Entrevista da semana
Enquete
Publicidade
Newsletter
Preencha os dados abaixo para receber nossos informativos:
Publicidade
"Não falta respeito; falta educação patrimonial", diz Iphan
Marina Lacerda, que está à frente do órgão há sete meses, fala sobre o trabalho do instituto
Lislaine dos Anjos/MidiaNews
Clique para ampliar 
Marina Lacerda, superintendente do Iphan em Mato Grosso, falou sobre a atuação do órgão e as prioridades
LISLAINE DOS ANJOS
DA REDAÇÃO
“Meu coração dói muito quando eu ouço as pessoas se referirem aos casarões como ‘velhos’. Eles não são velhos, são históricos! Eles têm memórias guardadas! Há toda uma vivência da cuiabania muito forte ali”, afirmou, em entrevista exclusiva ao MidiaNews.
Com ações pouco conhecidas, mas com atuação constante no Estado, o Iphan é uma autarquia do governo Federal, vinculada ao Ministério da Cultura, que trabalha pela gestão e preservação dos monumentos históricos do país.
No Estado, o Iphan-MT foi emancipado em 2009 e tem sua sede no Centro Histórico de Cuiabá. Na direção do órgão, Marina luta para preservar a memória e cultura da região. Ela falou das dificuldades enfrentadas pelo instituto e dos desafios.
Confira os principais trechos da entrevista:
MidiaNews – Você concorda com a afirmação, até certo ponto recorrente, de que o Iphan tem uma atuação tímida e pouco valorizada?

"O Iphan é um órgão fiscalizador e eu entendo que ele não tenha uma atuação tímida"
MidiaNews – Qual é o papel do Iphan em MT?
Marina – O Iphan tem uma sede em cada estado e o papel do Iphan, aqui em Mato Grosso, é a gestão do patrimônio cultural como um todo. Nós fazemos a gestão do patrimônio edificado nas cidades de Cuiabá, Vila Bela da Santíssima Trindade, Cáceres e Chapada dos Guimarães. Fazemos, também, a gestão do patrimônio imaterial, que seriam os ritos, as festas, os modos de fazer. Além desses bens materiais e imateriais, nós também fazemos a gestão do bem material arqueológico. Qualquer sítio arqueológico é patrimônio nacional, e é o Iphan que faz a gestão desses sítios e intermedeia o licenciamento cultural.
|
Lislaine dos Anjos/MidiaNews |
![]() |
|
Marina: "Tombamento é simplementes um congelamento" |
Marina – Nós temos três bens imateriais registrados aqui no Estado: o ritual Yaokwa da tribo Enawene Nawe, que vive às margens do Rio Juruena (noroeste de Mato Grosso); o modo de fazer da viola de cocho em diversas cidades aqui do Estado; e as rodas de capoeira e o ofício dos mestres de capoeira, que é um bem nacional, mas que Mato Grosso também contempla. Focando na parte edificada, temos tombados, na Capital, o Centro Histórico de Cuiabá e, em especial, separadamente, a Igreja do Rosário e São Benedito, que é um tombamento mais antigo. Em Cáceres, é tombado o Centro Histórico e também o Marco do Jauru. Em Chapada os Guimarães, foi feito o tombamento da Igreja de Santana e, em Vila Bela da Santíssima Trindade, as Ruínas e o Palácio dos Capitães Generais. Esses são os bens materiais do Iphan aqui em Mato Grosso, o que não significa que outros bens não sejam igualmente importantes ou que não possam ser tombados mais tarde.

"Patrimônio histórico é identidade. É quem você é. É você poder entrar em um espaço e entender a história da sua família, de quem nós somos"
Marina – Eu não entendo que falta respeito. Eu acho que falta educação patrimonial. As pessoas precisam entender o significado disso tudo. Eu vejo isso muito claramente nos trabalhos de educação patrimonial que acontecem com as escolas, em parceria com o Iphan, nas aulas de história e geografia. Eu sinto que as pessoas se encantam muito quando entendem que essas edificações são de 1800 e tudo o que Centro Histórico significa, o que cada casarão já foi no passado, o que já abrigou, o que significam esses espaços de memória. Eu vejo que, quando as crianças e adolescentes entendem, eles falam que passavam por aqui e não enxergavam isso.
