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Entrevista da Semana / LOJISTAS
26.11.2016 | 20h47
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"De cada dez consumidores de MT, cinco estão inadimplentes"

Vice-presidente administrativo da CDL, Célio Fernandes lamenta momento, mas vê lado positivo na crise

Marcus Mesquita/MidiaNews

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O vice-presidente administrativo da CDL Cuiabá, Célio Fernandes: pior crise econômica dos últimos anos

ÉRIKA OLIVEIRA
DA REDAÇÃO

Desde 2015 os indicadores da economia brasileira apontam para uma grave recessão, acompanhada de uma avalanche de demissões e um total desarranjo financeiro no mercado.

 

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 2015 a economia sofreu uma retração de 3,8%, a maior desde 1990. Para 2016, as projeções não são diferentes.

 

O vice-presidente administrativo da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Cuiabá, Célio Fernandes, avalia que este pode ter sido o pior período para o comércio nas últimas décadas.

 

“Posso falar dos últimos 30 anos em que estou no mercado, em que certamente não vivenciei uma crise tão impactante como esta”, disse em entrevista ao MidiaNews. Segundo o dirigente, metade dos consumidores de Mato Grosso está inadimplente no comércio.

No período da Copa a gente viveu uma espécie de euforia e de expectativa, achando que ia ser o melhor dos mundos (...) e muita coisa foi frustrada

 

Apesar da constatação de que a crise é muito grave, Fernandes entende que este pode ser um bom momento para que empresas e cidadãos mudem seus métodos de gestão e padrões de consumo. "A crise como um todo é uma grande oportunidade de mudança nos padrões comportamentais", disse.

 

Confira os principais trechos da entrevista:

 

MidiaNews - Nós sabemos que o Brasil inteiro passa por uma grave crise econômica. Aqui em Cuiabá, como o comércio está enfrentando esse período?

 

Célio Fernandes - A crise impacta diretamente todos os segmentos em todas as cidades do País.

 

Mato Grosso talvez tenha demorado um pouco mais para perceber o impacto da crise, em função de ser um Estado que naturalmente tem uma pujança muito grande em função do agronegócio, que é a grande matriz de produção.

 

O fato de não termos um grande volume de empregos ligados à área de indústria, que foi o setor mais afetado inicialmente pela crise, fez com que demorasse para nós percebermos esse impacto.

 

A crise, desde o início, se pudermos medir, eu diria que a nível nacional ela teve impacto de 10. Aqui ela teve um impacto de 5, 4, até 3. Com o passar do tempo, esse impacto começou a se igualar ao nível de outros Estados.

 

MidiaNews - O senhor disse que Mato Grosso demorou para perceber os efeitos da crise. É possível dizer quando o Estado passou a percebê-los?

 

Célio Fernandes - O segundo semestre de 2015 já mostrou números de redução nas vendas em relação a 2014. Nós chegamos, no final do ano passado, a ter números até piores que os nacionais.

 

A inadimplência no setor de água, luz e telefonia chegou a 13%. Essa crise institucionalizada já vinha - na verdade, até antes da Copa do Mundo - mostrando sinais.

 

No período da Copa, a gente viveu uma espécie de euforia e de expectativa, achando que ia ser o melhor dos mundos. E começamos a perceber no decorrer do evento, e no pós-evento, que muita coisa foi frustrada, principalmente com relação às obras que foram inacabadas e deixaram um legado ruim para a Capital. Em 2016, Mato Grosso se igualou ou ficou um pouco pior que o restante do País.

 

MidiaNews - Então, 2015 foi ainda pior que este ano?

 

Célio Fernandes - O final de 2015 foi mais impactante. Em 2016, nós entramos como se já estivesse no final da crise, só que o resquício disso continuou ao longo do ano. Porque nós vínhamos de um processo político que estava indefinido no País.

 

Havia uma insegurança muito grande para o mercado de investimentos e a crise política abalou fortemente a confiança. Isso fez com que o País ficasse praticamente estagnado ao longo desse período de 2016, até que aconteceu o impeachment de fato e o afastamento da ex-presidente Dilma [Rousseff].

