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Entrevista da Semana / CORRUPÇÃO
02.09.2017 | 19h25
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Analista: delação é marco, mas não deve mudar práticas políticas

Alfredo Menezes levanta hipóteses para explicar gigantesco esquema de corrupção da era Silval

Alair Ribeiro/MidiaNews

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Alfredo da Mota Menezes comentou sobre delação premiada de Silval

VINÍCIUS LEMOS
DA REDAÇÃO

Os últimos acontecimentos na política de Mato Grosso surpreenderam até mesmo quem há anos estuda o assunto. O historiador e analista político Alfredo da Mota Menezes confessou, em entrevista ao MidiaNews, que se surpreendeu com a delação premiada do ex-governador Silval Barbosa (PMDB) e classificou o episódio como o de "maior impacto" que já viu no Estado.

 

Em sua delação, Silval citou diversos nomes da política mato-grossense, entre eles o ministro Blairo Maggi, deputados, senadores, o governador Pedro Taques (PSDB), além de ex-parlamentares.

 

Além disso, anexou imagens de políticos sendo filmados recebendo "mensalinho" no Paiaguás. Um dos filmados é o prefeito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro (PMDB).

 

Menezes levanta hipóteses que possam explicar por que o Governo Silval Barbosa desviou tantos recursos públicos. Uma das explicações está no grande crescimento econômico de Mato Grosso.

 

"O orçamento do Estado era raquítico. Hoje está batendo R$ 20 bilhões. Então, há mais dinheiro para se roubar", afirmou.

 

Apesar de todo o impacto causado pela delação, ele é cético sobre suas consequências. “É importante vermos o que vamos tirar desse limão, para ser marcante. Se sairmos daí sem aprendizado, vai continuar como antes. A gente fica com um pé atrás se vai mudar ou não. Eu não sei. O Brasil, historicamente, mostra que a corrupção é um mal que nos acompanha”, disse.

É importante vermos o que vamos tirar desse limão, para ser marcante. Se sairmos daí sem aprendizado, vai continuar como antes

 

Veja os principais trechos da entrevista:

 

MidiaNews – Nas duas últimas semanas, o noticiário foi tomado pelas revelações feitas pelo ex-governador Silval Barbosa ao Ministério Público Federal (MPF) em sua delação premiada. Aliás, muitos crimes no Brasil estão sendo descobertos por causa das delações. Como o senhor enxerga esse mecanismo?

 

Alfredo da Mota Menezes – Eu acho válido. É uma grande "descoberta" da Justiça brasileira. A Lei não mudou, é a mesma de combate à corrupção há tempos. Mas de uns anos pra cá, parece que a Justiça está trabalhando mais, porque entrou o instituto da delação premiada. Foi a única coisa que modificou nesse período no Brasil. As leis são as mesmas, não há novidade. Então, a delação veio para ajudar a descobrir as coisas que estão sendo desvendadas. Mas é importante fazermos uma ressalva: a pessoa tem que provar tudo o que diz. Porque senão a pessoa comete os crimes, como o Silval diz que cometeu, enriquece, depois acusa e vai pra casa? Ele, e qualquer outro que fizer delação, precisa provar o que está falando.

 

MidiaNews – Como os delatores veem a chance de realizar a colaboração premiada?

 

Alfredo da Mota Menezes – Eles enxergam como uma alternativa de remição de pena. Como, por exemplo, o Silval. Ele estava preso há quase dois anos, a mulher e o filho haviam sido presos, o irmão estava para ser preso... Ele sabe de um monte de coisa. Então, a alternativa que ele tem, para diminuir a pena, é acusar e mostrar. Há gente, como o ministro Gilmar Mendes, que acha que a prisão provisória acaba forçando a pessoa a fazer a delação para sair da cadeia ou para diminuir a pena. Mas eu acho que a delação, que nasceu nos Estados Unidos para combater a máfia, chegou para ficar no Brasil. Se precisar de alguns ajustes, devem ser feitos, mas é um item fundamental. Sem a delação premiada, não teríamos chegado na Lava Jato, nem nas investigações em Mato Grosso, onde chegamos.

 

MidiaNews – O senhor não acha que os benefícios da delação sejam exagerados? Silval terá que devolver "apenas" R$ 70 milhões.