Então, eu não acho que haja um descaso da população. Eu acredito que precisa ser feito um trabalho de educação patrimonial. Meu coração dói muito quando eu ouço as pessoas se referirem aos casarões como ‘velhos’. Eles não são velhos, são históricos! Eles têm memórias guardadas... Tem toda uma vivência da cuiabania muito forte ali.
MidiaNews – Como definir, em poucas palavras, a importância de uma patrimônio histórico?
Marina – Identidade. É quem você é. É você poder entrar em um espaço, como o Centro Histórico, e entender a história da sua família, daquele espaço, de quem nós somos. Os patrimônios históricos dialogam muito com isso, eles abrigam muita cultura imaterial. No Centro Histórico de Cuiabá, por exemplo, se você parar para conversar com as pessoas que moram aqui, existe uma memória, uma história por trás de tudo aquilo. Vai muito além da edificação. A gente costuma falar que o significado vai muito além da pedra e cal. Tem toda uma vivência imaterial que está atrelada àquele espaço. São informações de suma importância para a identidade e valorização do indivíduo, para ele saber quem ele é e que cidade é essa onde ele vive. Esse conhecimento todo ele pode ter no Centro Histórico.
|
Lislaine dos Anjos/MidiaNews |
![]() |
|
Importância de um patrimônio histórico: "Identidade. É quem você é" |
Marina – O tombamento é uma escolha do governo federal de lugares de memória. Qual é o valor de determinado município ou edificação, em nível nacional? Isso não significa que as outras cidades ou edificações não tenham valor, mas, infelizmente, o Iphan precisa pinçar aquelas que tem representatividade nacional, por valores culturais, históricos, enfim. Aqui em Cuiabá há uma discussão muito grande por causa do Porto, que ficou de fora do tombamento. Mas isso não significa que ele não tenha representatividade nacional. Apenas que, por uma escolha política e técnica, não foi abarcado.
MidiaNews – Não é uma escolha feita pela Superintendência do Iphan em Mato Grosso?
Marina – Não. É feito um estudo e quem decide isso é o Conselho Consultivo, no Rio de Janeiro. O que a gente faz aqui é abrir o processo e instruir esse processo. Daí, encaminhamos para Brasília e depois ele vai para o Rio de Janeiro, onde assa por uma análise. A Superintendência advoga em favor do bem, justifica porque esse bem de Mato Grosso merece o registro ou o tombamento, mas a decisão final é deles.
MidiaNews – Então, se um bem ficou de fora, isso não significa que ele não pode integrar a lista, posteriormente.
Marina – Exatamente. Ele ainda pode ser tombado. Qualquer cidadão pode sugerir tombamento ou registro de qualquer bem. São possíveis inúmeros tombamentos e registros, mas precisa haver uma demanda. O Iphan precisa ser provocado, solicitado e instruir bem esse processo, juntar toda a documentação necessária sobre qual a importância desse bem e realizar um levantamento histórico. Agora, por exemplo, estamos fazendo um levantamento para registro da Festança de Vila Bela da Santíssima Trindade, que começa semana que vem. Nós vamos pra lá, vamos fotografar e acompanhar com antropólogos. Existe um trabalho já pronto realizado pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) que também estamos utilizando como base.
MidiaNews – O que significa realizar o tombamento de um bem?
Marina – Tombamento é simplesmente um congelamento. A partir daquela data, nenhuma alteração pode ser feita na fachada e na edificação. Ela deve ser preservada como um todo. O que não significa que não possa ser feita a reparação, manutenção, ajuste, restauro, vedação, climatização do espaço, enfim. Existem inúmeras alterações que podem ser feitas, mas todas elas, sem exceção, precisam ser aprovadas pelo Iphan, das mais simples às mais elaboradas. O que não pode é haver modificação do espaço. Quando se trata de bens materiais, a terminologia usada é tombamento. Já os bens imateriais são registrados.
