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Cotidiano / VÍCIO NO CRACK
18.06.2017 | 10h15
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"Todo dia eu pedia a Deus que me levasse", relata ex-usuário

Tatuador conta que chegou a morar na rua por causa do vício; com a ajuda da família conseguiu tratamento

Alair Ribeiro/MidiaNews

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O tatuador Nilton Valente Costa, que está há três anos livre das drogas

VINICIUS MENDES
DA REDAÇÃO

Vencer a luta contra o crack não é uma tarefa fácil. Num momento em que o Brasil discute medidas de tratamento, como a internação compulsória, um ex-usuário da droga conta ao MidiaNews como o poder devastador da pedra atrai e aprisiona.

 

A química da droga causa diversos efeitos no corpo, como sensação de mais energia, hiperatividade, bem-estar, elevação do estado de alerta... Mas ao mesmo tempo, provoca aumento dos batimentos cardíacos, da pressão sanguínea e até alucinações, depressão, pânico e paranoia.

 

Para conseguir sair do vício, é necessário, acima de tudo, força de vontade, como afirma o tatuador Nilton Valente Costa, de 34 anos, que foi usuário de vários tipos de droga por mais de 15.

 

Há três anos, após uma internação, ele conseguiu se livrar das drogas.

 

Nilton é natural de Salvador (BA) e lá começou seu envolvimento com as drogas, quando tinha 15 anos.

 

“Meus pais tinham se separado. Aí eu fui morar com meu pai e minha madrasta. Só que não dava muito certo, era muito difícil pra mim.

 

Por causa dos maus tratos, o que eu não tinha em casa eu fui buscar na rua, com os amigos, a galera do ‘rolê’", contou Nilton.

 

O crack é uma droga que tem um poder destrutivo muito grande, e ela não tem classe social

O pai era fumante. E ele acredita que, por isso, não teve vontade de experimentar a droga, de início. A primeira com a qual teve contato foi o álcool.

 

“Até então eu não me identificava muito com o cigarro. Mas eu ia nas festinhas. E lá sempre havia bebida. Aí eu comecei, sempre com os amigos. E logo depois da bebida, eu conheci a maconha, na escola com os amigos. Ainda tinha 15 anos, e depois disso tudo começou a dar errado”, disse o tatuador.

 

Com o passar dos anos, Nilton continuou indo em festas, em raves, e acabou tendo contato com outras drogas, até que a família decidiu interná-lo.

 

“Eu usava a maconha, ia para as festas e tomava ácido, bala (ecstasy), bebia e misturava tudo. E a coisa foi desandando. O descontrole total resultou em uma internação, por iniciativa da minha família. Isso eu já tinha uns vinte e poucos anos. Só que eu internei, mas não levei a sério. Eu queria só parecer que estava bem para minha família”, disse.

 

A primeira internação durou três meses. Ele contou que não deu resultado justamente porque não tinha vontade de mudar.

 

“Eu só queria mostrar para minha família que eu estava bem, mas na verdade eu estava doido para sair e usar mais. Só que, mesmo assim, quando saí eu ainda consegui ficar um tempo limpo sem usar nada. Só que aí eu voltei a beber, achando que podia só beber, né. E uma coisa leva à outra”, contou.

 

Quando saiu da internação, Nilton decidiu se mudar para Fortaleza, no Ceará, na esperança de fugir dos contatos em Salvador.

 

“Eu tentei várias fugas geográficas. Eu pensava que se mudasse para outra cidade, onde não conhecesse ninguém, não conhecesse dono de boca de fumo, então eu conseguiria viver em paz. Só que, por exemplo, você está na rua e começa a perceber que em um lugar tem uma movimentação entranha né. E você vê que ali tem droga, e aí curiosidade te faz ir atrás”, explicou.

 

Nilton disse que a essa altura já queria abandonar as drogas, mas não conseguia. E foi em Fortaleza que ele teve contato com o crack, a drogra devastadora que pode viciar no primeiro uso.

 

“O pessoal fala que eu comecei até tarde. Tinha uns 23 anos. O que acabou com tudo na minha vida foi o crack. Diversas vezes eu usei sem vontade, porque a dependência, a compulsão pelo uso já estava aberta... Então não tinha como resistir”, disse.

 

Por causa do vício, Nilton chegou a morar na rua. Ele conta que, nesta época, chegou a desejar a própria morte.

