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Entrevista da Semana / CRIMES CONTRA LGBTs
25.08.2018 | 19h30
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"Aquele que não defende tem as mãos sujas de sangue”

A ativista Daniella Veyga diz que preconceito dificulta o acesso à saúde e à formação superior

Alair Ribeiro/MídiaNews

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Daniella Veyga começou o processo de travestilidade aos 16 anos

CÍNTIA BORGES
DA REDAÇÃO

Mato Grosso registrou no ano passado 14 mortes motivadas por homofobia, que é o ódio aos homossexuais, segundo o Grupo Estadual de Combate aos Crimes de Homofobia (GECCH). O número faz do Estado um dos mais inseguros para esta população no Brasil.

  

Na opinião da ativista Daniella Veyga, que é transexual, só a adoção de políticas públicas eficientes fará o Estado diminuir os índices de violência e trazer direitos à população LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros).

 

No entanto, segundo ela, tanto no Poder Legislativo, quanto Executivo, não há representantes que possam olhar por este público. Isso porque, em sua opinião, as demandas conservadoras ganham cada vez mais espaço no debate público.  

 

No campo político, Daniella, que tem 23 anos e é estudante de Direito, prega nenhuma relação com partidos que tenham uma agenda minimamente conservadora nos costumes. "É muito entristecedor a gente ver candidatos LGBTs, e que defendem as políticas de inclusão para LGBTs, cercados de conservadores. Eu sempre digo que aquele que não defende os LGBTs tem as mãos sujas de sangue. Então, ao meu ver essas pessoas também têm as mãos sujas de sangue, por mais LGBTs que elas sejam", disse.

 

Em entrevista ao MidiaNews nesta semana, ela contou que se descobriu transexual aos 16 anos de idade. Ali, se muniu de coragem e resistência para enfrentar os preconceitos. Desde lá, se tornou ativista pela causa estudantil e hoje é atuante na luta pela conquista dos LGBT.

 

Dani, como gosta de ser chamada, atua no Comitê Nacional de Educação em Direitos Humanos, pela União Nacional dos Estudantes.

 

Confira a entrevista na íntegra: 

 

MidiaNews - Ainda é comum haver confusão quanto às siglas LGBT, LGBT+ e ainda GLS. Qual a correta a se usar?

 

Daniella Veyga - Foi um avanço da comunidade LGBT. Antigamente, a sigla era GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes). Então excluía as travestis e transexuais, os bissexuais... Então através de uma conferencia, a comunidade LGBT incluiu e deu visibilidade à existência de outras “letrinhas” que fazem parte de toda comunidade em sua diversidade. E dando maior visibilidade às lésbicas, colocamos o “L” na frente. Então se tornou LGBT. 

 

A sigla LGBTIQL+, que é um misto de letras, ainda não foi muito consolidada. Mas nós ainda colocamos em alguns textos para darmos visibilidade para essa outra classe, mas não há nada definido. Não há nenhum fórum, nenhum debate que bateu o martelo para que houvesse a mudança da sigla LGBT para inclusão de outras letras. 

 

MidiaNews - O 29 de janeiro é conhecido como o Dia da Visibilidade Trans. Qual a importância dessa data?  

 

Daniella Veyga - O Dia da Visibilidade Trans nasceu para a gente reafirmar a política para as travestis e transexuais. Porque, diferente de outras “siglas”, as travestis são as que estão em maior vulnerabilidade, que têm dificuldade de acessar o Sistema Único de Saúde (SUS), que não terminam o Ensino Médio. Por isso não ingressam em uma faculdade, não estão no mercado de trabalho, estão vulneráveis ao mercado da prostituição, à droga, à violência, à marginalidade das ruas. 

 

Então, esse dia é importante para isso: para gente mostrar que nós existimos e somos seres políticos. E dizer que todo cidadão brasileiro tem por direito: educação, ingressar em uma universidade, ter um emprego, gerar economia, contribuir com a política brasileira.