MidiaNews – Como o cidadão pode solicitar o tombamento, ou registro de um bem?
Marina – O pedido tem que ser formalizado em ofício, justificando a importância daquilo e, se possível, instruir ao máximo o processo. Isso porque, com a estrutura que o Iphan-MT tem hoje, fica muito difícil ir ao local se não tiver uma boa justificativa teórica que embase esse procedimento. Mas é possível tombamento e registro de qualquer bem cultural que seja relevante para o Brasil.
MidiaNews – O Iphan recebe muitas solicitações de tombamento?
Marina – Recebemos poucas solicitações de tombamento. Até hoje, durante a minha gestão, eu só vi um pedido entrando aqui na Superintendência. E, em 2010 e 2011, eu já estava aqui e não me lembro de ter havido algum pedido. A sociedade busca muito pouco o Iphan, tecnicamente falando.
MidiaNews – A partir do momento do tombamento ou registro, há um acompanhamento do Iphan, ou a fiscalização é feita somente a partir de denúncias?
Marina – Não, o Iphan tem uma rotina de fiscalizações que é feita, mas isso não impede que uma pessoa denuncie. Por exemplo, nós fazemos uma visita em Cáceres a cada quinze dias. Então, obviamente, muita coisa pode passar aos olhos do Iphan. Mas temos uma parceria com o município e os fiscais da Prefeitura atuam em conjunto com o Iphan. Eles não fazem o trabalho do Iphan, não podem multar ou embargar uma obra, mas são os nossos olhos lá. Aqui em Cuiabá, é muito imediato. Recebemos denúncias anônimas por telefone e até mesmo por cartas.
|
Lislaine dos Anjos/MidiaNews |
![]() |
|
"Recebemos poucas solicitações de tombamento" |
Marina – Desde o dia 20 de junho, nós estamos habilitados a aplicar multas, e estamos esperando apenas a nossa portaria de nomeação dos fiscais ser publicada no Diário Oficial. Hoje o procedimento do Iphan é o seguinte: nós autuamos e chamamos o proprietário para uma conversa. Quando não conseguíamos essa conversa, nós não tínhamos um mecanismo intermediário antes de ingressar com uma ação civil pública. Agora nós temos, que é a multa.
MidiaNews – Você acredita que com a aplicação de multas, os proprietários irão respeitar mais os imóveis que fazem parte do tombamento feito pelo Iphan?
Marina – Sim, é uma questão que já está funcionando em outros estados do país. Todos estão em fase de implementação e o resultado no Brasil, como um todo, tem sido muito bom. Não de arrecadação, mas de abertura de diálogo com os proprietários, porque é uma forma de pressão. Não é para o comerciante que colocou uma placa errada ser multado. As multas são, por exemplo, para donos de edificações que estão em grandes inventários, com muita gente envolvida, e que precisam de uma pressão para funcionar. Às vezes, o imóvel está no inventário há três gerações e ninguém se sente responsável por ele, o que é muito cômodo. Acontece muito isso aqui no Centro Histórico de Cuiabá, por exemplo.
MidiaNews – Os valores arrecadados nas multas serão aplicados em que? Qual a destinação do que for recolhido?
Marina – Esse recurso não vem para o Iphan. É pago através de Guia de Recolhimento da União (GRU) e vai direto para a conta da União, não sendo destinado necessariamente para patrimônios históricos. Infelizmente, não é um recurso direto. Ou felizmente, também, para não dar a impressão que o Iphan está multando só para receber alguma coisa, para aumentar a nossa receita com a arrecadação.
MidiaNews – Há um balanço do número de notificações feitas pelo Iphan nos últimos anos ou meses?