 

Alfredo da Mota Menezes – Se a pessoa não provar aquilo que delatou, é exagerado. Mas ela provando, diminui a pena. Muitos da sociedade podem dizer que "a pessoa cometeu um delito e agora vai ser perdoada". Mas se é provado que houve a falcatrua enorme, em desfavor de um Estado, acho que vale a pena.

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Alfredo da Mota Menezes

Alfredo afirmou que acha difícil que Silval tenha provas referentes a todas as revelações que fez à Justiça

MidiaNews – A delação surpreendeu até mesmo pessoas que eram mais antigas na política. O senhor também ficou surpreso com tantos crimes contra os cofres públicos e com o volume de recursos desviados?

 

Alfredo da Mota Menezes – Vou entrar por um viés que faço há algum tempo. Aqueles que estão sendo acusados, como o Silval e tudo mais – seja membros do Tribunal de Contas e da Assembleia – vão se defender juridicamente. Se tiverem problemas, vão responder na Justiça. Aqueles que tiverem questões eleitorais, irão responder também e terão problemas no próximo ano ou em outras eleições. Mas eu gostaria de saber: por que aconteceu isso?

 

Nós temos que entender o que aconteceu para ver se melhoramos os mecanismos de controle. Estou levantando algumas hipóteses. O primeiro motivo: um grupo ficou no poder por doze anos sem oposição [referindo-se aos governos de Maggi e Silval]. O Dante foi derrotado no Senado em 2002. Ele viria como deputado federal em 2006, mas faleceu, e a oposição ficou sem ninguém para fazer essa representação. Não digo que a oposição é santa, mas se ela é feita por um grupo forte – com perspectiva de voltar ao poder e que sabe onde está a corrupção – aqueles que estão no Executivo ficam até com receio, porque se a oposição chegar ao poder no mandato seguinte, vai atrapalhar aqueles que estavam praticando corrupção.

 

E neste momento, em Mato Grosso, ficamos mais de uma década sem nenhuma voz na oposição. No plano federal também tivemos 12 ou mais anos do PT e nós vimos o que deu.

 

Segundo ponto: a riqueza de Mato Grosso cresceu muito nos últimos anos. O nosso PIB era cerca de R$ 10 bilhões. Hoje, passa de R$ 100 bilhões, por conta da produção no campo, do agronegócio e tudo mais. O orçamento do Estado era raquítico, era o mesmo da Prefeitura de Cuiabá atualmente. Hoje, ele está batendo R$ 20 bilhões. Então, há mais dinheiro para se roubar.

 

Terceiro ponto: a mídia social que muitos achavam que exercia um controle maior na corrupção não ocorreu. A mídia tradicional e os novos blogs, do qual faço parte, não conseguiu controlar o que aconteceu em Mato Grosso. E eu achava, erroneamente, que com as mídias sociais disseminadas, smartphones e tudo mais, a classe lá de cima ficaria com receio de colocar a mão no cofre, porque qualquer coisa poderia espalhar. Mas não houve nada disso.

 

Quarto ponto: os órgãos de controle do Estado, principalmente Assembleia Legislativa e o Tribunal de Contas, que recebem um duodécimo gordo – o da AL passa de R$ 500 milhões, o do TCE ultrapassa R$ 360 milhões. Os valores são maiores que os orçamentos de quase todas as prefeituras do Estado. A sociedade dá esses duodécimos para que esses órgãos falem em nome do povo e controlem os governos. A função da Assembleia Legislativa e do Tribunal de Contas, entre outras coisas, é essa. E descobrimos, segundo a delação do Silval – os conselheiros ainda podem se defender –, que tinha um dinheiro por fora, para fazer justamente o contrário do combate à corrupção.

 

MidiaNews – O senhor acredita que os órgãos de controle não funcionaram para impedir os desmandos da administração de Silval Barbosa?

 

Alfredo da Mota Menezes – Pensando no ‘day after’ [‘dia seguinte’], nós temos nos Estados, a Controladoria-Geral do Estado. Eu recebi uma lista de ações que moveram durante a gestão do Silval, nas quais eles diziam para não fazer tais medidas. Eles têm um relatório anual de tudo o que diziam ao Governo. A pergunta que fica: a CGE, em Mato Grosso e em todo o Brasil, serve pra quê? O governante senta em cima da recomendação. Ele não obedece e a CGE não pode fazer nada. Nós temos que descobrir, no Brasil, um mecanismo para fazer com que as controladorias sejam obedecidas. E caso elas não sejam obedecidas, que tenham chances de mostrar o que está acontecendo, porque senão não adianta.