 

“Eu queria morrer todo dia. Eu usava e pedia pra Deus que aquela fosse a última, que ele me levasse logo. E o crack é uma droga que tem o poder de viciar muito rápido. Então você faz de tudo para usar. O efeito dele é muito rápido também. Ao mesmo tempo que você usa, que ele te deixa naquele êxtase, em coisa de minutos você já está na depressão de novo. Então você busca mais, porque você quer voltar a sentir aquela sensação boa”, explicou Nilton.

 

O tatuador contou que ligava para a mãe, que já morava em Mato Grosso, pedindo ajuda. E que, graças a ela, conseguiu vir para Cuiabá.

 

“Diversas vezes eu liguei pedindo socorro, pedindo ajuda. Só aí que eu fui dar valor naquela internação passada. E eu pensava: ‘Eu preciso de uma internação, estou morrendo aqui’. Eu sei que com o maior esforço, minha mãe mandou a passagem. Porque eu até conseguiria comprar a passagem e vir. Mas quando eu tinha dinheiro, algo maior me arrastava e era aquilo ali que eu queria fazer, que era usar. E é complicado porque às vezes você não quer, mas [a droga] é mais forte”, contou.

 

Quando chegou em Cuiabá, Nilton queria sair da vida com as drogas, mas ainda assim resistiu ao tratamento, pois não queria ser internado.

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Nilton Alves

O tatuador Nilton Valente Costa, de 34 anos, começou a usar drogas aos 15

“Eu queria tratamento, mas eu não queria ficar trancado. Quando entraram na minha cabeça [as expressões] "clínica, trancado, longe de tudo, sem namorada’, aí eu pensei em tentar parar sozinho”, disse.

 

Já em Cuiabá, o tatuador começou a trabalhar e tentava convencer a mãe de que estava limpo, mas já estava envolvido com drogas.

 

“Eu estava muito magro, tentava disfarçar. Arrumei logo um emprego pra minha mãe não desconfiar de nada. Eu ficava trabalhando, saía do trampo e usava. Aí chegava de manhã eu ia arrebentado pro trabalho, mas ia. Fiquei nesse ciclo por um tempo”, afirmou.

 

A mãe de Nilton, no entanto, acabou desconfiando do filho, e três meses após a chegada dele a Cuiabá, ela pediu sua internação.

 

“Minha mãe desconfiou. Viu que eu emagreci muito, via meu comportamento. Eu falava demais, me tornei agressivo, respondia. Nunca tinha respondido à minha mãe, mas quando usava, eu fazia. Aí um dia eu estava em casa usando e os caras chegaram lá - o pessoal da clínica especializada -, grudaram e me levaram”, contou.

 

Nesta segunda internação o resultado foi diferente. Mesmo sem conseguir tomar a iniciativa, Nilton acabou aceitando o tratamento e buscou a recuperação. Lá ele entendeu que seu vício era uma doença.

 

“No começo ainda fui relutante. Eu queria fazer as coisas do meu jeito lá dentro. Mas tem que ter uma rendição. E para mim foi um alívio descobrir que eu tinha uma doença. E que podia ser tratada. Mas acredito que a recuperação só vai funcionar com quem quer, se você tiver o desejo de parar, você vai conseguir parar”, afirmou.

 

Na última sexta-feira (16), Nilton completa três anos longe das drogas. Hoje ele é dono de um estúdio de tatuagem no bairro CPA IV.

 

Ele conta que sua relação com sua família mudou drasticamente com sua recuperação.

 

“Eu roubava até minha mãe. O tempo que eu estava na ativa mesmo, a porta do quarto dela era trancada. Se eu fosse no banheiro urinar, ela ia atrás pra ver se eu estava urinando mesmo. Porque eu roubei muito meus parentes. Hoje eu tenho a chave da casa da minha mãe, de todas as portas. Antes eu não passava nem perto dos chaveiros”, contou.

 

Hoje Nilton é membro do grupo dos Narcóticos Anônimos (NA), e lá ele busca ajuda quando sente vontade de usar droga.

 

“Todo dia você tem que matar um leão. O dia em que estou frustrado, o dia em que brigo com a minha esposa, o dia em que fico irritado ou com alguma ansiedade, o meu cérebro já associa àquele alívio que eu buscava. Então se eu fico com vontade de usar, eu tenho que falar, eu busco alguém no NA para me ouvir. A recuperação é diária. Estou fazendo três anos sem usar, mas o dia que eu vacilar, que não me vigiar, vou voltar a usar”, disse.

 

Durante os anos em que foi usuário, Nilton usou maconha, cocaína, ecstasy, haxixe, álcool, cigarro e crack, que o levou para as ruas.