 

 

MidiaNews - Você acredita que a falta de oportunidade e o preconceito levam à prostituição. Em 2018, isso ainda é uma realidade?

 

Daniella Veyga - Ainda é muito forte, e isso é construído com a política do nosso País. De 12 anos para cá, a educação teve um avanço até por conta das questões de democratização do acesso, como o Prouni, cotas na universidade... Então isso facilitou para população que não estava no Ensino Superior conseguir ingressar, mas ainda há muito o que avançar. 

 

Nós precisamos fazer com que as travestis e transexuais terminem o Ensino Médio para elas conseguirem entrar no Superior. Mas quando elas estão dentro do Ensino Médio é que ocorrem a violência e a violação de direitos, muitas vezes por conta da equipe gestora da escola, que não está preparada para lidar com aquele tipo de população.  

 

Muitas vezes os professores não conseguem censurar o bullyng, a violência dos próprios colegas, porque eles não têm um treinamento adequado para enfrentar esse tipo de situação. Então, como a escola é nossa segunda casa, a gente não se sente bem, a gente evade. E sem o Ensino Médio não é possível entrar em uma universidade.

 

Da mesma forma, sem estudo não é possível entrar no mercado de trabalho. Então, as únicas pessoas que abrem as portas de trabalho são as cafetinas. Levando-as para marginalidade, para a beira da rua. E a gente luta diariamente para mudar essa realidade. Para que elas entrem no mercado formal de trabalho, para que terminem o Ensino Médio e entrem em uma universidade, para que possam mudar a sua realidade.

 

MidiaNews - E como é esse embate?

 

Daniella Veyga - A gente tenta. Através de políticas públicas, para o acolhimento, também tentamos para os profissionais de educação. Porque não adianta o profissional ser preparado para lidar com a diversidade dentro da sala de aula, se ele coloca à sua frente seus dogmas religiosos, afrontando a laicidade do Estado. Porque os profissionais que atuam dentro do Estado precisam ser imparciais, independente da religião, credo, cor. Todos têm direito à educação.

 

Nós procuramos políticas para que esse público não desista no Ensino Médio. Campanhas para aquelas que já passaram da fase poderem fazer a conclusão do Ensino Médio do EJA [Educação de Jovens e Adultos], do supletivo, para que muitas delas tenham vontade de entrar na universidade ou em outros cursos. Que seja de estética, de enfermagem... Que são cursos em que a população LGBT entra mais.

 

Nosso desejo é também de mudar essa realidade. Queremos que elas entrem também em um curso de Medicina, Direito, Engenharia e ocupar todos os espaços. Nós só vamos mudar nossa realidade ocupando os espaços onde não estamos. 

 

MidiaNews - Quando você fala que a população trans é mais vulnerável, o que é essa vulnerabilidade? E por que é a população mais vulnerável?

 

Daniella Veyga - Elas são muitos vulneráveis a partir do momento em que não têm educação e, principalmente, sobre a questão da prostituição. Quando se é mais nova, você ganha dinheiro nesse meio. Mas a beleza acaba.  

 

E como minha mãe sempre disse: a única coisa que ninguém tira da gente é o aprendizado, a inteligência. Uma hora a beleza acaba, a menina não ganha mais dinheiro na rua e deixa de ter lucro. E vai viver como? Em abrigo? Sob a tutela do Estado? Então, a primeira vulnerabilidade é social, neste sentido.

 

Já a física é porque ela está exposta à violência. Exposta a drogas, à falta de saúde, porque ela está em contato o tempo todo com pessoas que não conhece. E a realidade da rua é diferente - ela é cruel. Você acaba ganhando dinheiro, mas leva uma rasteira. Você deixa de ganhar, ninguém quer mais sair com você.  Aí vem a vulnerabilidade social. Para onde vamos encaminhar essas meninas muitas vezes sem conhecimento, sem Ensino Médio, sem qualquer curso profissionalizante?