 

Outro exemplo: O Ministério Público de Contas recomendou, em um parecer técnico forte, não aprovar as contas do Silval. Mas o Pleno do Tribunal de Contas se reuniu e aprovou. E o MPC não pode apelar a lugar nenhum. Então nós temos um órgão, dentro de uma instituição, que é para controlar isso, mas quando o Pleno decide ir em uma direção, seja com propina ou não, aquele Ministério Público de Contas não pode apelar para lugar nenhum.

 

O Ministério Público aqui fora, quando perde em uma instância, apela para outra. Dentro do Tribunal de Contas, ele apela pra quem? Para nada. Então, qual é o valor do Ministério Público de Contas? Eu estou preocupado é com o ‘day after’. Como que nós poderemos sair dessa crise de corrupção no Estado? Melhorando os órgãos de controle, para ver se a corrupção diminui um pouco.

 

O Ministério Público de Contas recomendou, em um parecer técnico forte, não aprovar as contas do Silval. Mas o Pleno do Tribunal de Contas se reuniu e aprovou

MidiaNews – Quando o senhor diz que a Controladoria-Geral do Estado orientou diversas modificações em relação ao modo como seriam gastos os recursos, o Governo não acolheu nenhuma delas. Então nenhum tipo de providência foi tomada para que a gestão de Silval respeitasse a CGE?

 

Alfredo da Mota Menezes – A CGE não pode apelar para outro lugar, caso o Executivo não acate suas orientações. Neste caso, qual a validade da CGE? O que temos que fazer, em Mato Grosso e no Brasil, é descobrir como dar força à CGE. Seria necessário passar uma Lei no Congresso para fortalecer a Controladoria. Eu penso que se a CGE encaminha o relatório ao Governo, poderia enviar ao Tribunal de Contas, ao Ministério Público e para a Assembleia também, porque todos os governantes sentam em cima de qualquer parecer da CGE. A Controladoria faz um relatório bonito, mas não é cumprido.

 

MidiaNews – O parecer do Ministério Público de Contas foi pela reprovação das contas de Silval Barbosa. Porém, ainda assim o TCE as aprovou. Isso levanta suspeitas sobre a Corte?

 

Alfredo da Mota Menezes – Exatamente. O Ministério Público de Contas foi contra aprovar as contas do Silval, mas o pleno do TCE aprovou. O MPC não pode apelar para lugar nenhum? Ou seja, o Pleno falou e acabou? Não estou dizendo que houve isso – os conselheiros e o TCE têm toda chance de mostrar na Justiça que isso não ocorreu. Mas se eles não mostrarem, se hipoteticamente acontecer de as coisas que o Silval falou serem verdades, então prova que não há nenhum controle. E aí, como ficamos na sociedade? O seu João da Silva, um brasileiro comum, que toma dois ônibus para trabalhar e mais dois para ir para casa, como vai preocupar com isso? O TCE, a AL e o MPC falam em nome da sociedade, mas isso não está acontecendo.

 

MidiaNews – O Silval Barbosa disse que entregou mais de R$ 50 milhões a conselheiros, para que eles aprovassem as contas de sua gestão. O senhor acredita que o TCE foi cúmplice do ex-governador?

 

Alfredo da Mota Menezes – Sempre fazendo a ressalva de que eles dizem que vão provar nas instâncias jurídicas que não houve nada disso. Então, dando esse respaldo, de que podem provar o contrário, eu vou em frente. Mas falando em cima da delação, se houve essa questão dos R$ 53 milhões, o baque é muito grande. A sociedade concorda com o duodécimo, que é para o TCE controlar o Executivo em nome do povo, para que não sejam cometidos deslizes. E aí, na delação do Silval, estamos vendo que existiria um algo não republicano, que elimina a função do tribunal, de vistoriar o Executivo, porque o órgão não estava fazendo isso. Então, seria um baque muito grande.

 

E o pior pra mim não é concluir sobre esse assunto. É que o jovem, de 14 a 17 anos, que vê figuras como senador, deputados, conselheiros, membros do governo, seja de que lado for, cometendo esses tipos de crimes. Aquelas pessoas que estão nessa condição, que têm o dever de influenciar positivamente os mais jovens, estão influenciando negativamente. Os jovens poderão dizer: “se lá em cima, se esse pessoal que venceu, faz isso, por que não posso fazer aqui embaixo?”. O pior é esse pessoal passar esse exemplo negativo para a juventude.

