirurgias eletivas, boa parte dos municípios tem uma estrutura hospitalar para atender a sua população. Mas há situações que acabam impactando em Cuiabá, como as cirurgias eletivas que possuam algum grau de complexidade. Os nossos hospitais regionais estão com a missão originária, que é a de ter regionalmente a porta de referência: paciente embarcado, garantindo vidas. Cirurgia geral, cirurgia ortopédica, que é uma epidemia. O município tem que cuidar da parte pré-hospitalar.

 

A fila de espera sempre vai existir. No mundo existe fila. Inclusive em países que têm uma boa política de saúde pública, como Inglaterra, Espanha e Canadá. O SUS é a melhor política de inclusão social que o Brasil já produziu. É pretensioso, por causa da universalidade. Os EUA não tem universalidade. A única coisa que falta para o SUS é o PIB [Produto Interno Bruto] do Canadá.

Alair Ribeiro/MidiaNews

Luiz Soares

"Eu não tenho ideologia contrária às OSSs. Existe gente com caráter e gente sem caráter em todos os ambientes. E existe OSS boa e OSS vagabunda"

 

MidiaNews -  Os casos mais complexos acabam vindo pra Cuiabá então?

 

Luiz Soares - Esses hospitais do interior fazem esse tipo de atendimento, mas com um olhar na urgência-emergência. Aliás, não tem hospital no Brasil que faça tudo, nem o Albert Einstein tem tudo. Faz muito, mas não faz tudo. Por isso é que teria que ter uma rede organizada. Quando não tem uma especialidade no interior, transfiro o paciente para Cuiabá. Inclusive em casos de grande gravidade o Estado tem garantido UTI aérea. Eu acabei de assinar um cheque de R$ 1,3 milhão para esse aviãozinho rodar e trazer muita gente para cá. Não adianta trazer um paciente de Nova Xavantina para Barra do Garças, porque não vai ter o tratamento adequado. Então tem que vir para Cuiabá.

 

MidiaNews -  Em uma visão geral, o que o senhor pode destacar de avanços na Saúde na sua gestão?

 

Luiz Soares – Eu não vejo avanço nenhum. O que eu vejo é uma operação de colocar no eixo algo que foi tirado desse eixo nos últimos 12, 13 anos. Não tem avanço. O esforço nosso é colocar no eixo. O próprio governador tem dito publicamente uma coisa: “girar a chave da Saúde”. A partir do ano passado, foi girada a chave da Saúde. Tem muita coisa para fazer e o ano passado não foi um ano muito bom por conta da gravíssima recessão que o País passou a viver desde 2015. Isso gerou impacto nas receitas dos Estados, dos Municípios, e não foi diferente no Estado de Mato Grosso.

 

Você tem o crescimento de uma despesa e uma receita em queda. Então não é simples. Com os municípios, a expectativa é que continuemos pagando os repasses em dia, que giram em torno de R$ 30 milhões ao mês, unindo todas as situações, dentre elas a questão dos leitos de UTIs, atenção primária, SAMU e UPAs. E não estou discutindo nem a qualidade desse investimento, mas é muito dinheiro.

 

MidiaNews -  O senhor sabe quando ficará pronto o novo Pronto-Socorro de Cuiabá?

 

Luiz Soares – Não, porque é uma obra de Cuiabá que o governador Pedro Taques garantiu R$ 50 milhões para o total de R$ 85 milhões da obra. Os repasses têm ocorrido. Quando vai ficar pronto eu não sei.

 

MidiaNews -  Mas estando pronto, terá um impacto positivo no sentido de desafogar a demanda na Capital?

 

Luiz Soares – Isso vai depender de qual será a destinação do atual Pronto-Socorro. Se não tiver uma destinação, em dois meses ele vai estar entupido de novo. Porque a quantidade de leitos é praticamente a mesma. Quando eu fui secretário em Cuiabá, nós tínhamos 280 leitos e 40 eram UTIs. Esse novo Pronto-Socorro parece que tem 300. Há leitos sobrando em algumas coisas e em outras faltando. Vai ter que saber organizar o hospital. Mas no global, há um déficit muito grande de leitos no Estado, tanto em hospital públicos quanto em privados.




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COMENTÁRIOS
20 Comentário(s).

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Graci Ourives de Miranda  12.05.18 04h20
Colocou no eixo? onde? quando e como? Escritora Graci
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José Renato  09.05.18 11h07
Venho aqui parabenizar o Secretário de Saúde Luiz Soares, pela transparência e pelo esclarecimento a população. Isso é genético!
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Moema Couto Silva Blatt  08.05.18 17h03
A fala de um homem sério, honesto, destemido, que não se preocupa em falar o que os outros querem ouvir e sim o que precisa ser falado. Parabéns pela reportagem. A cada dia mais admiro Luiz Soares, excelente gestor. Obrigada, em nome do SUS!
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laurentino felix milhomens  08.05.18 14h39
primeiramente parabenizar o sec de saúde do estado Luiz Soares pelo esclarecimento a população de mato grosso de como anda a saúde no estado.Sabedor que não e fácil,mas acredito no seu trabalho como demostrou em cuiaba e várzea grande e que Deus o ilumini e proteja nesta missão.
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Ademar  07.05.18 16h17
Difícel crer que realmente ele acredite que em MT a saúde está nos eixos. Sugiro ao Site que faça uma matéria junto a Defensoria Pública de MT, principalmente no que diz respeito as ações de saúde propostas durante o dia, mas principalmente aquelas feitas a noite durante todos os dias referente a vagas em UTI, ficará estampado o caos da saúde.
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