 

MidiaNews - Quando falamos de LGBT, podemos afirmar que o transexual é o que está mais exposto?

 

Daniella Veyga - A travestilidade é uma coisa que você não consegue esconder. É a mudança no seu vestual, na sua postura, é a mudança de identidade... O gay e o bissexual não vão passar por isso. Porque no caso do gay, as pessoas só sabem que ele é gay a partir do momento em que ele fala. 

 

Se um gay chegar em um espaço, e ficar quieto, ele se passa por hétero. Já o trans, não. Quando ela pede uma informação, ou quando mostra seu documento e ali apresenta seu nome civil, as pessoas já ficam sabendo. Então, além de ser constrangedor, demonstra que a pessoa é um travesti e transexual.

 

 

MidiaNews - Como você enxerga a introdução de hormônios para a mudança de gênero ainda na infância? Como isso está sendo trabalhado na esfera política?

 

Daniella Veyga - Essa questão é muito delicada dentro do próprio movimento. Há quem defenda que apenas pessoas que nasceram com os dois sexos possam passar por esse tipo de transição medicamentosa. Já outras pessoas defendem que, quando é possível notar a travestilidade, já possa ingressar com o processo de medicação, etc.

 

Só que há a questão familiar. Há famílias com visão mais progressista e há famílias com visão mais conservadora, mais ortodoxa.

 

A travestilidade começa a aflorar na fase da adolescência, que é o que acontece. Que é quando você começa a descobrir o que é homem, o que é mulher. E aí a gente começa a se descobrir. E quando há uma boa relação familiar, tem apoio, ela leva o filho para um atendimento médico e psicológico.

 

Já as famílias mais conservadoras têm essa dificuldade. E é aí que acontece a violência familiar. Que também é uma exclusão social, porque a pessoa é excluída do seio familiar. 

 

MidiaNews - Existe um movimento para acolhimento de transexuais expulsos de casa?

 

Daniella Veyga - Não, ainda não tem. Há um projeto da ong Mães Pela Diversidade, que é o de implantar esse projeto da casa, em que acolhe LGBTs expulsos do seio familiar. E essa casa iria acolhê-los. Então essas mães abrigariam essas pessoas em um ambiente familiar, fazendo com que eles não desistissem da educação, da escola, do mercado de trabalho, fazendo um papel de mãe.

 

MidiaNews - Como está a questão da criminalização da homofobia? E em especial aos casos de transfobia.

 

Daniella Veiga - Essa política da criminalização ainda temos dificuldade em aprovar, por conta do Congresso que temos. Nós temos o Congresso mais conservador desde a época da ditadura militar. Então toda política a minorias tem dificuldade de ser aprovada. A criminalização da LGBTfobia - que são crimes de ódio contra LGBT - é uma delas. Sejam elas de injúria, de difamação ou mesmo de violência física. A questão das travestis e transexuais ainda é mais delicada, pois estão expostas à violência na rua. Elas ainda estão expostas à violência doméstica. Elas também casam e também vivem esse ciclo: apanha do marido, separa, faz conciliação, volta e a acontece reincidência.

 

Nós também trabalhamos muito no sentido de reconhecer que as travestis e transexuais sejam englobadas nas medidas protetivas da violência doméstica por meio da Lei Maria da Penha. E isso ainda depende do delegado e da delegada que atende a ocorrência. 

   

MidiaNews - Neste ano, Mato Grosso tem quatro candidatos a deputado que representam o público LGBT. Destes, três são de partidos aliados de Jair Bolsonaro, que tem uma posição mais conservadora. Você acredita que a população LGBT está representada por eles?

 

Daniella Veiga - Eu não me sinto representada. E quando dizemos que política e religião andam juntos, nós não mentimos, mas isso não deveria acontecer. Política é uma coisa, religião é outra. A partir do momento que se entra dentro do Congresso Nacional, dentro da Câmara dos Vereadores, ou do Palácio do Governo, a religião deve ficar pra trás. A laicidade do Estado deve imperar naquele espaço.