 

MidiaNews - O senhor teve atuação nos movimentos que pediam a saída da ex-presidente. Houve melhora no Governo Michel Temer?

 

Célio Fernandes - O que começou a melhorar foi a expectativa. A saída da Dilma foi fundamental para uma virada.

 

Celio Fernandes

 "A Dilma não tinha base de apoio no Congresso para aprovação de medidas"

 O País continua em um processo recessivo muito forte e isso não muda de um dia para o outro.

 

Gastaram muito e gastaram mal. Agora, está sendo percebido mais claramente, porque a crise afetou a produção e a economia. Com queda na economia, se não se controla os gastos: crise à vista.

 

Os Estados, os Municípios e a União, principalmente, achavam que a economia iria se manter em crescimento contínuo, mas ela não se mantém em crescimento se não houver equilíbrio das contas públicas.

 

O que podemos sinalizar como mudança do Governo Dilma para o Governo Temer foi, em primeiro lugar, que a Dilma não tinha base de apoio no Congresso para aprovação de medidas. O Governo Temer mostrou que tem isso.

 

MidiaNews - Durante décadas a União cobriu seus rombos elevando impostos. O senhor acha que não existe mais espaço para elevar os impostos?

 

Célio Fernandes - Não existe espaço. E, do outro lado, as organizações do setor produtivo também perceberam claramente que se elas não fizerem o contraponto com os governos, não conseguirão se defender e terão comprometido a própria atividade produtiva.

 

A receita que vinha sendo usada era: 'Estou gastando mais? Então vou cobrar mais imposto'. Essa receita já não funciona mais. A gente atingiu um nível em que não há mais como transferir riqueza do setor produtivo para o Governo.

A gente atingiu um nível em que não há mais como transferir riqueza do setor produtivo para o Governo

 

MidiaNews – O Governo do Estado está dividindo o pagamento dos salários dos servidores, que são uma grande massa de consumidores em Cuiabá. Essa mudança afetou o comércio no sentido de provocar atraso no pagamento de parcelas?

 

Célio Fernandes - A inadimplência afetou o Centro Oeste como um todo e Mato Grosso está inserido nisso. Ela atinge praticamente metade dos consumidores adultos. Ou seja, de cada dez consumidores, cinco estão inadimplentes.

 

A curva dessa inadimplência está praticamente estabilizada com uma pequena tendência de queda. Isto é um pequeno sinalizador positivo de dois aspectos: o primeiro, de que as pessoas estão comprometidas em honrar as suas dívidas. E o segundo, de que está ocorrendo uma melhor gestão financeira por parte das famílias.

 

Este é um efeito cultural de educação financeira. E o próprio comércio, que no passado vendia de uma forma mais indiscriminada, também está realizando uma venda mais consciente.

 

A crise como um todo é uma grande oportunidade de mudança nos padrões comportamentais.

 

MidiaNews-  Então o senhor acha que, apesar das mazelas, dá para tirar algo bom de tudo isso?

 

Célio Fernandes - Com certeza! Quando a gente vive um momento de venda plena ou de emprego pleno e de economia em forte expansão, as pessoas tendem a relaxar um pouco mais a gestão.

 

Quando há uma crise, há necessidade de você se debruçar sobre a gestão do seu negócio. É preciso organizar na ponta do lápis, pensar em termos de planejamento, porque quem não faz um bom planejamento acaba pagando mais caro.

 

E o empresário tem aí a oportunidade de um amadurecimento com relação à gestão do seu negócio.

 

A sociedade como um todo vivencia um momento em que as pessoas buscam empreender uma renda alternativa. Isso historicamente é uma oportunidade de aparecimento de novos negócios. E esses empreendimentos que nascem da crise podem até se tornar motivos de sucesso.

 

Hoje, cerca de 41% das pessoas com dificuldades em honrar os compromissos - estes que estão inadimplentes ou com orçamento muito apertado - estão buscando alguma forma de obter uma renda extra.