Marina – Não, mas é absurdo o número de notificações emitidas. Elas acontecem diariamente, porque o Iphan notifica por diversas questões, que vão desde uma placa colocada de maneira inadequada até uma demolição não autorizada. Por exemplo, a cada 15 dias, quando visitamos Cáceres, fazemos uma média de oito notificações. Mas fazemos um balanço semanal que fica sob responsabilidade da equipe técnica.

"As notificações acontecem diariamente, porque o Iphan notifica por diversas questões, que vão desde uma placa colocada de maneira inadequada até uma demolição não autorizada"
Marina – A superintendência em Mato Grosso tem apenas quatro servidores. A estrutura é muito pequena para o tanto que a gente abarca nos quatro municípios, isso só na parte edificada. Então, fica bem complicado colocar tudo em prática, mas nos esforçamos ao máximo. A gente espera que, com a realização de novos concursos públicos, possamos aumentar a nossa equipe, mas não há previsão de nenhum concurso por enquanto. Mas, sem dúvida alguma, nossa equipe precisa ser engrossada. Hoje, no Iphan de Mato Grosso, nós temos duas engenheiras, uma técnica que trabalha no setor administrativo, eu como superintendente e um consultor para patrimônio material, que é um contratado só por esse ano, resultado de uma parceria feita entre a Unesco e o Iphan. Na parte física, temos um espaço novo na Rua Pedro Celestino, onde era a Casa Transitória Irmã Dulce, que foi cedida para o Iphan. Vamos licitar este ano o projeto para aquela casa ainda esse ano para que possamos fazer o restauro no próximo ano.
MidiaNews – Qual seria o número da equipe ideal para auxiliar no funcionamento do Iphan?
Marina – O ideal seria que nós tivéssemos um arquiteto para cada cidade tombada, e um arqueólogo para estudar cada município. O Iphan se emancipou em 2009 e está nascendo ainda. Nós começamos a formatar a nossa equipe, que é muito boa e, apesar de ser reduzida, dá conta do trabalho. Nós abarcamos os quatro municípios, viajamos no fim de semana, enfim, não tem feriado.
MidiaNews – Recentemente, quais as ações de grande porte que foram feitas pelo Iphan-MT, ou que estão em andamento?
Marina – O Iphan assumiu a obra de um casarão no ano passado, que acabou de ser realizada, perto da Praça da Mandioca, na Rua Governador Rondon, 593. Foi recomposta a fachada e restaurada a parte interna da edificação. Agora, o Iphan está realizando uma obra no Centro Espírita que fica localizado no Calçadão da Galdino Pimentel, porque é um espaço de convivência pública. Essas são as políticas mais atuantes do Iphan hoje. Infelizmente, nós não temos ainda uma linha de crédito mais acessível para que os proprietários do Centro Histórico possam fazer restauros em suas edificações. Mas isso é uma política que o Iphan está tentando implementar no Brasil como um todo.
MidiaNews – As políticas do Iphan são sempre nacionais, ou há parcerias com os governos municipais e estaduais?
Marina – As políticas do Iphan geralmente são nacionais. Mas há algumas parcerias que nós desenvolvemos em âmbito estadual. Por exemplo, agora nós estamos nos aproximando da CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas) e das associações comerciais, para buscar soluções para o Centro Histórico de Cuiabá. Eu ainda não tenho, sendo bem honesta, uma diretriz forte de que tipo de trabalho que nós estamos realizando. Mas já estamos dialogando para descobrir quais são as necessidades da região e o que cada um pode fazer. É um trabalho que está sendo feito tanto aqui quanto em Cáceres, onde também temos um Centro Histórico tombado.