 

É muito entristecedor a gente ver candidatos LGBTs e que defendem as políticas de inclusão para LGTS cercados de conservadores. Eu sempre digo que aquele que não defendem os LGBTs têm as mãos sujas de sangue. Então, ao meu ver essas pessoas também têm as mãos sujas de sangue, por mais LGBTs que elas sejam.

 

Nós só mudamos a política quando estamos dentro dela. Mas como nós vamos aprovar uma pauta importante para comunidade LGBT estando em volta de colegas conservadores?

 

 

MidiaNews - Agora falando da Câmara dos Vereadores de Cuiabá. Aqui nós temos vereadores que os representam?

 

Daniella Veyga - Não. Eu não me sinto representada de forma alguma. Até porque nenhuma pauta LGBT consegue passar tanto na Câmara quanto na Assembleia Legislativa. Uso como exemplo o governador Pedro Taques. No início do governo, ele criou o Conselho LGBT do Estado, e esse mesmo conselho foi derrubado pela Assembleia Legislativa. Na época, eles alegaram que geraria custo ao Estado, que seria desnecessário. E muito pelo contrário: o conselho traria recursos ao Estado para a política de diversidade.

 

A gente consegue enxergar que esse veto, essa derrubada, está carregado de conservadorismo. Diferente de outros Estados, Mato Grosso é muito conservador. Então isso dificulta muito na passagem de matérias que venham beneficiar a diversidade.

 

MidiaNews - Quando você fala em Estado conservador, também é bom lembrar que fomos uma das primeiras a realizar a Parada LGBT no País. Não é um incoerência?

 

Daniella Veyga - A Parada da Diversidade só é forte porque o movimento é muito engajado, articulado e consegue massificá-la. Porque se dependermos de política de Estado e Municipio para realizarmos a Parada da Diversidade, ela não aconteceria.

 

E é muito contraditório porque onde tem o movimento mais engajado, mais forte, infelizmente é onde ocorre mais violência de direitos de pessoas LGBT, segundo o Disque 100. Não é um título que traga orgulho a Mato Grosso, o de ser o Estado que mais viola o direito LGBT, um dos Estados mais violentos para LGBTs viverem. Queremos mudar essa realidade.

 

 

MidiaNews - A propósito da Parada da Diversidade, o que podemos esperar do evento este ano?

 

Daniella Veyga - A 16ª Parada da Diversidade Sexual terá o tema “Viver é um ato político. Nosso voto, nossa voz”. É para alertar todos os LGBTs - e as pessoas que apoiam a causa da diversidade - que nós só vamos mudar a realidade através do voto. Porque quando chega na época da eleição, várias pessoas vêm bater nas costas dizendo que apoiam a causa, que não é justo o que acontece conosco, e querem contribuir com a política. 

 

Mas quando é eleito - e nós batemos na porta dele para pedir ajuda - ele vira as costas para a comunidade. Então, esse não é o político que queremos. Ele simplesmente nos usou como massa de manobra para angariar votos e se eleger.

 

MidiaNews - Faltam também no movimento pessoas que se engajem na política, não é mesmo?

 

Daniella Veyga - Sim. Se o grupo LGBT, hoje, se reunisse e escolhesse um candidato, com certeza o elegeremos massivamente. Isso não é feito porque o grupo é fragmentado. Porque as lésbicas dizem que tal pessoa não as representa, os gays a mesma coisa. Então precisamos buscar a unidade desse grupo para que possamos fortalecer e futuramente eleger um candidato LGBT, que defenda as pautas LGBT.

 

MidiaNews - Há um divisão das agendas dentro do próprio movimento?