 

MidiaNews – O senhor acredita que Silval mentiu em alguns pontos de sua delação premiada?

 

Alfredo da Mota Menezes – Não sei se ele mentiu ou deixou de mentir. Porém, há um ponto forte nesse assunto. O Silval fez a delação lendo. Ela foi escrita, corrigida e reescrita antes. Ele concordou com aquilo. E mais, contratou o escritório de uma família que advoga há mais de 100 anos no Brasil, que é a Lins e Silva. Então, esse pessoal deve ter orientado o Silval para fazer aquilo por escrito, de acordo com todas as normas possíveis. Porque se chegar lá em cima, na Procuradoria-Geral da República e eles encontrarem brechas ou erros, a delação pode ser anulada. Então, “a favor” da delação do Silval está o fato de ele ter sido bem orientado por um escritório, para que não seja possível dizerem, lá em cima, que foi erro. Então, o pessoal que ele está delatando, pode ser que, com esse trabalho do escritório Lins e Silva, fique mais difícil para dizer o contrário.

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Alfredo da Mota Menezes

Alfredo comentou que os crimes relatados por Silval Barbosa trazem péssimo exemplo para a juventude

E [caso haja alguma mentira] pode até anular a delação. Anulando, o Silval volta para a cadeia. Essa é a regra, não pode mentir, tem que comprovar. Então, imagino que o Silval, quando mudou de advogado e escolheu um escritório com experiência em delação, ele queria uma coisa bem fundamentada, para que não retorne à cadeia.

 

MidiaNews – Diante de toda orientação que recebeu, é difícil o Silval ter mentido durante as revelações à PGR?

 

Alfredo da Mota Menezes – Fica difícil dizer. Mas ao que tudo indica, ele foi bem orientado a fazer a coisa mais séria possível. Mas insisto, ele vai ter que provar muitas coisas. Essa dos deputados está provada. O filmado é mais difícil negar, mas mesmo assim teve um deputado federal que disse que ‘ninguém me viu pegando em dinheiro, não tenho nada com isso’. Um vereador, comentando sobre o prefeito, disse que o vídeo estava fora do contexto. Fora do contexto é uma frase. O de Rondonópolis disse que ali, no vídeo, 'supostamente' era a figura dele. Como assim supostamente?

 

MidiaNews – Por que o Silval fez as gravações dos pagamentos de propinas? Ele já pretendia usar depois? Foi pensando em uma possível punição que ele poderia sofrer posteriormente?

 

Alfredo da Mota Menezes – Não imagino. Inclusive, uma das conversas em Cuiabá é sobre isso. Eu acho que o Sílvio gravou para uma pressão individual, lá na frente, mesmo quando estivesse fora do Governo. Não imagino que o Silval fez essas imagens pensando em uma delação premiada. Ele gravou para ter uma prova, em cima de cada deputado. O Silval não imaginava que fosse preso. Não imagino que um cara que está no Governo pense ‘estou aqui, vou ser preso e já vou me preparar para me defender’. Não acredito nisso.

 

MidiaNews – A delação de Silval é um marco na política de Mato Grosso?

 

Alfredo da Mota Menezes – Não tenho dúvidas de que é o maior impacto que já vi, em questão de corrupção, porque atinge tudo e quase todos. Sobre ser um marco - o antes e depois -, é importante vermos o que vamos tirar desse limão, para ser marcante. Se sairmos daí sem aprendizado, vai continuar como antes. Temos que dar forças para a CGE, para o MPC, para o MP, não podemos ser ‘engambelados’ por conversa da classe política, porque eles falam o que querem e todo mundo aceita. Parece que a pessoa atinge um patamar – seja deputado federal ou estadual, secretário ou senador – adquire uma aura na qual tudo o que ela fala é verdade e tudo para a sociedade está ok. Mas é preciso investigar. Eu veria que existe antes e depois se houver uma modificação para melhor.

 

MidiaNews – Nas eleições do ano que vem, o senhor acredita que vai haver reflexos?

 

Alfredo da Mota Menezes – Vai haver mudança, mas depende também da aprovação da Reforma Política, o “remendo eleitoral de Brasília”. Se for daquela maneira, vai favorecer a reeleição de quem está aí. Nesse aspecto, pode derrubar o novo. Esse é um detalhe nessa reforma que tem que ser visto.