 

Ele lembra que quando foi morador de rua em Fortaleza chegou a roubar pessoas para sustentar seu vicio.

 

“Na rua eu roubava pra comer, porque assim, se eu conseguisse trabalhar e ganhar alguma coisa era pra usar drogas, como eu sou tatuador, eu conseguia dinheiro fácil. Aí quando acabava tudo e vinha a fome, eu roubava para comer. E assim, eu era enquadrado pela polícia todos os dias, mas não cheguei a ser preso”, contou.

 

Nilton disse que o apoio de sua família foi essencial na recuperação, e que é importante que quem tenha alguém nessa situação demonstre seu apoio.

 

nilton tatuador

Nilton trabalha como tatuador e hoje é dono do próprio estúdio, no bairro CPA 4

“É muito importante que amigos e familiares se importem, porque é uma doença que não tem cura, mas tem tratamento. E eu aprendi a me tratar dentro dessa clínica. Se não fosse a ajuda da minha família, hoje não estaria nada dando certo na minha vida. Só que a pessoa tem que querer. Não adianta você bater e amarrar. Não adianta você ameaçar, ele só vai parar quando ele quiser parar. Mas o tratamento funciona, funcionou para mim e para um monte de gente que eu conheço”, afirmou.

 

Nilton também diz que é importante que as pessoas mudem a visão sobre o viciado.

 

“A sociedade marginaliza muito. ‘Ah aquele ali é um vagabundo, vai roubar pra usar drogas’. Tem o estereótipo de que o usuário é um marginal. Só que o crack é uma droga que tem um poder destrutivo muito grande. E ela não tem classe social. Já conheci médicos, dentistas, advogados, que já foram viciados. O efeito dela é devastador, ao mesmo tempo em que você está na euforia você vai pra depressão, você quer se matar”, disse.

 

Ele acredita na eficiência da internação, mesmo que feita de forma compulsória.

 

“Tem muitos caras que mesmo se for internado à força ele vai agradecer a Deus por ter sido levado, porque não é vida pra ninguém não, cara. E foi a oportunidade que eu tive. A minha história de recuperação, ela é bonita pra mim, que saí do lixo e estou aqui agora. Eu ajudei muitos caras a ficarem limpos com a minha força de vontade, falando que pra mim funcionou, e funciona sim se a pessoa quiser”, afirmou Nilton.

 

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5 Comentário(s).

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Laurinha   20.06.17 15h30
Parabéns Guerreiro 👋👊💙
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eduarda   19.06.17 11h45
Muito linda sua história... De se emocionar, conheço uma pessoa que hoje em dia esta passando oque vc passou, é muito ruim saber que essas drogas pode fazer isso com uma pessoa, na verdade não apenas uma pessoa e sim uma geração que esta crescendo dessa forma, a maconha, droga,o álcool, esta tomando de conta delas ... Não tem mais limites sobre elas "as drogas" . Infelizmente Mais oro e peço para Deus tirar essas pessoas desse mundo, porque é um mundo que não vai trazer benefícios bons para elas e sim ruins . Então na vida devemos procurar melhoras e não pioras, porque de coisa ruim o mundo ja esta cheio e tem tanta coisa ruim que ele nos oferece que temos que nos desviar delas e procura apenas coisas boa . E tenho certeza de que a única coisa boa que devemos procura é a Deus. Ele é o nosso refúgio, nosso melhor amigo, nosso porto seguro e esta na frente de cada passo que a gente dar, basta a gente não desviar dele. E ele diz bem assim : VINDE COMO ESTÁS. Então ele quer a gente como estamos e as demais coisas ele acrescentara e melhorara . Nunca desista de você!!! Incentive e ajude mais pessoas a sair dessa vida ...
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Cidirlene Cunha  19.06.17 08h32
Muito bom ouvir e saber desses relatos que, podem incentivar outras pessoas a buscar tratamentos e sair dessa situação. Que clinica faz esse tipo de tratamento? Se puder responder agradeço
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Gilmar  18.06.17 19h04
Força Deus te abençõe muito, continue na sua luta diária não desista de você!
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Jessica   18.06.17 13h49
Eu leio essas histórias de superação e fico muito feliz, Parabéns Nilton que Deus abençoe grandemente sua vida, que o céu seja seu limite e nunca desista dos seus sonhos pois o que Deus tem para você è lindo e sobrenatural, e ainda tera muitas mudanças boas na sua vida! Isso que ja te aconteceu ainda é pouco pelo que vem por ai! Nunca escrevi comentários nenhum aqui, apenas senti o desejo te falar isso. Fica com Deus.
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