 

Daniella Veyga - Sim, há uma divisão, e isso enfraquece. Mas nós tentamos fortalecer dentro dos comitês, dentro da própria parada. Mostrando que a parada e que os LGBTs também sabem de política, também dominam a política. Que as travestis e transexuais também possam falar de política. E que a gente pode sim ajudar a nossa comunidade com muito vigor, com muita determinação. E mudar a realidade do nosso Estado. 

 

MidiaNews - Podemos afirmar que a Parada da Diversidade é para quebrar o preconceito? O que vemos é que muita gente torce o nariz, vendo-a meramente como uma festa. Você acredita que falta às pessoas darem o devido respeito ao evento?

 

Daniella Veyga - As pessoas se levam muito pela internet, pela televisão e até pela boca do povo. A Parada Diversidade é um evento político. As pessoas não enxergam que antes da parada há ciclo de debate, seminários com universitários, comunidade LGBT, com toda a comunidade mato-grossense. Discutimos políticas públicas para saúde, para educação. Fazemos ações governamentais.

 

Eu costumo dizer que a parada é como o réveillon. No dia 31 de dezembro a gente não se reúne para comemorar todas as vitórias do ano que se passou, e celebrar essas vitórias e dali para frente construir um novo ciclo de luta? Eu vejo a parada assim, como o fim de um ciclo de luta e a renovação dos votos para o próximo período.

 

MidiaNews - Como a agenda transexual é trabalhada aqui em Mato Grosso?

 

Daniella Veyga - Muito difícil. No primeiro momento temos a dificuldade de criação do ambulatório do atendimento às pessoas travestis e transexuais. São segmentos que precisam de atendimento especializado: de endocrinologista, ginecologista, proctologista, clínico geral. 

 

Quando a gente procura o serviço público, em um PSF [Posto de Saúde da Família] ou policlinica, a atendente olha para nossa cara e fala: “Vou te encaminhar para o SAE”. O SAE é o Serviço de Atendimento de Endemias, que é onde são atendidas pessoas com hepatites virais, HIV/AIDS, DST. Então já existe o preconceito à primeira vista. O grande impasse é esse.

 

Outro impasse, que já está sendo superado, é a questão de retificação do nome de travestis e transexuais. Há o provimento do STF [Superior Tribunal Federal], que diz que as pessoas travestis e transexuais podem mudar o nome diretamente no cartório, sem precisar ingressar com uma ação judicial. Só que aqui em Mato Grosso é muito difícil, porque nosso Judiciário também é conservador. Eles diziam que era necessária a mudança de sexo, sendo que o Estado não oferta essa cirurgia. Muitos deles simplesmente negavam pelo conservadorismo. 

 

Houve até um caso em que o magistrado sentenciou a cura gay aqui no Estado, afrontando a Constituição.

 

Então, depois que foi baixado o provimento, que pode ser feita a retificação diretamente no cartório, isso foi suspenso. Agora temos essa facilidade de mudar o nome e gênero por meio do cartório. Isso foi uma vitória do movimento LGBT.

 

Hoje, o grande impasse para as travestis e transexuais é o acesso à educação e à saúde. As travestis e transexuais morrem dentro de casa porque não procuram o SUS.

 

MidiaNews - Aqui em Mato Grosso, temos o deputado federal Victório Galli, um dos mais destacados representantes da bancada evangélica. Ele se mostra contrário ao casamento gay. Como você vê a atuação deste deputado?

 

Daniella Veyga - Eu não vejo atuação nenhuma. Não pactuo com a política que ele desenvolve na Câmara dos Deputados. E eu acho que ele não representa de fato o nosso Estado. Sendo que o nosso Estado é diverso. Precisamos enxergar a diversidade dele. Se o deputado foi eleito para defender apenas um tipo de população, infelizmente ele está defendendo errado. Porque ele tem que defender a todos.

 

Eu, como travesti e transexual, eleitora, pago meus impostos, contribuo com o PIB do meu Estado, quero ser representada. E a partir do momento em que eu contribuo com a economia do meu Estado, eu também contribuo com a conta bancária do senhor Victório Galli. E espero ser representada por ele. E rezo para que o senhor Victorio Galli não se reeleja. Porque se eu tenho uma pessoa que não me representa, ela não deve estar naquele cargo. 