 

MidiaNews - Na gestão passada, houve muitos incentivos fiscais para o comércio, algo extinto pelo atual Governo. O senhor concorda com a decisão do Governo do Estado de rever esses incentivos?

 

Célio Fernandes - Eu acho que há necessidade sim de revisão. Por que você incentiva alguma empresa ou algum setor? Porque aquele setor tem dificuldade de competitividade por conta de fatores que estão alheios à sua vontade.

 

Mato Grosso, pelo tamanho de território e por sua densidade demográfica - pouca gente aqui para consumir -, e por uma logística que é muito prejudicada, se nós não incentivarmos empresas a se instalarem aqui, essas empresas não vêm.

 

Se essas empresas não vêm, também não temos os empregos e aí o comércio também sente porque não há consumo. A coisa precisa ser pensada de forma orgânica.

 

Nós costumamos dizer que o que precisamos é que o Governo não atrapalhe. Se o Governo não nos atrapalhar, já vai ser um grande incentivo.

 

Se o Governo não nos atrapalhar já vai ser um grande incentivo

Vou citar um exemplo claro de uma empresa de grande porte que nasceu em Cuiabá, se desenvolveu em Mato Grosso e, num determinado momento, não conseguiu manter aqui o seu centro de distribuição. Aí um Estado vizinho ofereceu condições melhores.

 

Estou falando do Grupo Caseli, da Tecelagem Avenida, que mudou seu centro de distribuição para Campo Grande, em Mato Grosso do Sul.

 

MidiaNews - A gente vive um momento de discussão de Reforma Tributária e a CDL está participando dessas discussões. Como vocês enxergam as propostas do Executivo?

 

Célio Fernandes - Nós não temos dúvida de que há necessidade de realização de algumas mudanças. O modelo que existe é extremamente complexo em termos de segurança jurídica. Mas o modelo atual favorece muito a arrecadação de impostos, porque você paga na entrada [da mercadoria no Estado] e paga uma carga tributária que é igual para todo mundo.

 

O Governo quer fazer uma reforma completa. Eles querem simplificar e nós não temos problema em fazer essa reforma. A gente tem é muita insegurança do ponto de vista da carga tributária e do impacto que isso pode ter.

 

O governador [Pedro Taques] deixou claro que quer reduzir o impacto tributário sobre combustíveis, energia elétrica e consequentemente manter o nível de arrecadação.

 

Bom, se vou reduzir de alguns setores, para manter o nível de arrecadação vou ter que transferir este valor para outros.

 

O agronegócio já se posicionou veementemente contra aumentos. E pela força política e pelo impacto econômico que o agro tem no Estado, eu acredito fortemente que eles não terão aumento de carga tributária.

 

A indústria tem um peso pequeno no Estado, mas se ela não tiver alguns benefícios ou se tiver uma carga tributária elevada, aí você quebra de vez a indústria. O que é que sobra? Sobra o comércio. O aumento na carga do comércio vai fazer com que haja um aumento no preço do produto final. Aí você começa a ter um problema de competitividade.

 

Eu tenho fé de que nós vamos conseguir, ao final de toda essa discussão, uma reforma extremamente salutar, tanto para o setor produtivo quanto para o Governo.

 

Entretanto, pode ser que nós não consigamos fazer isso ainda este ano, porque o tempo para a mudança de um modelo que é muito complexo para a implantação de um outro modelo requer bastante discussão, porque os impactos são muito fortes.

 

MidiaNews - Mas não existe um prazo?

 

Célio Fernandes - Tem um prazo, mas se não conseguirem votar isso dentro desse prazo, isso deverá ser estendido. Esta não é uma possibilidade descartada.

 

Nós gostaríamos que se mantivesse esse modelo que faz o pagamento na entrada, porque isso simplifica também a vida da empresa internamente.

 

MidiaNews - Nessa época do ano, as pessoas sempre esperam por novas contratações, por causa do Natal. A CDL teme que a crise afete isso?

 

Célio Fernandes - Com certeza. 2012 foi um dos melhores anos, quando as contratações temporárias no Estado chegaram a 7 mil.