 

Mas veja só: no Amazonas, agora houve uma eleição, depois que o governador e o vice foram cassados, e desencavaram Amazonino Mendes, com 77 anos, que foi governador duas vezes, prefeito de Manaus e tem vários processos. O senador pelo PMDB, Eduardo Braga, que tem vários processos, também foi para o segundo turno. Havia vários candidatos novos, em outros partidos, mas o eleitorado do Amazonas levou os dois caciques processados adiante. E ganhou o mais velho deles. Eu estou com receio de pensar que vai haver uma grande renovação no Brasil, mas quando chegar na hora da eleição, os velhos caciques sejam mantidos. Apesar disso, acredito que vá haver alguma renovação, mas não acredito que seja radical.

 

MidiaNews – O senhor não acredita que a delação de Silval Barbosa vá mudar o cenário político do próximo ano?

 

A questão das imagens gravadas pelo Silval, mostradas em cadeia nacional, acredito que chegam na ponta, na Dona Maria do CPA, e no eleitor distante

Alfredo da Mota Menezes – A questão das imagens gravadas pelo Silval, mostradas em cadeia nacional, acredito que chega na ponta, na Dona Maria do CPA, e no eleitor distante a mil quilômetros. Porque aquela coisa de falar que fulano roubou, é difícil de chegar na ponta, aí na eleição, aquele candidato que tem acusação, chega lá e vira a situação. Tem algo novo no ar que são as gravações mostradas pela televisão. Aí pode ter algo maior.

 

MidiaNews – Sobre questões judiciais, o senhor acha que os envolvidos na delação vão conseguir se candidatar novamente?

 

Alfredo da Mota Menezes – Não vai ter problema, porque a gente sabe que, de acordo com a Lei da Ficha Limpa, a candidatura somente é impedida se houver condenação em segunda instância. Primeiro vai correr o inquérito agora. Se houver uma denúncia no ano que vem, por parte do Ministério Público, ainda vai ter a segunda instância. É o caso do ex-presidente Lula, que foi condenado em primeira instância e agora temos que ver a segunda. Acredito que seja o mesmo caso dos deputados estaduais.

 

MidiaNews – O senhor acredita que os políticos citados na delação de Silval conseguirão se reeleger?  

 

Alfredo da Mota Menezes – Para os deputados que estavam nas filmagens do Silval e que se candidatarem à reeleição, a situação vai ser difícil. Eles terão dificuldades para se reeleger. Mas não acho que isso seja impossível, porque o cara cria uma versão e vai lá e conta para o eleitor de longe, diz que aquilo foi montado. Aí vamos supor que tem um cabo eleitoral na região e diz que aquilo tudo foi montado para prejudicar o então candidato.

 

MidiaNews – Acredita que os políticos vão mudar suas práticas a partir de agora?

 

Alfredo da Mota Menezes – Eu tenho um livro que conta a história da política do governo [João Batista] Figueiredo até a eleição do Lula. No meio, tivemos vários casos de corrupção, como os anões do orçamento, que envolvia deputados baixinhos, que quando foi descoberto as pessoas disseram que não haveria mais corrupção. Depois veio o Collor de Mello, que foi cassado por corrupção. Depois veio o Mensalão. E agora nós descobrimos, pelos inquéritos, que em pleno Mensalão, o Petrolão já estava sendo desenvolvido.

 

Em Mato Grosso, com o Silval na cadeia, descobrimos a questão do dinheiro da Unemat, do setor de pesquisa. Então, o pessoal não para [ desviar recursos]. Na época do Collor, a gente pensava: ‘Cassamos o Collor por corrupção, agora vai melhorar’. Mas não melhorou. Pensamos também: ‘Olha, o Mensalão foi descoberto, o Zé Dirceu e o Genuíno estão presos e agora as coisas vão modificar’. Mas nada modificou. A gente fica com um pé atrás se vai mudar ou não. Eu não sei.

 

O Brasil, historicamente, mostra que a corrupção é um mal que nos acompanha. Os americanos, analisando a América Latina, apontaram que existe certa negligência na nossa maneira de ser. Não há aquela punição forte de cadeia ou da sociedade. E se prevalecesse o ponto de vista deles, fica difícil dizer que isso vai mudar do dia para a noite, porque essa é a nossa cultura.

 

MidiaNews – O senhor acredita que os projetos aprovados por Silval na Assembleia são passíveis de anulação, já que ele pagava os deputados para aprovar propostas?