 

 

MidiaNews - Como analisa essa “nova cara dos militantes” em Mato Grosso? Acredita que a luta dos 80 é diferente da de agora?

 

Daniela Veyga - A nova configuração da militância é muito diferente. Antigamente, era uma militância mais velha. Hoje vemos a militância mais nova. A juventude LGBT está mais consciente politica e socialmente.

 

Temos militantes que começam ainda na adolescência, já carregando essa carga política, a luta. E aqui é muito difícil ser militante, recebemos muita porta na cara. Muito cancelamento de agenda.

 

Se não somos nós militantes colocando a boca no trombone na mídia, nas redes sociais, através da Parada da Diversidade, nunca vamos fomentar a política e nunca seremos ouvidos. A gente só consegue se projetar desta maneira.

 

A mídia se democratizou, e ainda ajudou a democratizar todas as questões políticas de mulheres, negros, LGBTs, pessoas com deficiência. A imprensa é uma grande aliada da população LGBT. Então construímos juntos.

 

MidiaNews - Como funciona essa militância nas redes sociais? Os textos no Facebook e Instagram auxiliaram no ativismo LGBT?

 

Daniella Veyga - Sim. Um texto que postamos, que temos uma razão, recebem milhares de compartilhamentos e isso massifica a nossa luta e dá protagonismo à gente.

 

MidiaNews - Quando você começou a sua militância?

 

Daniella Veyga - Eu comecei a minha militância com 15 anos, a partir do grêmio estudantil da escola. Fui para militância de juventude, fui para União Nacional dos Estudantes [UNE] e desenvolvi toda essa política de educação dentro do ensino superior viajando todo Brasil.

 

Retornei para meu Estado para terminar meu Ensino Superior e hoje eu milito no movimento social do Estado, no movimento estudantil, e nacionalmente na instância de educação em direitos humanos. 

 

MidiaNews - E quando você se descobriu transexual? 

 

Daniella Veyga - Meu processo de travestilidade aconteceu quando eu tinha 16 anos. Eu estava escola, consegui sair daquela casquinha de proteção familiar e comecei a enxergar o mundo de uma forma diferente. De conhecer culturas diferente. E eu enxergava que não era aquilo que as pessoas queriam que eu fosse. Eu me enxergava feminina, mulher. Eu tinha aversão às roupas que usava. Então, comecei a ver que tinha algo de diferente. E comecei a observar as pessoas.

 

MidiaNews - E como foi a aceitação na escola e na família?

 

Daniella Veyga - Eu sempre tive o gênero muito forte. No processo de travestilidade, que é onde acontece o maior processo de evasão escolar, você começa a ser meio andrógeno: o cabelo cresce, passa um pó compacto no rosto, um dia você vai com uma blusa feminina e uma calça masculina, no outro dia é o inverso. E isso vai gerando um estranheza visual. 

 

A primeira vez que fui de salto alto a diretora da minha escola me chamou na sala e disse para eu não ir mais à escola de salto alto, porque isso gerava um estranheza nos estudantes.

 

Quando entrava no banheiro masculino, me xingavam, me assediavam e eu não me sentia bem. Então, eu comecei a usar o banheiro feminino. E a diretora novamente me chamou e disse para eu não usar mais o banheiro feminino, porque as pessoas estavam reclamando. 

 

Então como tinha o gênero muito forte, eu falei: “O problema é seu”. E disse que continuaria a usar o banheiro feminino e indo de salto alto para a escola. E disse ainda que isso era um problema meu, e que ela não poderia interferir nisso. Aí a gente já visualiza a interferência da equipe gestora da escola. Ao invés de cuidar, tenta se eximir.