"A beleza é de todo mundo, mas o bem continua sendo privado"
Marina – No Centro Histórico de Cuiabá, o tombamento não é de uma edificação, mas de todo o conjunto arquitetônico. Quanto à utilização do espaço, o Iphan não faz restrições a que destino vai ser dado ao espaço. O importante para o Iphan é a preservação da edificação, não só da fachada, mas da edificação como um todo. O uso continua sendo exclusivo do proprietário para fazer o que quiser do bem. O Iphan vai fazer a gestão da arquitetura. A beleza é de todo mundo, mas o bem continua sendo privado. Não existe desapropriação, por exemplo, nem nada desse tipo. Por exemplo, há terrenos vazios aqui no Centro Histórico. Uma construção que for erguida ali não precisa, necessariamente, imitar o estilo das outras. Isso é contra as políticas do Iphan. O que o Instituto faz é sugerir que o dono adeque a construção para manter o ambiente. Porque o tombamento não é de uma ou outra edificação, é do todo. É para que você possa entrar no Centro Histórico e se enxergar num espaço do passado. É a identidade mato-grossense que fica ali registrada, que está materializada nas edificações.
MidiaNews – O Iphan pretende, então, fechar parcerias para revitalizar o Centro Histórico?
Marina – Sem dúvida alguma. Nós não temos hoje condições de investir diretamente com recursos, mas temos alguns projetos, que não posso citar ainda por não estarem formatados com a CDL, mas que serão no sentido de mudar de postura. Ao invés de fiscalizar e ir atrás de quem não faz, nós iremos buscar beneficiar e prestigiar os comerciantes e moradores que tratam bem seus imóveis, que fazem a aprovação de projetos no Iphan e que executam adequadamente os reparos nas edificações. Hoje já existe a isenção do IPTU para imóveis bem conservados aqui no centro, mas estamos buscando outras formas de prestigiar essas pessoas.
MidiaNews – Qual será a primeira ação física a ser implantada no Centro Histórico de Cuiabá?
Marina – A primeira grande obra para Cuiabá é o aterramento da fiação no Centro Histórico, que vai mudar muito a paisagem. Tem um projeto, que é o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) Cidades Históricas, que é um recurso do governo federal para investimento nos centros históricos do Brasil. Aqui em Cuiabá nós já temos um projeto, que deve estar sendo assinado com o prefeito Chico Galindo (PTB) até a próxima semana, que será resultado de uma parceria onde as três esferas, estadual, municipal e federal, entram cada um com uma contrapartida. Em Cuiabá, há o rebaixamento das instalações elétricas e de telecomunicações, associada às instalações de iluminação cênica nas principais edificações e árvores, como a Casa de Bem Bem, que está prestes a ser restaurada. Prevemos, por exemplo, a implantação da rede de saneamento ambiental, atendendo à drenagem de água pluvial para evitar o acúmulo de água aqui no Centro Histórico e a ocupação permanente dos imóveis subutilizados e vazios.
|
Lislaine dos Anjos/MidiaNews |
![]() |
|
"Não são muitos os casarões que estão abandonados" |
Marina – Sim, inclusive elas já fizeram o projeto básico. Porque são três tempos: o projeto básico, o projeto executivo e a execução da obra em si. O projeto básico foi realizado pelas empresas, com um custo relativamente alto. O projeto executivo está orçado em aproximadamente R$ 500 mil e será pago através de recursos da Secretaria de Estado de Turismo (Sedtur). A execução sairá via PAC Cidades Históricas.
MidiaNews – Qual a fonte dos recursos do Iphan?
Marina – Todos os recursos do Iphan são federais. Podemos fazer até um repasse para o Estado ou Município, mas não realizamos obras com recursos outros que não federais. O PAC Cidades Históricas, por exemplo, é uma linha de crédito do Governo Federal para investimento. Não é o nosso investimento próprio.
MidiaNews – Quanto o Iphan-MT recebe, e como são aplicados esses recursos?