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Alfredo da Mota Menezes

Historiador revelou que há possibilidades de anular projetos aprovados durante a gestão de Silval

Alfredo da Mota Menezes – Eu li um bom artigo, de um tributarista, dizendo que há possibilidade disso. Há entendimento do Supremo Tribunal Federal de ir por esse caminho. Então, veja o rolo que seria no Estado se pessoas ou empresas, que se sentiram prejudicadas, contratarem advogados para entrar com ação para anular leis que, supostamente, atrapalharam eles.

 

Vou mais além: imagine que isso também possa ser levado para a questão do Tribunal de Contas. Que ações tomadas pelo TCE possam ser anuladas, caso seja provado que houve isso ou aquilo. Seria um rolo tremendo no Estado. Mas existe essa possibilidade.

 

MidiaNews – O senhor acha que a solução para melhorar a situação da política do País seja a reforma?

 

Alfredo da Mota Menezes – Não acredito que uma reforma política feita pelo Congresso seja a que nós queremos. Existe uma proposta, que o Congresso não quer, na qual pessoas envolvidas com a questão política, fora do Congresso, elaborariam uma reforma política e levasse para um plebiscito, para ver se a população concorda ou não. Concordando, leva ao Congresso para aprovar. Ela seria mais profunda. Ficar com o Congresso como está, pensando apenas na próxima eleição, não vai sair a reforma política que o Brasil precisa e nós queremos. Vão sair sempre remendos eleitorais. Nós temos 33 ou 34 partidos no Brasil. Então, partidos menores sempre se unem para impedir qualquer reforma que possa prejudicá-los. E aí, como fazer? Como criar cláusula de barreira? Como acabar com coligação? Como criar voto distrital? Esse ponto de vista de que essa reforma profunda deveria ser criada de fora para dentro seria o ideal.

 

Nos Estados Unidos, qualquer criança primária sabe como funciona o processo eleitoral da região. No Brasil, a cada eleição muda. Como é que o cidadão, preocupado com o seu dia a dia, pode entender a modificação eleitoral a cada disputa? Isso não pode. Nós deveríamos ter uma legislação eleitoral que funcionasse durante décadas e não alterasse a cada disputa, porque isso só beneficia a classe política.

 

MidiaNews – Agora vamos falar sobre a situação de Cuiabá. O senhor acredita que o prefeito Emanuel Pinheiro, filmado recebendo R$ 20 mil do ex-governador Silval Barbosa, deveria renunciar?

 

Alfredo da Mota Menezes – Nenhum prefeito faz isso. Mas vamos ser sincero, depois daquilo o prefeito vai ter problemas de imagem, político e eleitoral. Porque falar que ouviu dizer que um prefeito fez aquilo, é uma coisa. Mas ser mostrado da forma como foi, é outra. Mas ouvi falar que o prefeito estaria contratando uma equipe de gerenciamento de imagens em São Paulo, para tentar resolver essa crise. Eu vou querer ver como um pessoal desse trabalha nessa direção para mudar aquilo que nós vimos.

 

Mas acho difícil, para o Emanuel ou qualquer prefeito, renunciar. Porque se ele fizer isso, estará confessando.

 

MidiaNews – O que o senhor acha que vai acontecer com o Pinheiro a partir de agora?

 

Alfredo da Mota Menezes – Ele vai ter dificuldade de administrar, porque vão sempre desconfiar dele. Chegaram a falar que o Emanuel poderia ser um pré-candidato a governador, mas agora há uma pedra no caminho. Ele estava preparando a candidatura do filho a deputado federal, mas não sei se irá manter, porém há uma dificuldade maior agora. E com aquela imagem, fica mais difícil a administração dele.

 

MidiaNews – Acredita que ele vai tocar o mandato até o fim?

 

Alfredo da Mota Menezes –  Acredito.

 

MidiaNews – O vereador Marcelo Bussiki (PSB) apresentou, na Câmara de Cuiabá, proposta para instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o prefeito. Porém, somente cinco parlamentares, além de Bussiki, apoiaram. Como o senhor encara essa situação?

 

Chegaram a falar que o Emanuel poderia ser um pré-candidato a governador, mas agora há uma pedra no caminho

Alfredo da Mota Menezes –  No Brasil, desde que foi criada a coalizão, no plano federal, desde o governo Itamar Franco, o Legislativo perdeu forças perante o Executivo. Porque os parlamentares recebem as emendas, conseguem cargos públicos, secretarias e tudo mais, nos planos federal, estadual e municipal.  