Marcus Mesquita/MidiaNews

Celio Fernandes

 Natal deverá ter queda de 16% nas vendas se comparado com 2015

 

Este ano, a expectativa é de que sejam no máximo 5 mil. Nós estávamos estimando algo em torno de mil contratações na Grande Cuiabá, mas acho que não chegaremos a este número.

 

Muitas empresas têm preferido trabalhar com sua equipe e pagar horas extras do que ter que lidar com novas contratações.

 

MidiaNews - Apesar dessas dificuldades, o senhor acha que o Natal pode ser a salvação do comércio em 2016?

 

Célio Fernandes - O Natal é a melhor época de venda. Mas quando fazemos uma comparação, provavelmente vamos ter uma redução que pode atingir até 16% em relação ao ano passado.

 

Nós acreditamos que depois do Carnaval isso comece a melhorar. Nós vamos perceber uma retomada.

 

MidiaNews - A partir de fevereiro e março, então, o senhor acredita que o comércio tomará um fôlego?

 

Célio Fernandes - Sim, os sinalizadores indicam isso. Há uma expectativa muito grande de investidores estrangeiros em relação às medidas no País.

 

Se o presidente Temer conseguir emplacar algumas medidas como o limite dos gastos públicos e a reforma previdenciária - e eu acredito que as duas serão emplacadas -, até o Carnaval isso já deve ter acontecido.

 

Então, nós vamos ter uma entrada de capital muito forte no País.

 

MidiaNews - Tem sido comum observar em Cuiabá muitos imóveis que antes abrigavam estabelecimentos comerciais e hoje estão à venda ou para alugar. E também estamos assistindo a empresas tradicionais como a Gabriela do Centro e o Ducas’7 fechando. O senhor já tinha visto uma crise tão forte como essa de agora?

 

Célio Fernandes - Sem dúvida alguma, acho que é o pior período dos últimos 50 anos. Mas posso falar dos últimos 30 anos em que estou no mercado, em que certamente não vivenciei uma crise tão impactante como esta.

 

Há um apego a pontos históricos, por ser ali onde tudo começou. Mas se chega à conclusão de que aquele ponto não está dando resultados, ele fecha.

 

Empresas que não têm tanta estrutura de organização, que não conseguem se manter porque são às vezes empresas familiares, pequenas e já relativamente enxutas, se cansam de manter aquele negócio sem resultado e fecham também.

 

E as empresas que às vezes não conseguem de fato competir - ou porque não têm um capital ou porque não têm um mecanismo ou força de trabalho suficiente para inovar -, essas também fecham.

 

Aquele volume de fechamento de empresas que a gente percebe no Brasil foi porque abriu um grande numero de empresas ao longo de cinco anos e mais de 70% dessas empresas fecharam. Esse números devem ficar mais agravados.

 

Em Mato Grosso, em 2015, se não me falhe a memória, foram 1.700 empresas que fecharam as portas. Num período normal esse número não chegaria a mil. Mas há as que fecham e as que abrem, como eu falei. Um momento de crise acaba sendo um momento de oportunidade.

 

O interessante é procurar se manter até que a crise passe

MidiaNews - Qual o conselho que a CDL tem dado para os comerciantes cuiabanos atravessarem esse período mais profundo de crise?

 

Célio Fernandes - O interessante é procurar se manter até que a crise passe. Não fazer investimentos a longo prazo. É preciso um diálogo interno com toda a equipe para que todos percebam claramente isso.

 

É necessária uma gestão financeira bastante apurada e aí inevitavelmente realizar os cortes.

 

Ninguém gosta de cortar, mas para manter o negócio vivo, às vezes vocês tem que realizar estes cortes.

 

Nós temos orientado muito nesse sentido, de buscar se associar, juntar-se com outros empresários e entidades como a própria CDL. Negociar muito com fornecedores, com empresas de cartão de crédito, com os agentes financeiros, com clientes, enfim.

 

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Salvy Bosco de Resende  02.12.16 06h08
Visão clara da realidade, serenidade nas proposições: PARABÉNS Célio, e lembre-se, precisamos de seres como você na nova política!
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