Marina – O nosso investimento próprio, no ano passado, foi de R$ 250 mil aqui em Mato Grosso, e investimos basicamente em Cuiabá. Ele foi usado para custear as obras de reforma do casarão de uma senhora que não tinha condições financeiras, para restaurar a fachada do Centro Espírita e para a contratação de dois projetos, que é do Palácio dos Capitães Generais e de restauração da residência de uma outra senhora que não tinha condições. Mas não conseguimos realizar a obra dela, porque o projeto ficou mais complexo do que a gente imaginava e a gente precisou terceirizar, porque não temos engenheiros sanitários e elétricos aqui. Como a gente gastou muito bem em 2011, nós conseguimos aumentar os nossos recursos este ano para R$ 555 mil e vamos investir 100% deles em Vila Bela da Santíssima Trindade, com a restauração do Palácio dos Capitães Generais. O projeto que solicitamos no ano passado já está ficando pronto e a licitação para a obra deverá ocorrer ainda esse ano. O recurso já está na conta do Iphan e é uma questão apenas de se organizar para a gente licitar esse trabalho. Ainda não há previsão para o lançamento do edital de licitação, mas acredita que será mais próximo do final de agosto.
MidiaNews – Você disse que o Iphan não pode abraçar todas as causas, como é o caso do Centro Histórico, e resolver revitalizar tudo sozinho. Como são feitos os investimentos do Iphan?
Marina – O Iphan investe em alguns casos específicos. Do contrário, as ações do Governo Federal são voltadas para o macro. Por exemplo, aterramento de fiações de um espaço, revitalização de um espaço comunitário. Os investimentos do Iphan não podem ser localizados em uma ou outra edificação. Eles têm um contexto mais macro, de atender a todo o Centro Histórico.
O Iphan não faz seleção de uma ou outra estrutura, a não ser em caso comprovado de não condição financeira. Mas há casos em que o Iphan pode intervir, fazendo uma obra emergencial em uma edificação que está sob risco, por exemplo, e cobrando judicialmente do proprietário depois. Ou então, pressionamos para que o proprietário faça a obra.
Em Cáceres, por exemplo, nós vamos fazer a revitalização da biblioteca, que era a antiga Câmara dos Vereadores, com recursos do PAC Cidades Históricos. Em Vila Bela, o Palácio dos Capitães Generais, que também tem um projeto de revitalização em parceria com o Iphan e que, se não sair pelo recurso do PAC, será feito com recursos próprios do Iphan.
MidiaNews – Há muitos casarões abandonados no Centro Histórico de Cuiabá, como aparenta?
Marina – Não são muitos os casarões que estão abandonados. É que tem alguns casos que são emblemáticos e eu entendo a indisposição das pessoas que veem e se sentem incomodados. Mas a maioria dos casarões está bem conservada. E também, é preciso entender que não é porque uma pintura não está realizada que significa que aquele casarão não tenha vida, que não esteja bem cuidado. Às vezes, um detalhe chama a atenção. Tem gente que olha uma casa pintada e acha que ela está bem cuidada. Mas você tem, às vezes, uma fachada que não está tão belamente restaurada e a edificação está muito bem conservada, com vida, com dinâmica.

"Tem gente que olha uma casa pintada e acha que ela está bem cuidada"
Marina – Fala-se muito dos casarões, que eles estão abandonados, mas todos já foram devidamente notificados. O Iphan está indo atrás de acordo com esses proprietários. Não temos como tomar para o Iphan todos esses imóveis. Mas isso não quer dizer que o Iphan não tenha ido atrás, autuado, buscado estabelecer parcerias e outras possibilidades para recuperar aquele local. Às vezes, aparece aqui uma entidade buscando um espaço físico para alguma coisa, nós apresentamos a casa, a planta daquele casarão, o proprietário, e tentamos estreitar o contato entre os dois entes. É um trabalho que começamos no início deste ano e inúmeras possibilidades já estão sendo pleiteadas. Por exemplo, têm algumas instituições que querem implantar salas de teatro, escolas de música... Infelizmente, o Iphan não pode multar hoje por abandono, somente em casos de depredação, falta de cuidado, de manutenção.
MidiaNews – Você acredita que há possibilidade de implantação de todos esses projetos?