 

Então, quando você olha Cuiabá ou qualquer governo de Estado e tudo mais, vê que a maioria está ao lado do governador, presidente ou prefeito, porque eles podem ter ganhado secretarias, verbas indenizatórias, emenda parlamentar, entre outros itens. E isso é ruim para a politica brasileira, porque uma das funções do Legislativo é controlar e vistoriar o Executivo. Se o Legislativo está nas mãos do prefeito, do governador ou do presidente, ele não vai exercer sua função de fiscalizar o Executivo.

 

MidiaNews – O senhor acredita que foi erro não terem instalado a CPI contra o Pinheiro?

 

Alfredo da Mota Menezes –  Para o lado do prefeito, não, porque uma CPI pode até não chegar à cassação nenhuma, mas faz um barulho danado, o que não seria bom para ele. Para o lado dos vereadores, que ficaram com o Emanuel Pinheiro, se a oposição souber explorar isso, machuca os parlamentares. Os que foram a favor da CPI podem conseguir benefício. Mas sempre funcionou assim no plano federal, sempre vimos que CPI contra o governo não vai pra frente.

 

MidiaNews – Partindo do princípio de que tudo seja verdade na delação, uma outra prática que Silval revelou é uma espécie de jogo de cartas marcadas. Ele disse que Wilson Santos pediu dinheiro para Silval em 2010, para atacar Mauro Mendes. Por outro lado, o DEM – que tinha o deputado Dilceu Dal’Bosco como vice de Wilson -, teria recebido dinheiro para fazer o jogo do adversário. Como o senhor enxerga isso?

 

Alfredo da Mota Menezes – O Wilson disse que vai processar o Silval, que não houve nada disso. O Silval está atirando para tudo quanto é lado. Ele deve pensar: ‘eu, Silval, não vou atacar somente o lado que eu estava. Vou atirar também para o outro lado’. Não estou dizendo que o outro lado é santo, mas está claro que para ele o mais interessante era envolver o maior número possível de personagens de todos os espectros políticos para mostrar que todo mundo está em uma vala comum, seja do PSDB, do DEM, do PMDB. Não sei se ele tem prova a respeito disso. Ele tem que provar muitos casos. Eu não acredito que o Silval tenha prova de tudo aquilo que ele falou. Ele foi muito bem orientado para fazer aquilo por escrito. Mas não sei se ele tem prova de tudo.

 

MidiaNews – Nas eleições de 2018, o selo de delatado vai prejudicar muitos candidatos?

  

Alfredo da Mota Menezes – Vai. Mas volto a dizer, as imagens filmadas são fortes. Essas vão pegar mais. Mas falar que fez ou deixou de fazer são coisas mais complicadas de afetar.  Imagina uma pessoa a mil quilômetros, em determinado distrito, preocupada com seu dia a dia. Será que a delação chega a essa pessoa? Será que ela, preocupada com seu cotidiano, vai dizer: ‘Olha, vi falar que fulano está ligado em corrupção’. Será que isso vai chegar até as pessoas da ponta? Tenho conversado com gente do interior e perguntado isso e percebo que, a não ser a filmagem, o restante o pessoal tira de letra, porque o vereador, ao lado do deputado, vai lá e convence que foi uma armação e até consegue voto. Em síntese, acredito que os filmados vão sofrer impacto. Os citados, nem tanto.




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4 Comentário(s).

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Alexandre Barreto  03.09.17 19h53
Será que o povo matogrossense sabe que a lei da delação premiada foi autoria da ex-senadora Serys Slhessarenko. Fica o lembrete. Essa lei tem a capacidade de inibir a prática corrupta dos políticos brasileiros.
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eulke  03.09.17 13h58
eulke, seu comentário foi vetado por conter expressões agressivas, ofensas e/ou denúncias sem provas
Oseias C. Neves  03.09.17 09h09
Discordo apenas da resposta da primeira pergunta. Afinal, o advento da "delação premiada" deu um novo vigor a lei anti-corrupção. Creio que a delação junto com o aumento dos crimes que estão relacionados a corrupção deu mais vigor as investigações, possibilitando mais interesse da mídia que cumpre importante papel. Acho que estamos sim assistindo o recomeço de uma nova era para a ética da classe política. A sociedade esta bem mais atenta.
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Raso  02.09.17 23h03
Análise Política? Reflexões rasas e superficiais, como sempre.
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