 

Também houve a vez em que a diretora disse que, se eu não mudasse, ela chamaria a minha mãe. Então, a gente já sofre o preconceito ali. E quando ela aciona a família, a gente também sofre o preconceito em casa.

 

MidiaNews - E como era a sua relação dentro de casa?

 

Daniella Veyga - A minha mãe sempre foi muito progressista. Ela trabalhou na comunidade e sempre teve em contato com todo tipo de pessoa. Então, no começo ela dizia que era muito difícil, porque como era bairro, ela disse que sofria muito com o julgamento. Então, ela aprendeu a aceitar, a se acostumar.

 

MidiaNews - Você está me contando da postura de uma pessoa muito forte para enfrentar preconceitos, apesar da pouca idade. Acha que isso teve base familiar?

 

Daniella Veyga - A criação fez muita diferença. A minha mãe me criou sozinha, não tive pai, presença paterna. Então eu via a força da minha mãe, e era nessa força que eu me espelhava. Se a minha mãe teve a forma de me criar e conduzir uma família sozinha, por que irei me fraquejar na frente da sociedade?

 

Minha mãe sempre teve o gênio muito forte, e eu carreguei isso dela. E por meio dessa força, que espelhei na minha mãe, que consegui terminar o meu Ensino Médio, que entrei dentro da universidade, e quero terminar. E futuramente, entrar em uma carreira promissora.

 

 

MidiaNews - E na universidade, você chegou a sofrer algum preconceito?

 

Daniella Veyga - Na minha universidade não. Talvez pelo fato de eu ter um pouco de conhecimento e ser um pouco conhecida. Então, as pessoas tentam tomar cuidado comigo, mas houve denúncias de alunas que tentaram proibir meninas de usarem o banheiro, não aceitarem o nome social na chamada. 

 

Então, na época eu era diretora da UNE, nós denunciamos essa atitude para o Ministério Público e a universidade foi acionada.

 

 




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56 Comentário(s).

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Odete  31.08.18 10h05
Mentira, não tem esse de crime contra LGBT, existe sim crime contra toda sociedade Brasileira, não temos paz nem dentro de casa. Tem que parar essa palhaçada de querer priorizar grupos e deixar de lado toda sociedade que sofre.
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Reginaldo  28.08.18 16h03
Quer dizer que o sujeito LGBT terá regras/leis específicas para os mesmos? Quais garantias o restante da população terá que estes cidadãos não infringirão as nossas leis? e caso isso ocorra, qual lei será utilizada? a deles ou a nossa? Um assassino gay é menos assassino que um hetero? agressão em um hetero é menos agressão que em um gay? Pára com isso, somos iguais perante a lei e pronto.
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6
Dora Aventureira  28.08.18 08h35
Como diz o ditado: "O meu respeito começa, quando o do outro termina." Vocês LGBTS não respeitam as religiões católicas/protestantes, só querem enfiar goela abaixo a sua cartilha. Ngm é obrigado a nada!
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alex r  27.08.18 18h32
MEu nome é Alexandre Rodrigues, cidadão Cuiabano.Marcos carvalho tenho vergonha e pena de tipos como vc que quer ser maior que a maioria. Falam de direitos iguais mas querem ter mais que os demais.Um crime contra LGBTs é um crime contra um cidadão e ponto final.
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5
Marcos Carvalho  27.08.18 16h12
Quanto hetero desinformado comentando a entrevista. Dá muita vergonha em ler essas coisas. A única coisa pedida aqui são direitos iguais e respeito. Ninguém aqui tá pedindo para vocês aceitarem nada. Se vocês não aceitam, problema é de vocês. Estão pagando a nossa conta? Eu ou a Daniella estamos dependendo de vocês pra alguma coisa? Contribuímos com os mesmos impostos que vocês e temos direito a ter os mesmos direitos. Agora, para todos esses seres que comentaram e não deram seus nomes reais, a minha pena para vocês, que devem ser uns coitados, que estão mais preocupados com a vida alheia.
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