Marina – Existem problemas, eu não estou dizendo que não, mas eu vejo um caminho muito promissor aqui no Centro Histórico. Nós temos recebido muitos projetos e temos mais de cinco projetos só para aqui em Cuiabá, e a cada dia chega mais uma leva. Essa semana mesmo eu estou encantada com as possibilidades que existem para o Centro Histórico de Cuiabá. Então, eu entendo que é um lugar que ainda vai ter muita repercussão, tanto na parte turística até 2014 – que o grande foco que nós temos hoje – quanto cultural, não só para os visitantes de fora, mas para que as pessoas daqui tenham vontade de visitar o Centro Histórico, de passear, visitar um museu, uma casa antiga, centros culturais. É uma tendência.

"Estou encantada com as possibilidades que existem para o Centro Histórico de Cuiabá"
MidiaNews – A maioria dos bens materiais tombados pelo Iphan são de propriedade de famílias, ou do governo?
Marina – Aqui em Cuiabá, a maioria dos bens tombados são particulares, por conta do Centro Histórico. Mas o Iphan não faz distinção alguma, porque não precisa da anuência do proprietário para que haja o tombamento. O proprietário pode até pedir o embargo do tombamento. Mas, a partir do momento em que foi homologado, ele só pode pedir o destombamento do bem caso ele solicite uma reforma, não ter condições de arcar com os custos e o Iphan não socorrê-lo. Nesse caso, ele pode solicitar o destombamento.
MidiaNews – Já houve pedidos de destombamento em Mato Grosso?
Marina – Não, isso nunca aconteceu. Porque as pessoas até podem se sentir prejudicadas com o tombamento, mas é só uma forma de pensar, porque um Centro Histórico bem gerido agrega valor no seu produto. É um espaço de turismo, então, existem possibilidades variadas. Há opiniões distintas sobre o tombamento, mas é fato que ele é de extrema importância para a preservação da história local.
![]() |
| 12 Comentário(s). |
| Israel de Abreu 25.10.12 13h21 | ||||
| Marina está certa, sempre acreditei nela. Após varios anos de estudo ela conseguiu e vai melhorar ainda mais. Obrigado! | ||||
|
| Jair de Almeida 16.07.12 22h36 | ||||
| Verifica por favor o imóvel na Rua Joaquim Murtinho e veja a demolição e mudança da arquitetura ora tombada e agora totalmente mudada sua fachada. | ||||
|
| Sérgio G 16.07.12 21h28 | ||||
| Carlos Zattar, a porta da rua é a serventia da casa, thauuuuuu. | ||||
|
| Roberto Hadade Souza 16.07.12 20h25 | ||||
| É MUITO DIFERENTE A DEFINIÇÃO DE UM PATRIMÔNIO HISTÉRICO EUROPEU COM0 UM CASTEL0, MUSEUS COM UMA DESSAS CASAS FEIAS E ANTIGAS CAINDO AOS PEDAÇOS... E O PIOR AO INVÉS DE DEIXAREM MODERNIZAR OS IMÓVEIS PARA QUE NO FUTURO SEJA CONSIDERADO REALMENTE UM BONITO PATRIMÔNIO HISTÓRICO, FICAM INSISTINDO NESSAS CASAS FEIAS.... | ||||
|
| marta 16.07.12 19h49 | ||||
| falta educação patrimonial , ambiental....cade o governo para conversar com os donosdeses imoveis..? | ||||
|
| Leia mais notícias sobre : |
Publicidade
Ultimas
-
23H30 | Mundo
Ataque em Londres pode ter relação com terrorismo, diz premiê britânico -
23H00 | Judiciário
STF: crédito de ICMS de exportadoras é imune a PIS -
22H30 | Esportes
Santos perde a maior renda da história em jogo contra o Flamengo -
22H00 | Economia
Americana de 18 anos cria bateria que recarrega em 20 segundos -
21H45 | Negócios
África virou "realidade para indústria brasileira", diz presidente da CNI 
22 de Maio
Publicidade











